Há dez anos morria Dener; Vasco ignora

Dez anos depois de um Mitsubish Eclipse atingir com violência uma árvore na Lagoa Rodrigo de Freitas e provocar a morte de Dener Augusto de Souza, nada mudou na vida dos parentes do ex-jogador de futebol, apontado por alguns treinadores, entre os quais Telê Santana, como o maior talento surgido no Brasil no início dos anos 90. Desde 19 de abril de 1994, sua ex-companheira Luciana Gabino e os três filhos, Deniz, Felipe e Dener Matheus, acompanham na Justiça os desdobramentos, que parecem não ter fim, de uma ação indenizatória movida contra o Vasco.O passe de Dener pertencia à Portuguesa, mas ele estava emprestado ao clube carioca, que ignorou o seguro de vida que constava do contrato de trabalho do atleta. Em agosto de 2003, a Terceira Turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST) condenou o Vasco a pagar 3 milhões de dólares aos herdeiros de Dener, além de outras quantias referentes a pagamento de salários de março e abril de 1994, luvas, bichos, prêmios e depósitos do fundo de garantia. O Vasco, pouco depois, conseguiria suspender a execução determinada pelo TST. De acordo com o advogado do clube do Rio, Paulo Reis, um ?embargo de declaração? foi encaminhado ao tribunal, num pedido de esclarecimentos acerca da sentença. ?O TST está analisando a nossa solicitação e não sei quando será dado o próximo passo?, revelou Paulo Reis, convicto de que o Vasco não pode arcar com a indenização. Reticente, ele não quis apresentar as razões defendidas pelo clube. ?O caso está em Brasília. Vamos aguardar.?A espera já virou uma tortura para Luciana e os três meninos ? o mais velho, Deniz, tem 14 anos. Eles moram em São Paulo, num apartamento comprado por Dener, e estão repletos de dívidas. Vivem do auxílio de amigos e de uma pensão da Previdência, pouco superior a R$ 800,00.Os filhos de Dener escondem a identidade com receio de que o alarde sobre a indenização, ainda não recebida, possa torná-los vulneráveis no que diz respeito à segurança pessoal.Morte ? No acidente, num dos cartões postais da zona sul do Rio, Dener foi estrangulado pelo cinto de segurança. Ele dormia praticamente deitado no banco do carona e voltava de uma viagem a São Paulo. Com o impacto, o cinto pressionou seu pescoço, num golpe violento e fatal. Seu amigo Oton Miranda, que dirigia o Mitsubish, ficou ferido mas sobreviveu. O carro seguia por uma das pistas da Lagoa em alta velocidade. Dener morreu aos 23 anos.Craque ? O atleta era veloz, um excelente driblador, com habilidade rara. Pela Portuguesa fez dois gols de placa, um contra o Santos, em que driblou três jogadores, além do goleiro Edinho, para marcar. O outro vitimou a Inter de Limeira. Ele recebeu a bola no meio-de-campo e foi se livrando de vários adversários com dribles desconcertantes até dar um toque sutil por cobertura, deixando o goleiro da Inter sem ação.Na oportunidade, chegou a ser comparado com Pelé. Dener, porém, rebateu o elogio. ?Sou apenas o Dener, o Pelé é um mito?, disse. Sua breve carreira teve início na Lusa, em 1991. Permaneceu no clube até 1993, de onde se transferiu para o Grêmio e conquistou seu único título, o de campeão gaúcho. No ano seguinte, seguiu para o Vasco.

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