Há 20 anos, São Paulo conquistava o mundo pela segunda vez

Equipe de Telê Santana batia o Milan por 3 a 2 em Tóquio, repetindo o feito do Santos de Pelé

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

12 de dezembro de 2013 | 07h55

SÃO PAULO - Os lances finais da partida disputada há exatos 20 anos no Estádio Nacional de Tóquio fazem parte de um roteiro perfeito na história do São Paulo. O lançamento de Toninho Cerezo, feito aos 41 minutos do segundo tempo, não deixou Müller na cara do gol. O passe longo estava mais para o zagueiro Baresi ou para o goleiro Rossi do que para o atacante são-paulino. Por sorte, ao se virar para evitar o choque, Müller tocou o calcanhar esquerdo na bola, que mansamente acabou no fundo do gol do Milan.

De nada adiantou o esforço de Baresi. O São Paulo, naquele momento, desempatava o jogo mais uma vez. Era o gol do segundo título mundial, conquistado dia 12 de dezembro de 1993.

A partida contra o Milan encerrava temporada que parecia interminável para o time de Telê Santana. Campeão da Libertadores, Recopa, Supercopa, além dos torneios de Compostela, Jalisco, Santiago e Los Angeles, o São Paulo havia disputado 95 partidas até o jogo de Tóquio. Foram 46 vitórias, 28 empates e 21 derrotas, com 160 gols marcados e 90 sofridos. A final do Mundial Interclubes foi disputada logo após a eliminação no Campeonato Brasileiro, para o Palmeiras, na partida que valia vaga na final.

Se vencesse, o itinerário de 1992 seria repetido. O São Paulo iria ao Japão e voltaria para decidir o campeonato - no ano anterior, a decisão contra o Barcelona deu-se entre as duas finais do Paulistão, vencido pelo time de Raí e Müller.

A viagem até o Japão ocorreu no sábado à noite, 4 de dezembro. Após a derrota por 2 a 0 para o Palmeiras, a delegação são-paulina deixou o Morumbi às 19h e correu para o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, chegando ao local às 23h40. No saguão, com a presença de 700 torcedores, ainda deu tempo de reclamar do árbitro do clássico, Dionísio Domingos, considerado culpado pelo resultado. Ao entrar no avião, porém, os jogadores só falavam na decisão de Tóquio.

"A gratidão é enorme pra mim. Não esperava que algo assim aparecesse tão rápido em minha vida", disse à época o meia Juninho Paulista, que havia chegado ao clube seis meses antes. O meia, que viera do Ituano, era um dos 20 jogadores do elenco tricolor. Completavam a lista de Telê: Zetti, Cafu, Válber, Gilmar, Ronaldo, Ronaldo Luís, André, Dinho, Doriva, Toninho Cerezo, Luís Carlos Goiano, Leonardo, Palhinha, Müller, Guilherme, Matosas e Valdeir.

Juninho admite que não esperava entrar no grupo. Segundo ele, durante o Torneio de Compostela, disputado no começo de junho daquele ano, oito jogadores do São Paulo serviam a seleção brasileira de Carlos Alberto Parreira. "Mesmo assim eu era reserva. Achei que seria difícil entrar no time", lembra.

SEM RAÍ

Principal jogador do time, Raí deixara o clube rumo ao Paris Santi-Germain após a conquista da Libertadores, em maio, contra a Universidad Católica. Em setembro, o meia já vestia a camisa do clube francês. Foi preciso, então, suprir a falta do líder e capitão. Coube a Palhinha desempenhar o papel do ex-camisa 10 são-paulino. "Tivemos quatro meses para aprender a jogar sem o Raí. A equipe voltou a ficar entrosada", conta Juninho.

A opção por Doriva e Toninho Cerezo no meio de campo, ao lado de Dinho e Leonardo, ocorreu no penúltimo treino antes da partida contra o Milan. Como havia feito durante todo o segundo semestre, a velocidade de Juninho seria usada no segundo tempo, uma arma secreta. No mesmo treino, os titulares marcaram cinco gols nos reservas. O uruguaio Matosas atuou como líbero, numa linha de impedimento parecida com a do rival italiano.

DVD

No dia 8 de dezembro, Telê Santana ainda analisava as fitas com os jogos do Milan. Naquela quarta-feira, o treinador recebeu os lances da vitória do time por 1 a 0 sobre o Torino, que havia sidos disputado três dias antes. Telê tinha conhecimento de que a defesa do Milan fazia uma linha de impedimento. Era uma das armas do São Paulo. A ideia era que Müller e Palhinha aproveitassem o espaço vazio na frente.

A jogada com passes curtos, utilizando as laterais, foi treinada no mesmo dia em que um espião italiano, a mando do técnico Fabio Capello, tentou se infiltrar entre os jornalistas brasileiros no campo da Tokyo Gás. No dia, o São Paulo iria também preparar uma jogada especial para a "linha burra" da zaga do Milan. O treino ficou para o dia seguinte, sem a presença da imprensa. "Assim, vou poder trabalhar mais sossegado", disse Telê à época.

A diretoria do São Paulo tentou repetir os passos do ano anterior. O primeiro trabalho físico, por exemplo, ocorreu no campo de Kodaira, o mesmo usado antes da decisão diante do Barcelona. O time voltaria a se hospedar no Tokyo Prince. Nem mesmo a distância fez o time mudar de ideia. O local dos treinamentos ficava a 60 quilômetros do hotel. A delegação levava até duas horas para chegar ao local, por causa do congestionamento.

