Ari Ferreira/Estadão
Ari Ferreira/Estadão

Há 40 anos, Santos e Guarani revelaram craques e surpreenderam o Trio de Ferro

Equipes conquistaram títulos importantes e lançaram jogadores como Careca, Zenon e Juary em 1978

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2018 | 06h00

O ano de 1978 foi marcado por grandes esquadrões no futebol paulista. O São Paulo ganhou o Brasileiro de 77 em fevereiro daquele ano, diante do Atlético-MG, no Mineirão. O Palmeiras era apontado como o melhor time do Estado na década, com três conquistas estaduais e duas nacionais, enquanto o Corinthians contratava Sócrates para fazer dupla com Palhinha e tentar o bicampeonato regional após jejum de 22 anos. 

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Mas quem se destacou naquela temporada quarenta anos atrás e ganhou títulos foram dois times baratos formados por jogadores desconhecidos: o Santos, com os jovens talentosos Nilton Batata, Juary, Pita e João Paulo, a primeira geração dos Meninos da Vila, campeão paulista; e o Guarani, o primeiro campeão brasileiro do interior (Campinas), com Capitão, Renato, Careca, Zenon e Bozó.

“O Guarani era um time moderno. Atuávamos com marcação no campo todo. Cada um sabia sua função tática e a executava durante os 90 minutos. Tínhamos um preparo físico espetacular, aliado ao talento de vários jogadores”, disse Careca, camisa 9, que, com 17 anos, se destacava pelo oportunismo, técnica e poder de finalização.

“O Guarani tinha uma zaga forte, que marcava muito. Os laterais Mauro e Miranda sabiam apoiar. E o Neneca era um goleiro experiente, grande demais para a época e seguro”, lembrou o eterno artilheiro bugrino. “O Zé Carlos (volante) tinha experiência (ex-Cruzeiro), era o cérebro do time. Toda segunda-feira ele reunia o grupo na casa dele para a gente lavar a roupa suja e planejar as jogadas que seriam executas”, contou Careca, que defendeu a seleção brasileira nas Copas de 1986 e 1990.

“E do meio pra frente, o time era muito veloz, com variação de jogadas, domínio de bola e finalização. Capitão e Bozó pelas extremas. O Renato (Pé Murcho) fazia dupla comigo no ataque e o Zenon era quem armava tudo no meio e batia falta como ninguém.”

Careca lembrou que o Guarani chegou a ser menosprezado em Porto Alegre antes do jogo com o Internacional pela terceira fase. “Diziam que era ataque de riso por causa de Capitão, Careca e Bozó.” Os gaúchos foram surpreendidos com derrota por 3 a 0 no Beira-Rio, com direito a um gol antológico do meia Zenon. “Como o Internacional adiantou a marcação, lancei para mim mesmo e fiz um dos gols mais bonitos do ano”, relembrou Zenon, que três anos mais tarde jogaria pelo Corinthians.

Zenon voltaria a se destacar na semifinal, ao marcar dois golaços, um de falta, contra o Vasco, no Maracanã, na vitória por 2 a 1, com 101 mil vascaínos nas arquibancadas. “Acho que esse foi o maior jogo que fizemos naquele brasileiro”, disse Careca. “Saí no segundo tempo com o joelho inchado de tanto pontapé que levei”, disse o atacante, que anos depois fez dupla com Maradona no Napoli, após passagem de ouro pelo São Paulo.

Por fim, o título brasileiro veio após duas vitórias sobre o Palmeiras. A primeira, no Morumbi, teve participação direta de Careca, que cavou pênalti. “O Leão defendeu chute em dois tempos e eu encostei nele e falei algumas coisas. Ele se irritou e me empurrou. O Arnaldo (Cesar Coelho, árbitro) viu e marcou. Expulsou o Leão.” Zenon cobrou sem chances para Escurinho, atacante que foi para o gol, pois o time rival havia feito duas substituições possíveis. Em 32 jogos, o Guarani ganhou 20, empatou oito e perdeu quatro vezes. Careca e Zenon foram os artilheiros, com 13 gols.

Meninos da Vila ganham 1ª taça pós-Pelé

Em 1978, a torcida do Santos estava órfão após a saída de Pelé quatro anos antes, e carente de títulos. Coube a um time de garotos, apelidado de “Meninos da Vila”, menção ao estádio da Vila Belmiro, quebrar este período de escassez de conquistas.

“Nós demos sorte, pois todo mundo que entrava no time dava certo e se encaixava com os mais velhos”, disse Pita, camisa 10 daquela equipe, que formava dupla irresistível com o veloz centroavante Juary. Ambos foram formados na base do clube.

O teste de fogo para o jovem time santista foi logo na primeira rodada do Paulista. O rival era o Corinthians, que tinha a estreia de Sócrates em um Morumbi com quase 120 mil torcedores. Os garotos se superaram. Pita abriu a placar. O Corinthians só foi empatar a dez minutos do fim, com Rui Rei.

Os jovens pontas Nilton Batata e João Paulo não cresceram na Vila, mas acabaram adotados pela torcida. O Santos de 78 ainda contava com a experiência de Clodoaldo, campeão com a seleção na Copa de 1970, e com a categoria de Ailton Lira, dono de canhotinha habilidosa, capaz de bater faltas de qualquer distância do gol e fazer lançamentos espetaculares. A defesa era o ponto seguro do time. Victor era o goleiro. Os laterais Nelsinho Baptista e Gilberto Sorriso, ambos ex-São Paulo, enquanto a zaga era dividida por Joãozinho e Neto. “Era um time equilibrado. Jovem, veloz, experiente e com ótimo toque de bola”, disse Pita.

Um dos momentos que caracterizaram aquele Santos foi o gol feito aos sete segundos de jogo contra o Palmeiras. Na saída de bola, Ailton Lira lançou Nilton Batata, que foi à linha de fundo e cruzou rasteiro para Juary marcar. Nenhum palmeirense tocou na bola. 

Em 1987, Juary, atuando pelo Porto, fez o gol do título da Liga dos Campeões na vitória por 2 a 1 sobre o Bayern de Munique.

No Paulistão de 1978, de três turnos e quase um ano de duração, o Santos disputou 56 jogos, com 26 vitórias, 16 empates e 14 derrotas. Foram 77 gols marcados, 29 de Juary, e 47 sofridos.

Antes desta geração, o Santos teve em 1954 um ataque de garotos com Tite, Álvaro, Vasconcelos, Del Vecchio e Pepe. Depois, mais duas versões dos “Meninos da Vila”: em 2002, com Robinho e Diego (campeão brasileiro), e em 2010, com Neymar e Ganso (campeão da Copa do Brasil e Libertadores em 2011).

 

 

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