Flávio Canalonga/Estadão - 03/09/1989
Flávio Canalonga/Estadão - 03/09/1989

Há 25 anos, Rojas simulava contusão em partida contra o Brasil

Farsa protagonizada pelo goleiro chileno no jogo disputado no Maracanã resultou em punições severas da Fifa meses depois

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2014 | 07h00

A vaga da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1990 estava praticamente garantida quando um sinalizador caiu próximo ao goleiro Rojas, capitão e líder do Chile na partida disputada sob os olhares de 140 mil torcedores no Maracanã há exatos 25 anos. O incidente, que ocorreu aos 23 minutos do segundo tempo - oito minutos depois de Careca abrir o placar - tornou viável o plano do camisa 1, que tentava adiar o confronto, levando a disputa para um campo neutro.

Em segundos, o goleiro estava caído e ensanguentado, com um corte de quase três centímetros acima do olho esquerdo. Pouco depois, todos os jogadores chilenos cercaram Rojas, defendendo o capitão. Carregado pelo time como um mártir, o goleiro foi levado para o vestiário do Mário Filho. Medicado, levou quatro pontos no corte. O Chile, alegando falta de segurança, não voltou ao gramado e adiou a decisão.

A farsa, porém, não demoraria a ser descoberta. Imagens mostraram, no dia seguinte, que Rojas continuou em pé após o sinalizador atirado pela torcedora Rosenery Mello, que navegou na onda e chegou à capa da revista Playboy, tocar o gramado, ao lado do jogador. Caído, Rojas não apresentava nenhum ferimento até levar as mãos à cabeça.

Em dezembro daquele mesmo ano, a Fifa julgou o caso e definiu a punição: Rojas jamais voltaria a jogar futebol. Ele forjou o corte, registrou a Fifa. A seleção chilena, por sua vez, também estava fora da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Na tentativa de diminuir a pena, o goleiro confessou a farsa. "Mantive um bisturi na luva durante o jogo. Quando vi aquela fumaça perto de mim, me cortei. Saiu muito sangue", disse no fim de maio de 1990.

Ao explicar o que aconteceu, Rojas responsabilizou outros jogadores da sua equipe. O plano, segundo o capitão, teria sido maquinado dois dias antes da viagem ao Rio, com a ajuda do zagueiro Fernando Astengo, que já estava suspenso por cinco anos ao ser acusado de incitar jogadores a abandonar o campo. Já o médico da seleção, Alejandro Kock, teria fornecido o bisturi a Rojas. O técnico Orlando Aravena, também punido por cinco anos pela Fifa, acabou não mencionado pelo goleiro.

No dia seguinte à confissão de Rojas, Astengo desmentiu a versão do colega. "Ele não quer assumir a culpa sozinho e quer arrastar outras pessoas junto", disse o segundo capitão da seleção do Chile naquela partida contra a seleção brasileira 25 anos atrás.

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'Não guardo rancor de Rojas, queria poder ajudá-lo', afirma Astengo

Ex-zagueiro chileno acabou suspenso no auge da carreira, mas esqueceu o episódio ocorrido na noite de 3 de setembro de 1989

Entrevista com

Fernando Astengo

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2014 | 07h00

Fernando Astengo vivia o auge da carreira em meados de 1989. Titular da seleção chilena, o zagueiro era também um dos destaques do Grêmio desde 1987, ano do tricampeonato gaúcho - seria penta nas temporadas seguintes. No mesmo ano, participou da histórica vitória por 4 a 0 sobre a seleção brasileira na Copa América - na ocasião, a equipe chilena ficou com um inédito vice-campeonato, após passar pela Colômbia na semifinal.

O episódio ocorrido no Maracanã 25 anos atrás praticamente colocou fim à carreira de Astengo. O zagueiro provavelmente jogaria no futebol italiano a partir de 1990. O retorno aos gramados ocorreu somente em março de 1993, depois de três anos e meio, após uma anistia concedida pela Fifa no fim de 1992. Na Unión Española, clube que o revelou, Astengo voltou a sorrir e tentou esquecer a noite de 3 de setembro de 1989. A carreira foi encerrada definitivamente dali a cinco anos, quando Astengo completou 38 anos.

Depois de 25 anos, o comandante chileno no fim da década de 1980 revela ao Estado que não guarda mágoa de Rojas e que ficaria calado se pudesse voltar no tempo. Astengo, inclusive, tentou ajudar o ex-companheiro ao saber dos problemas de saúde que Rojas enfrenta atualmente.

Quem decidiu abandonar o gramado do Maracanã?

Toda a equipe. Apenas perguntei, como capitão, se queriam continuar jogando. Eles disseram que não. Então comuniquei ao presidente da Federação Chilena, Sérgio Stoppel. E ele decidiu que não voltaríamos ao campo.

Rojas agiu sozinho na farsa?

Soube que algumas pessoas o ajudaram antes do jogo, mas nunca me falaram os nomes. Ele falou depois que eu não tinha ligação com isso, que não participei de nada.

Houve alguma conversa entre vocês antes do jogo?

Nunca. Eu não falei com ele antes da partida. Não éramos nem amigos, apenas companheiros de equipe.

O que você achou da punição da Fifa?

Muito exagerada. Cinco anos só porque falei que fui responsável pela saída de campo? Eu era um simples jogador, eu não podia retirar a equipe. A única autoridade no vestiário era o Sérgio Stoppel. Eu não tinha autoridade sobre ninguém naquele momento.

Como foi o retorno aos gramados, em 1993?