Mais duas medidas foram tomadas: três brasileiras residentes no Japão foram contratadas e a presença das esposas dos jogadores foi liberada. Dessa forma, as mulheres de Palhinha, Müller, Ronaldo e Zetti foram ao Japão para acompanhar a decisão.

SUPERIORIDADE

"Nossa motivação cresce porque o Milan é considerado o melhor time do mundo". Foi assim que Zetti, um dos líderes do time são-paulino, encarava a disputa do Mundial. O goleiro estava certo. Assim como o São Paulo, o Milan era um time vencedor. Com Fabio Capello, havia conquistado o bicampeonato italiano em 1992 e 1993. A equipe, contudo, chegou à decisão como convidada. Derrotado por 1 a 0 pelo Olympique de Marselha na final da Liga dos Campeões, em 26 de maio - mesmo dia da vitória do São Paulo sobre a Universidad Católica -, o Milan jogou a final devido à punição imposta ao time da França, que havia manipulado resultados no Campeonato Francês.

No total, o Milan tinha oito jogadores da seleção italiana e sete atletas estrangeiros, como o meia francês Papin e o atacante romeno Raducioiu. Desailly, que chegara do Olympique de Marselha, também era titular do time de Capello."É uma equipe mais aguerrida que a do Barcelona. E está bem preparada na marcação", disse Telê Santana, que admitia que o adversário estava melhor fisicamente por estar no meio da temporada europeia.

O Milan chegou ao Japão na quarta-feira, a menos de quatro dias da decisão. O time tinha uma vantagem em relação ao São Paulo: o fuso horário, que era de oito horas. No total, 18 jogadores desembarcaram em Narita. Para Juninho, os europeus não sabiam ao certo o que encontrariam. "O excesso de confiança atrapalhou o Milan. Eles não tinham noção da nossa qualidade. Naquela época era difícil ter informações", conta.

O JOGO

Dois trunfos acompanhavam o São Paulo naquele 12 de dezembro: Müller, desde 1985, nunca havia perdido uma final, conquistando sete títulos. Zetti, por sua vez, estava invicto em decisões por pênaltis. Foi o Milan, no entanto, que começou assustando. Jogando no campo de ataque, sem dar espaço para o São Paulo ter e tocar a bola, a equipe italiana acertou o travessão após Massaro bater de fora da área, encobrindo o goleiro brasileiro. A resposta são-paulina foi imediata e letal. Aos 19, André virou o jogo, da esquerda para a direita. Cafu cruzou de primeira e Palhinha, no meio da área, tocou para fazer 1 a 0.

No segundo tempo, Massaro empatou logo aos três minutos. Após chutão para a área de Desailly, o atacante se aproveitou da linha de impedimento - justo a arma brasileira para a final - e tocou no canto esquerdo de Zetti. Aos 14, o São Paulo voltaria a ficar na frente: Leonardo escapou pela esquerda, chegou à linha de fundo e cruzou rasteiro. Cerezo, no segundo pau, só empurrou para as redes. Depois do gol, Telê lançou Juninho no lugar de Palhinha. "A equipe estava muito equilibrada. Encontrei muitos espaços".

Mas o São Paulo perdeu a oportunidade de matar o jogo. A nove minutos do fim, o Milan empatou mais uma vez. A bola alçada na área pela direita foi desviada por Massaro. Papin, de cabeça, antecipou-se a Válber e marcou o segundo gol italiano.

Aos 41, veio o desfecho ideal para a temporada. "Todas as grandes finais e decisões que disputei ao longo na minha carreira foram marcantes, mas o título mundial de 1993 se tornou uma partida inesquecível graças ao gol inusitado que fiz no finalzinho", disse Müller ao Estadão em 2009.

O toque improvável no calcanhar esquerdo, que fez a bola morrer no fundo do gol, foi seguido de um sonoro "Este gol é para você, palhaço". Era uma resposta ao zagueiro Costacurta, que havia o provocado durante toda a partida. De acordo com o herói do título, foi apenas uma coisa de momento. 'Não tinha nada pessoal contra o Costacurta, tanto que no ano seguinte, nos Estados Unidos, nós nos encontramos na Copa do Mundo e conversamos normalmente", lembra Müller.

Com a conquista, o São Paulo entrou para o seleto grupo de bicampeões mundiais. Nele, até então, estavam os uruguaios Nacional e Peñarol, o próprio Milan, a Inter de Milão, o Independiente e o Santos. Telê Santana, por sua vez, desmistificou a fama de pé-frio, levando o São Paulo às maiores glórias de sua história.

FICHA TÉCNICA

SÃO PAULO 3 X 2 MILAN

SÃO PAULO -  Zetti; Cafu, Válber, Ronaldão e André Luiz; Doriva, Dinho, Toninho Cerezo e Leonardo; Muller e Palhinha (Juninho). Técnico: Telê Santana.

MILAN - Rossi; Panucci, Costacurta, Baresi e Maldini; Albertini (Orlando), Donadoni e Desailly; Massaro, Papin e Raduciou (Tassoti). Técnico: Fábio Capello.

GOLS - Palhinha, aos 19 do primeiro tempo; Massaro, aos 3; Cerezo, aos 14, Papin, aos 36; e Müller, aos 41 minutos do segundo tempo.

ÁRBITRO - Joel Quinou (FRA)

PÚBLICO - 52.275 pagantes

LOCAL - Estádio Nacional de Tóquio

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