Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Guerra mata futebol na Crimeia e faz clube e torcida se dividirem

Conflito entre Ucrânia e Rússia foi responsável pelo êxodo de jogadores e divisão do Tavriya em duas agremiações

Jamil Chade, enviado especial / Simferopol, Crimeia, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 05h00

No velho estádio de Simferopol, a arquibancada surrada ainda guarda marcas da torcida que por décadas lotou o local para ver o time da cidade. Primeiro, como equipe soviética. Depois, como time ucraniano. Hoje, porém, ela está praticamente em silêncio. A guerra e a situação indefinida da Crimeia depois da anexação pela Rússia enterraram o futebol profissional no local. Alguns de seus principais jogadores fugiram e seus torcedores estiveram em lados opostos das trincheiras.

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Em Simferopol, o Tavriya dominava o futebol. Foram seus jogadores que, em 1992, venceram o primeiro Campeonato Ucraniano, quando o país conseguiu sua independência da Rússia. Mas o conflito entre Ucrânia e Rússia, em 2014, quando Vladimir Putin anexou a Crimeia, dividiu um clube e uma torcida. 

Parte dos torcedores lutou por Moscou, enquanto outros defenderam a Ucrânia.

O resultado ainda foi a inesperada divisão do time em dois. Um deles ainda joga em Simferopol, a capital da Crimeia. O outro, com jogadores exilados, está a 200 quilômetros de distância, em território ucraniano. 

 

O clube na península anexada ganhou um novo nome, o TSK-Tavriya, e foi imediatamente aceito pela Federação Russa de Futebol. Mas, diante da falta de reconhecimento da Uefa, os times da Crimeia não foram autorizados a jogar no Campeonato Russo nem podem atuar na Ucrânia. 

Para que o Tavriya mudasse de país, as federações nacionais de ambos os lados da fronteira teriam de estar de acordo. Kiev, porém, deixou claro que jamais aceitaria tal situação, sob o risco de reconhecer implicitamente que o território anexado não era mais seu. 

Ocupando o cargo na época de secretário-geral da Uefa, o atual presidente da Fifa, Gianni Infantino, rapidamente entendeu que não poderia permitir que os times da Crimeia jogassem na Rússia, já que isso significaria que a entidade estava chancelando a anexação. Num gesto desesperado para não ver o futebol afundar na Crimeia, uma liga com oito times foi estabelecida, incluindo ainda o FC Sevastopol e o Zhemchuzhyna Ialta. 

Os funcionários do velho estádio confirmam que raramente o público é significativo. “Num bom dia, temos 500 torcedores”, afirmou Igor, uma espécie de zelador do prédio. “Um jogo normal tem hoje 200 pessoas. Antes, a média de público era de pelo menos de 2 mil.” 

Igor permitiu que a reportagem do Estado percorresse o local, que passava por sua primeira reforma em anos para trocar a grama. “Não dava mais. Havia trecho que não parecia nem mais um campo de futebol”, confessou o administrador. 

O zelador, porém, alertou que fotos não eram permitidas sem “uma autorização política” e sugeriu cautela com os cachorros agressivos e abandonados que circulavam pelo local. Torres de iluminação enferrujadas servem de ninhos de ratos, enquanto bares na rua de acesso ao portão principal mostram, pelos televisores, os modernos estádios da Copa. 

O orgulho de Igor em falar do time não era por acaso. Fundado em 1958, o clube chegou a competir em quatro edições de torneios europeus - é um dos quatro times ucranianos que nunca foram rebaixados desde a independência de Kiev depois do fim da União Soviética. 

Hoje, a confusão criada pela anexação atinge até os juvenis. Garotos registrados em clubes da Crimeia antes de 2014 são obrigados a se apresentar como ucranianos, enquanto aqueles que surgiram depois da anexação à Rússia podem ser considerados como russos. 

Do outro lado da fronteira, na Ucrânia, os torcedores do Tavria que fugiram da Crimeia também criaram seu próprio clube: o Tavria Simferopol. Mesmo vivendo na cidade de Beryslav, os torcedores no exílio fizeram questão de manter o nome do time e da cidade de origem. 

Hoje, na terceira divisão, ele conta com seus fiéis seguidores que, a cada partida, deixam suas casas na Crimeia e cruzam a fronteira para a Ucrânia. Para não serem detidos no retorno para suas casas, há uma regra de que não podem ser fotografados nas arquibancadas. 

Para os dirigentes e políticos ucranianos, a situação de seu próprio Tavriya tem uma dimensão simbólica. A manutenção do clube serve como um recado de que as instituições ucranianas continuam a existir, apesar da anexação ao país de Putin. “O futebol da Crimeia continua sendo ucraniano”, insistiu Hryhoriy Surkis, vice-presidente da Uefa e ex-presidente da Federação Ucraniana de Futebol. “Essa anexação é temporária”, garantiu.

 

 

 

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