Bruno Teixeira/Corinthians
Pesquisadora aponta que comparar qualquer modalidade ou esporte com o futebol masculino dos grandes clubes é irreal em um País como o Brasil Bruno Teixeira/Corinthians

‘Há o futebol e os outros futebóis’, aponta pesquisadora

Silvana Goellner alerta que é preciso muito cuidado ao comparar qualquer esporte ao futebol masculino dos grandes clubes

Catharina Obeid e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2019 | 11h00

Silvana Goellner, pesquisadora sobre gênero, esporte e futebol feminino, alerta que é preciso muito cuidado ao comparar qualquer esporte ao futebol masculino dos grandes clubes da primeira divisão. “Nenhuma outra modalidade esportiva tem estrutura, visibilidade e a questão salarial igual ou ao menos que se aproxime dessa matriz espetacularizada”, pontua a especialista.

A realidade do que ela chama de “outros futebóis” é muito diferente da elite masculina e inclui até mesmo o fato de que muitas jogadoras precisam ter outras profissões para conseguir estabilidade financeira, uma vez que não contam com o salário garantido os 12 meses do ano. “Nesse sentido, o futebol acaba sendo uma ocupação”, analisa a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Outro ponto levantado por ela é que o futebol feminino no Brasil foi proibido durante 40 anos, o que não justifica a ausência de um planejamento estratégico de desenvolvimento da modalidade a curto, médio e longo prazo. Pelo contrário, essa falta de investimento desde os anos 1980, quando caiu o decreto, mostra a falta de oportunidade e de espaço, fruto de um ciclo sexista no qual o futebol é de domínio dos homens. “Ele é dos homens porque a elas não são dadas oportunidades”, diz.

Alguns avanços como jogadoras em peças publicitárias e um uniforme elaborado de acordo com as necessidades femininas foram vistos na última edição da Copa do Mundo da França, vencida pelo EUA de Megan Rapinoe. Além disso, jogos da seleção foram transmitidos pela TV aberta. “Cria a chance que outras meninas se reconheçam nesse futebol e vejam que ele pode ser uma profissão delas, se assim desejarem. A questão de representatividade que as atletas têm no cenário da criação de novas jogadoras é fundamental”, explica a especialista.

Silvana exalta ainda a importância de dar o mérito desses pequenos progressos às atletas, por não desistirem ou deixarem de acreditar sequer por um segundo. “Aquilo que elas conseguiram no futebol não foi concedido, foi conquistado mediante muita luta, de provar que são capazes e mostrar resiliência, pois, apesar das adversidades, elas continuam no futebol.”

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Salário da mulher no futebol é o mesmo do homem das Séries C e D

    Folha salarial dos grandes clubes aponta diferença de cem vezes para jogadoras; média é R$ 2,5 mil

    Catharina Obeid e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

    27 de julho de 2019 | 11h00

    Os gritos por igualdade salarial que marcaram o título dos Estados Unidos na Copa do Mundo de Futebol Feminino têm eco no Brasil. Por aqui, homens também ganham mais do que mulheres. Nos grandes clubes, eles ganham muito mais mesmo. Enquanto a folha de pagamentos dos gigantes de São Paulo gira entre R$ 10 milhões, os gastos com os times femininos ainda são da ordem de R$ 100 mil. É uma diferença de cem vezes. Portanto, brutal. No caso dos times menores, a remuneração das jogadoras oscila e é compatível com a dos homens das Séries B, C e até D do Brasileiro

    De acordo com informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) da Secretaria da Previdência e Trabalho do Ministério da Economia (antigo Ministério do Trabalho), os salários de mulheres são de R$ 2.556,34. No caso dos homens, R$ 5.577,53. Ou seja: os homens ganham 118% a mais. A amostragem é de dez mil profissionais pesquisados, que foram analisados e consolidados pelo site salario.com.br, especializado em pesquisas de remuneração. 

    “Elas têm salários comparados com jogadores da Série B ou até uma série inferior, infelizmente”, diz Thaís Picarte, goleira do Santos e vice-presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de Futebol do Município de São Paulo. “Essa diferença salarial é um absurdo. Pior é que não sei se a gente vai conseguir igualar isso algum dia”, diz Cristiane, do São Paulo. “Lá fora, a situação é a mesma. Dificilmente, você encontra uma atleta que ganhe 15 mil euros ou uns R$ 60 mil”, diz a ex-jogadora do PSG, o mesmo time de Neymar

    Questionado pelo Estado sobre a diferença salarial, Marco Aurélio Cunha, coordenador das seleções femininas da CBF, citou jogos recentes que não tiveram cobrança de ingressos do futebol feminino. “São unidades de negócio diferentes. Um é consolidado e lucrativo no País; o outro está em formação e ainda precisa de investimentos. Eles podem ser iguais financeiramente?”, questiona. 

