Acervo/Estadão
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Há 60 anos, Brasil espantava complexo de vira-lata e apresentava Pelé e Garrincha

Para muitos a melhor seleção brasileira de todos os tempos ganhava o primeiro título mundial na Copa da Suécia

Leandro Silveira, enviado especial / Sochi e Rafael Franco/da redação, em São Paulo, Estadão Conteúdo

15 Junho 2018 | 02h00

O trauma do Brasil pela derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950 demorou oito anos no calendário e três minutos em campo para ser expurgado. Foi este o período de tempo que separou o Maracanazo e o início avassalador que a seleção brasileira exibiu na vitória por 2 a 0 sobre a União Soviética no Mundial de 1958.

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Antes do jogo, disputado em 15 de junho daquele ano, no estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo, haviam dúvidas sobre o potencial do time nacional, ainda mais que a equipe havia empatado sem gols com a Inglaterra no confronto anterior, após estrear no Mundial da Suécia com vitória por 3 a 0 sobre a Áustria.

Para piorar, em tempos de Guerra Fria, uma aura envolvia o adversário seguinte, a União Soviética, com suas camisas vermelhas com a inscrição CCCP, a lenda Yashin no gol e o título olímpico em 1956 no currículo - dois anos depois da Copa de 1958, a equipe conquistaria o único título europeu da sua história -, com seu futebol "científico".

Em uma decisão que provocou o surgimento da lenda de que Vicente Feola adotou os conselhos de Nilton Santos, Bellini e Didi para tomá-la, o técnico brasileiro colocou Zito, Garrincha e Pelé nas vagas de Dino Sani, Joel e Mazolla, respectivamente. Manchetes do jornal O Estado de S. Paulo de 17 de junho de 1958 dão o tom do êxito das mudanças, que alteraram o rumo da história do futebol: "Os brasileiros dominaram totalmente os soviéticos" e "Unânime a imprensa em elogios à seleção".

Convocado por Feola para defender esta lendária seleção naquele Mundial, o ex-atacante Pepe, de 83 anos, lembra com saudade daquela partida contra os soviéticos. "Eu estava lesionado e não joguei, mas estava na arquibancada vendo o jogo. Na época, não tínhamos os recursos que temos hoje para conhecer os adversários. A seleção mandou um espião para filmar uns 15 a 20 minutos do treino da União Soviética e os comentários dele eram os de que a seleção russa, a começar pelo goleiro, o 'Aranha Negra' Yashin, era muito boa", afirmou Pepe, em entrevista ao Estado.

O ex-jogador do poderosíssimo ataque do Santos de Pelé, porém, enfatizou que o Brasil acabou conseguindo desbancar o teórico favoritismo da URSS por causa de jogadores brilhantes como Didi e Garrincha. O gênio das pernas tortas provocou um estrago na defesa rival com dribles desconcertantes e assustou os soviéticos, que já aos 3 minutos do primeiro tempo viram o atacante Vavá abrir o placar para o Brasil após lançamento genial de Didi.

"O time deles era forte, mas tinha um jogo baseado muito em se defender e depois sair para o contra-ataque.  O Vavá foi um grande nome daquele jogo e foi fantástica realmente a participação do Garrincha nesta partida e durante toda a Copa. Eu lembro do Nilton Santos gritando para o time: 'Dá a bola pata ao Mané, dá a bola para o Mané'. Depois do Pelé, ele foi o melhor jogador que eu vi jogar", disse Pepe.

E o ex-ponta-esquerda exaltou o peso histórico que aquele jogo com a URSS e a própria conquista do primeiro título mundial tiveram para o Brasil. "A seleção mostrou que tinha condições de conquistar vários resultados bons, como de fato aconteceu. Didi foi considerado o jogador da Copa, jogou muito também, e ali o Brasil mostrou que era o País do Futebol, como passou a ficar conhecido no mundo", reforçou.

Ali, por sinal, a dupla formada por Garrincha e Pelé, nunca derrotada em uma partida da seleção, se apresentou ao mundo. "Foi, sem dúvida, a vitória que abriu o caminho para tudo que aconteceu depois. Ali começou a acabar o 'complexo de vira-lata'. A URSS era considerada poderosíssima, quase um fantasma, e o Brasil acabou com ela em três minutos", disse o escritor Ruy Castro, em entrevista ao Estado, lembrando as bolas na trave de Garrincha e Pelé e o gol de Vavá, no começo do confronto - depois, já no segundo tempo, Vavá marcaria o segundo gol brasileiro após tabela com o Rei do Futebol.

Um ano antes, Garrincha já havia se consagrado no futebol brasileiro ao ser campeão estadual pelo Botafogo com uma atuação exuberante na goleada por 6 a 2 sobre o Fluminense, o jogo que definiu o torneio. Na Suécia, então, foi protagonista da partida vista por muitos como um marco inaugural do futebol-arte brasileiro.

"Garrincha nasceu ali para o mundo. Em 1958, nós, torcedores do Flamengo, do Fluminense e do Vasco, já estávamos cansados de saber do que ele era capaz, mas acho que nem o próprio Garrincha tinha consciência das suas potencialidades", relembra Ruy Castro.

Pepe, por sua vez, exaltou a ousadia de Garrincha, que não se intimidou com nenhum marcador daquela Copa. "Quanto mais davam porrada, mais ele ia pra cima. Ele dava passes e dribles fantásticos. Eu jogava como ponta-esquerda no Santos e o Garrincha jogava do meu lado no ataque do Botafogo. E lembro que eu e o Dalmo sofríamos para marcá-lo naquele setor do campo", relembrou.

A partir desse marco que foi este duelo contra a URSS, a seleção construiu a caminhada que lhe renderia o primeiro dos seus cinco títulos mundiais, com vitórias nas fases seguintes sobre País de Gales (1 a 0), França e Suécia (ambas por 5 a 2), também se consagrando como uma das melhores equipes da história das Copas.

 

"Para mim, que tinha dez anos em 1958, foi uma maravilha: passava o dia inteiro ao pé do rádio, lendo os jornais e revistas e sentindo nas ruas o clima da vitória. Foi a Copa que mais acompanhei, mais até do que a de 1970, também inesquecível. Eu colocaria aquela seleção entre as cinco maiores, junto com a de 70, a Hungria de 54 (assisti a vídeos e era realmente incrível), a Holanda de 74 e outra brasileira, a de 82", conclui Ruy Castro.

Agora, então, a seleção brasileira se reencontra com a Rússia, no seu solo, para tentar faturar o seu sexto título mundial a partir de domingo, quando abrirá a sua participação na Copa contra a Suíça, em Rostov.

 

Confira a ficha técnica do jogo histórico ocorrido há exatos 60 anos:

15/06/1958 - BRASIL 2 x 0 UNIÃO SOVIÉTICA

BRASIL - Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Pelé, Vavá, e Zagallo. Técnico: Vicente Feola.

UNIÃO SOVIÉTICA - Yashin; Kesarev, Kuznetsov, Voinov e Krizhevski; Tsaryov e Alexandr Ivanov; Valentin Ivanov, Simonyan, Netto, Ilyin. Técnico: Gavril Kachalin.

GOLS - Vavá, aos 3 minutos do primeiro tempo e aos 34 minutos do segundo tempo.

ÁRBITRO - Maurice Guige (França).

PÚBLICO - 50.928 espectadores.

LOCAL - Estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo (Suécia).

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