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Há 90 anos e sem apoio da Alemanha, nascia a Copa do Mundo

Alemães não votaram a favor da criação do Mundial durante Congresso da Fifa realizado em Amsterdã

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2018 | 07h01

Há exatos 90 anos nascia a Copa do Mundo. Foi no dia 26 de maio de 1928, durante o seu 17.º Congresso, realizado em Amsterdã, na Holanda, que a Fifa aprovou a criação do torneio que mudaria a história do esporte e, anos mais tarde, se transformaria no maior evento do planeta.

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A Copa do Mundo surgiu como uma competição alternativa ao torneio de futebol dos Jogos Olímpicos, organizado pelo COI (Comitê Olímpico Internacional). O Mundial foi idealizado pelo então presidente da Fifa, Jules Rimet, mas coube ao seu fiel escudeiro, o francês Henri Delaunay, apresentar em Amsterdã a proposta de criação do torneio, que inicialmente seria batizado de “Copa Mundial de Nações”.

Relatório a qual o Estado teve acesso revela o posicionamento de cada país em relação à criação da Copa do Mundo naquele 26 de maio (veja aqui). Votaram a favor do Mundial 23 países, incluindo o Brasil, que foi representado na reunião por Nabuco de Abreu. Apenas Dinamarca, Estônia, Finlândia, Noruega e Suécia foram contrárias ao Mundial. A Alemanha optou por se abster. Também ficou definida a criação de uma comissão para organizar a primeira Copa da história.

“Finda a apuração dos votos, alguns apressadinhos sugeriram que a primeira Copa fosse realizada já no ano seguinte, 1929. Mas, finalmente, ficou decidido que o Campeonato Mundial aconteceria a cada quatro anos, nos anos pares entre as edições dos Jogos Olímpicos, e seria disputado num período máximo de 35 dias entre maio e junho, para não prejudicar o calendário dos campeonatos europeus”, conta o historiador Max Gehringer em seu livro  A grande história dos mundiais. Ele fez pesquisas em jornais e revistas da época, do Brasil e do exterior, e no caso específico do Congresso da Fifa de 1928 as informações foram extraídas de arquivos dos jornais espanhóis La Vanguardia, de Barcelona, e ABC, de Madri.

Definida que a primeira Copa do Mundo seria disputada em 1930, faltava escolher o país-sede. Uruguai, Hungria, Itália, Holanda, Espanha e Suécia apresentaram as suas candidaturas. Favoritos, os sul-americanos foram escolhidos durante o 18.º Congresso da Fifa, em 1929, em Barcelona, sobretudo por causa do aporte financeiro oferecido à entidade, até então amadora, praticamente sem recursos.

O Uruguai se comprometeu a cobrir todos os custos do torneio, incluindo viagem e hospedagem das equipes participantes, e ainda assumiria um possível déficit que a Copa pudesse apresentar à Fifa. E mais: as partidas teriam cobrança de ingresso e os países receberiam parte da arrecadação da bilheteria. Bicampeão olímpico (1924 e 1928), o Uruguai era uma potência no esporte, queria usar o Mundial para comemorar o 100.º aniversário de sua independência, em 1930, e aproveitou a festa para construir o estádio Centenário, com capacidade para 100 mil pessoas.

Apesar do esforço dos uruguaios e de todos os países filiados à Fifa terem sido convidados por Rimet, apenas quatro seleções da Europa participaram do Mundial de 1930: França, Bélgica, Romênia e a antiga Iugoslávia. Por causa da longa viagem de navio à América do Sul, os clubes europeus teriam de ficar sem os seus melhores jogadores por pelo menos dois meses. Vale destacar ainda que a Europa enfrentava os efeitos da Grande Depressão Econômica, que teve início em 1929 nos Estados Unidos e atingiu fortemente países como Alemanha, Holanda, França, Itália e Inglaterra.

A Copa, então, foi disputada por apenas 13 seleções: Argentina, Bélgica, Bolívia, Brasil, Chile, Estados Unidos, França, Iugoslávia, México, Paraguai, Peru, Romênia e o anfitrião Uruguai. Mesmo assim, o torneio deu início a uma nova era no mundo do futebol, principalmente no aspecto financeiro.

Para o Mundial que começa no próximo mês, por exemplo, a Rússia investiu 683 bilhões de rublos (R$ 40,2 bilhões), um valor recorde e inimaginável para Rimet e companhia há nove décadas.

ANÁLISE: Jamil Chade, correspondente em Genebra

Assunto de estado, Copa está prestes a viver revolução

Maior evento do planeta e capaz de fazer suspender reuniões de líderes internacionais em dias de jogos, a Copa do Mundo está prestes a ganhar uma dimensão ainda maior, com uma renda inédita e um impacto político global.

A Fifa vai debater no início de junho em Moscou a expansão do torneio de 32 para 48 seleções já para a edição do Mundial de 2022. Originalmente, a ampliação havia sido aprovada para ocorrer em 2026. Mas em busca de uma renda extra de US$ 1bilhão, a entidade quer antecipar o projeto.

Documentos internos da entidade admitem que, com 48 times, a qualidade do torneio deve cair. Mas, para os cartolas, o objetivo é o de abrir uma nova fronteira no esporte, dando a possibilidade para um número ainda maior de seleções e, claro, garantindo um apoio para a reeleição do presidente da Fifa, Gianni Infantino.

Outra mudança radical será o fim do “sabor nacional” das Copas, até hoje realizadas em países.  Para 2026, a grande favorita é a candidatura conjunta de México, EUA e Canadá. Dentro da Fifa, a experiência é vista como uma porta de entrada para a ideia de que continentes poderão sediar o evento, e não apenas um país. A Copa transbordou e não cabe nem mesmo em um só país.

Mas a Copa também se transformou em um assunto de Estado, com governos implicados no projeto da mesma forma que assumem compromissos diplomáticos e dispostos em certos casos a pagar propinas. Suspeitas rondam as escolhas das sedes de 1998, 2002, 2006, 2010, 2018 e 2022. Isso sem falar da Copa de 2014, que revelou dezenas de casos de suspeita de corrupção nas obras.

O ex-presidente da Fifa, Joseph Blatter, deixou claro à reportagem no final de 2017 que houve uma interferência política por parte do Emir do Catar e do ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, para garantir que 2022 fosse realizado no país do Golfo.

Para a monarquia do Catar, o Mundial não é um projeto esportivo. Mas uma estratégia de criar vínculos com o Ocidente que serviriam como um “seguro de vida” contra uma eventual invasão do minúsculo país ou contra um golpe de estado.

Ao longo das décadas, a história dos Mundiais se confundiram com projetos políticos. O mesmo fará Vladimir Putin para garantir o sucesso da Copa de 2018. Nelson Mandela também jogou sua credibilidade para levar o Mundial de 2010 na África do Sul, enquanto outros como o general Videla, na Argentina, apostava no evento como uma plataforma para mostrar em 1978 que aquela ditadura não era o que parecia ser. Não funcionou.

Para 2026, o cenário não muda. Até Donald Trump, presidente americano, entrou na campanha e chegou a fazer ameaças para que países votem por sua candidatura. Não é por acaso. Sem equivalente, a Copa move hoje bilhões de dólares, bilhões de torcedores e interesses estratégicos de estados.

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