Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Há 20 anos, penetras na final

A França me deu uma história inesquecível de Copa, mas sou Croácia neste domingo

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 04h00

Vinte anos atrás, a França estreava numa final de Copa do Mundo, assim como eu – mas, no meu caso, foi a primeira e a única. A história daquela noite no Stade de France, em Saint Dennis, me marcou profundamente, não só pela triste derrota do Brasil por 3 a 0 ou pela crise de Ronaldo. Eu havia me emocionado ao assistir em campo às vitórias da seleção contra Dinamarca e Holanda. Então, estava no país da Copa e meu país estava na final. Era o sonho de qualquer apaixonado pelo futebol. Mas não havia ingressos.

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Milhares de torcedores tinham comprado pacotes nas agências de viagens, mas, na véspera, descobriram que não receberiam os ingressos. A imprensa noticiou depois que o Comitê Organizador da Copa tinha dado quantidade de tíquetes insuficiente para agências. Mas muitos brasileiros tomaram o metrô parisiense para o Stade de France, mesmo sem garantia de participar da festa. Entre eles, eu e meu primo José Ely de Miranda Júnior, filho de Zito, um dos maiores jogadores do Brasil, campeão em 1958 e 1962.

É difícil acreditar, mas os ingressos de 1998 eram quase idênticos, de papel, da mesma cor, só com a inscrição pequena que indicava se tratar da final, por exemplo. Nós tínhamos ingressos não usados do jogo entre Holanda e Croácia, pelo terceiro lugar. Era a única chance. Com os tíquetes antigos nas mãos e a coragem de quem mal saiu da adolescência, entramos na fila. “Allez-y”, disse o porteiro ao checar os ingressos. “Vai em frente”. Ele só destacou o canhoto. E, simples assim, estávamos lá dentro. Pulávamos de alegria. Outros torcedores deram US$ 100 ao fiscal da entrada. 

Enquanto fazíamos malabarismos para sentar, já que as cadeiras eram numeradas e os donos chegavam, o Brasil vivia uma aflição. A primeira escalação não tinha o nome de Ronaldo. Era 1998, sem celular, não soubemos de nada. Nossa esperança era enorme quando tocou o hino nacional. Acomodei-me entre um francês e um brasileiro. Eles foram com a minha cara. Meu primo agachou-se ao lado de cadeirantes.

 

Com os dois primeiros gols de Zidane, aquele que parecia um dia de sorte foi perdendo o brilho. Ainda ficamos para ver a França levantar a taça ao som de We are the Champions. E, no metrô da volta, até o maquinista gritava “allez le Bleus” pelo alto falante. De repente, o trem parou numa estação qualquer e todos tiveram de descer – era 1 hora e o metrô encerraria as atividades. Andamos a madrugada toda pelas ruas de Paris. De verde-amarelo, ouvimos as infinitas provocações dos vencedores, que pareciam só saber dizer “trois à zéro (três a zero)”.

Ver agora a linda Champs-Elysées cheia de franceses comemorando mais uma final me lembrou de cada minuto daquele 12 de julho de 1998. A França me deu uma história inesquecível de Copa, mas sou Croácia neste domingo.

*RENATA CAFARDO É REPÓRTER ESPECIAL DO ‘ESTADÃO’

 

 

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