Foi bom. Consegui voltar a jogar bem e me aposentei apenas aos 38 anos. Mas senti muito o tempo que fiquei afastado. Eu treinei durante esse tempo todo para não ficar parado e ter possibilidade de voltar a jogar. É claro que se não tivesse acontecido aquilo seria diferente. Eu tinha uma oferta da Lazio, da Itália.

Estava quase fechado?

O clube tinha interesse de me contratar logo após as Eliminatórias da Copa. Um diretor italiano chegou a falar com o Grêmio. Isso ocorreu durante a Copa América.

Qual foi a postura do Grêmio após o episódio?

Eles me trataram bem. Voltei ao clube e pedi para me liberarem para eu voltar ao Chile. Mantenho contato com eles até hoje. Em 2010, me fizeram um convite para assistir um jogo no Estádio Olímpico. Me deram até uma camisa do time com o meu nome.

Você falou com Rojas alguma vez depois da farsa?

Nunca mais falei com ele, não tive a oportunidade. Soube que está bastante doente. Fizeram um jogo em benefício dele no ano passado. Me ofereci para jogar porque ele está doente. Queria ajudá-lo. Os anos já passaram. As coisas foram esquecidas, não guardo rancor. Não há nada. Está tudo esquecido. Tudo está tranquilo.

O que você faria se pudesse voltar ao dia 3 de setembro de 1989?

É difícil. Ficaria calado, em campo. Nós não imaginávamos uma punição tão forte. Imagina, deixar uma pessoa sem jogar pelo resto da vida. Mataram uma pessoa no futebol. Para mim foram cinco anos. A Fifa foi muito dura. Uma suspensão menor bastava, um ano, dois anos... Mais que isso não. Para a Federação, uma multa. Bastava isso.

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Afastado do futebol desde 2009, Rojas está à espera de transplante

Doente, ex-capitão da seleção chilena evita falar sobre o episódio que encerrou sua carreira de jogador depois de punição da Fifa

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2014 | 07h00

Depois de protagonizar a farsa no Maracanã, Rojas voltou ao futebol aos 37 anos, pelas mãos de Telê Santana, que o convidou para integrar a comissão técnica do São Paulo, já em 1994. Afastado do futebol há cinco anos, o chileno tem outra batalha a vencer: doente, o ex-capitão luta por um transplante de fígado.

Rojas tem uma forte ligação com o Brasil desde 1987, quando o próprio clube paulista contratou o goleiro após brilhante atuação na partida diante do Colo-Colo, válida pela Libertadores daquele ano. De volta ao Morumbi cinco anos depois de simular a contusão contra o Brasil, o jogador reencontrou a felicidade.

Em 2003, como treinador durante oito meses, Rojas levou o São Paulo de volta à Libertadores, depois de dez anos, ao terminar o Campeonato Brasileiro na terceira colocação. Em março de 2005, entretanto, o São Paulo o demitiu após os técnicos Cuca e Leão passarem pelo clube. "Não consigo ver minha vida fora do São Paulo", disse à época ao Estado.

O último trabalho do ex-capitão da seleção chilena deu-se no Sport, como preparador de goleiros. No começo de 2011, Rojas foi diagnosticado com hepatite C após exames de rotina. Desde então, o ex-arqueiro da seleção do Chile está afastado do futebol. 

À espera de um transplante de fígado, o chileno vive em São Paulo. Por telefone, a esposa de Rojas afirmou ao Estado que o ex-goleiro não tem mais nada a declarar sobre a partida contra o Brasil no Maracanã, pois tudo já havia sido contado ao longo desses 25 anos.

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Careca achou punição ao Chile severa e chegou a temer nova partida

Atacante estava próximo ao lance no momento em que Rojas caiu no chão após o sinalizador ser lançado da arquibancada do Maracanã

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2014 | 07h00

O atacante Careca viveu um grande momento ao marcar o gol da classificação da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 1990. Lançado por Bebeto, o artilheiro invadiu a área, cortou o zagueiro e bateu forte para abrir o placar no Maracanã. A bola, que ainda tocou em Rojas, entrou lentamente na meta chilena.

O entusiasmo deu lugar à preocupação poucos minutos depois, quando o sinalizador lançado das arquibancadas localizadas atrás do gol do Chile caiu a poucos  metros de Rojas. Careca era o jogador brasileiro mais próximo da área quando o goleiro desabou no gramado. "Eu cheguei perto e já tinha três chilenos em cima dele. Ele estava rolando no chão, mas eu não vi sangue. A mão dele estava perto da cabeça, encobrindo. Depois, o sangue apareceu", disse o ex-centroavante.

Logo após Rojas se cortar e a entrada do médico chileno ao campo, seus companheiros de equipe começaram a protestar contra a torcida brasileira. Neste momento, Careca  se afastou do local. "No começo, imaginei mesmo que o rojão tivesse acertado o goleiro. Até pedi para o pessoal entrar para atendê-lo, porque achei que ele tinha desmaiado", conta Careca.

Depois de 25 anos, o craque brasileiro admite que temeu pela classificação do Brasil para o Mundial da Itália. O Brasil precisava apenas do empate no Maracanã para conseguir a vaga - no jogo de Santiago, o empate por 1 a 1 deixou o time de Lazaroni em boa situação. Até Rojas ser desmascarado, cogitou-se punições à seleção brasileira. "Fiquei com receio de ter outra partida", frisou Careca.

Para o ex-atacante do São Paulo, a punição a Rojas foi muito pesada. De acordo com ele, uma suspensão temporária resolveria o caso. "Ele não teve uma segunda chance. Aquilo envolveu muita emoção, sentimento e paixão. Lamentavelmente ele foi eliminando do futebol." 

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