Há 50 anos, queda de alambrado na Vila deixava 181 feridos

Há 50 anos, queda de alambrado na Vila deixava 181 feridos

Mais de 32 mil pessoas compareceram ao estádio para assistir o clássico entre Santos e Corinthians, que durou apenas 7 minutos

Igor Ferraz e Sanches Filho, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 09h00

Este sábado, 20 de setembro de 2014, marca os 50 anos de um dos maiores acidentes ocorridos em estádios brasileiros. A partida entre Santos e Corinthians era a mais aguardada da terceira rodada do Campeonato Paulista de 1964 e seria jogada na Vila Belmiro, a casa santista. Todos queriam ver de perto aquele time bicampeão mundial, comandado por Lula (Luiz Alonso Peres), que tinha Pelé, Pepe, Zito, entre outros craques. Do lado corintiano, a maior atração era Roberto Rivellino, de 18 anos apenas, mas já xodó da Fiel, que jogava nos aspirantes e atraía muita gente para assistir às partidas preliminares do Corinthians.

Por isso, naquele dia, a Vila Belmiro, que hoje tem capacidade para 16.798 pessoas, abrigou 32.986 espectadores, segundo o historiador do Santos, Guilherme Guarche, em seu livro intitulado "A Década de Ouro". Caso o jogo tivesse sido validado, teria sido o maior público da história do estádio. A partida chegou a ser iniciada, mas durou pouco. Aos sete minutos do primeiro tempo, o alambrado da arquibancada localizada atrás do gol da rua José de Alencar cedeu devido à absoluta superlotação e instaurou o caos no local.

Muitos torcedores que estavam sem espaço e, agarrados à estrutura, caíram para o nível do gramado, levando com eles dezenas de outros. O árbitro Armando Marques paralisou a partida e, depois que notou a imensa confusão e a falta de condições de jogo, decidiu suspender o confronto.

A edição de O Estado de S. Paulo do dia seguinte revelou que o presidente do Santos à época, Athiê Jorge Coury, ficou inconformado com a anulação do jogo e bateu o pé no gramado exigindo a continuidade da partida pensando na alta renda, que foi de Cr$ 19.397.600. Porém, à essa altura, os próprios jogadores já socorriam os torcedores feridos no gramado. Em consequência, 181 pessoas ficaram feridas. Muitos foram encaminhados para hospitais próximos ao estádio Urbano Caldeira, mas, por sorte, não houve vítimas fatais.

A VISÃO DOS JOGADORES

O meia Lima, bicampeão mundial em 1962/63, começou como titular do Santos naquela partida. Ele ficou conhecido como 'Curinga da Vila' por jogar em todas as posições do campo, mas teve que se superar no improviso para conter o pânico daquele momento. "Lembro-me de tudo porque normalmente eu jogava no meio de campo e naquela partida fui escalado de quarto-zagueiro. Também me recordo que a ambulância não dava conta de levar os feridos para os hospitais mais próximos, e que nós, os jogadores e a Guarda Civil, procurávamos acalmar os mais desesperados e levar feridos para dentro do campo. Foram cenas inesquecíveis. Passado o grande susto todos pareciam incrédulos por não ter ocorrido nenhuma morte. Nos primeiros dias da semana seguinte, 80% das vítimas do acidente voltaram à Vila Belmiro para agradecer os jogadores por terem ajudado no socorro", revela.

Lima afirma que por pouco não houve uma tragédia maior. Por pensarem que a arquibancada estava desabando, os torcedores se atiravam do segundo lance, de uma altura estimada em cinco metros. "Tinha sido feito um novo trecho de arquibancada atrás do gol dos fundos, mas foram as escoras de madeiras do alambrado que cederam, devido a pressão dos torcedores que aglomeravam de pé. Alguém gritou que a arquibancada (segundo anel) estava caindo. Desesperados, torcedores se jogavam lá de cima, quebrando perna, braço, se ferindo e ficando desacordados", conta o ex-jogador.

A VISÃO DOS TORCEDORES

Outro personagem presente na Vila Belmiro naquele dia é José Rubens Marino, atualmente conselheiro do Santos. Ele foi vice-presidente de futebol no final dos anos 70 do século passado, quando surgiu a primeira geração dos Meninos da Vila, liderada por craques como Juari, Pita e Nilton Batata. Em 1964, ele tinha 19 anos e assistia ao clássico entre Santos e Corinthians no setor do estádio conhecido como 'sócio cachorro', por ser descoberto, expondo o torcedor ao sol e à chuva. "Eu estava a mais ou menos 50 metros de onde tudo aconteceu. Além das pessoas que se feriram se atirando da arquibancada superior, na queda do alambrado também ficaram feridos repórteres, fotógrafos e policiais (Guarda Civil), que estavam atrás do gol”.

Marino também lembra que, apesar da superlotação e do posterior tumulto, as duas torcidas estavam em harmonia. "Santistas e corintianos torciam lado a lado, em pé e em paz. Depois que a situação foi normalizada, ficamos do lado de fora da Vila à espera de notícias das vítimas. Quando soubemos que ninguém tinha morrido, foi difícil acreditar”, concluiu.

O jogo foi remarcado para dez dias depois, no Pacaembu, e terminou empatado em 1 a 1. Como de praxe, Pelé marcou o gol do Santos. Com o cancelamento da partida da Vila, o recorde de público do estádio pertence ao jogo no dia 15 de fevereiro de 1976, contra a equipe do Palmeiras, que teve 31.662 pagantes. O Corinthians ainda passaria sete anos sem jogar contra o Santos na Vila Belmiro, por não considerar que o estádio oferecia segurança para ser palco de um clássico de tamanha dimensão. Voltaria apenas em 1971, em partida vencida pelos paulistanos por 4 a 2, também válida pelo Campeonato Paulista.

Episódios como este mostram como a paixão em massa pelo esporte pode acabar em desastre quando grandes eventos não são bem planejados. Também lembram desastres como o de Hillsbrough, talvez o mais trágico da história do futebol, quando 96 pessoas morreram imprensadas e mais de 700 ficaram feridas na superlotação do estádio homônimo, na semifinal da Copa da Inglaterra de 1989. A lembrança, nesses casos, é importante não só pela comoção ou curiosidade - mas para não voltar a repetir os erros do passado.

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