    O professor Eduardo Carlassara, doutorando da Escola de Educação Física e Esporte da USP, concorda que o modelo de negócio precisa ser repensado. “A diferença de remuneração entre os gêneros está atrelada à procura e ao preço dos ingressos. Na Rio-2016, os ingressos para as competições masculinas eram 33% mais caros do que as femininas. Isso pode influenciar na remuneração”, explica. 

    Além dos baixos salários, muitas não têm registro profissional. Entre os 52 clubes que disputam o Brasileiro feminino, menos de 10% assinam a carteira das atletas. Sem registro, a jogadora não tem acessos aos direitos trabalhistas. Pior: não consegue recorrer aos benefícios do INSS quando sofre um contusão grave, por exemplo. “Uma colega ficou nove meses esperando uma ressonância e mais de um ano para conseguir a cirurgia”, conta Thais. 

    Essas dificuldades não se limitam aos clubes menores ou equipes recém-criadas por exigência da CBF, mas atingem as atletas da seleção que permanecem no País. As jogadoras do Corinthians, por exemplo, assinaram um acordo de prestação de serviços com duração de um ano. "Foi uma das nossas escolhas como jogadoras. Perguntaram se nós teríamos interesse, mas disseram que seriam algumas, não seriam todas. O próprio Artur, o técnico, falou que seriam todas ou ninguém. Aos poucos, o clube vai tomando ciência do que é melhor e a gente vai entrar num acordo mais para a frente. No momento, não havia para a gente uma necessidade grande de ter a carteira assinada", diz a zagueira Érika, do Corinthians. 

    Marco Aurélio Cunha reconhece a falta de profissionalização no Brasil. “Ainda é uma atividade semiprofissional. Se exigirmos isso (carteira assinada) de todos, não haverá chance de sobrevivência de muitos clubes”, argumenta o dirigente. 

    Aline Pellegrino, diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol (FPF), defende que todas as condições precisam melhorar. “Temos de focar em aumentar o número de campeonatos, principalmente nas categorias de base, e focar na estrutura para os treinamentos e partidas”, afirma.

    "Eu não vou brigar pelas mesmas coisas que o masculino tem, mas o mínimo é uma estrutura profissional. Isso é respeito pelo meu trabalho. Para você me cobrar, você precisa me dar condições de trabalho. Não é o que está acontecendo de maneira generalizada", diz Érika. 

    TRÊS PERGUNTAS PARA...

    Cristiane, atacante do São Paulo e da seleção brasileira

    1. O que é prioridade depois da Copa para o País desenvolver o futebol feminino? 

    Agora que acabou a fase do oba-oba, quando a Copa do Mundo foi a mais assistida, a gente não pode ficar olhando só para a seleção brasileira adulta. É preciso de um plano mais amplo. A gente precisa olhar para a base, não só da seleção, mas também para os clubes. É preciso olhar para aquelas que vão dar continuidade à modalidade e oferecer uma estrutura de trabalho, como campos de treinamentos, uniformes, equipe profissional. Não é só criar um campeonato e deixar lá. 

    2. Após a Copa, você tem dado opiniões mais críticas. Você está se tornando uma porta-voz das meninas? 

    A nossa voz é importante e precisa ser ouvida. Não podemos deixar passar esse momento. Não são todas as meninas que têm o perfil de se expor e falar. Eu tenho. Eu não faço isso por mim, faço por todas elas. A gente precisa pensar no todo.

    3. O que achou da escolha da Pia Sundhage como nova técnica da seleção?

    Acho que foi uma boa escolha. Agora, ela vai ter uma noção de como são as coisas no futebol feminino do Brasil. Nos anos anteriores, quando disputamos o título, muitas jogadoras vinham perguntar como a gente conseguia chegar às finais sem ter condições de trabalho, sem ter dinheiro e com pouca estrutura. Mesmo que seja chato e repetitivo, a gente não pode mais deixar de falar sobre essas coisas.

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Judô, surfe e atletismo oferecem salários iguais

    Há discrepâncias nos contracheques de homens e mulheres em outras modalidades, mas já existe igualdade

    Catharina Obeid e Gonçalo Júnior, O Estado de S.Paulo

    27 de julho de 2019 | 11h00

    Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) da Secretaria da Previdência e Trabalho do Ministério da Economia (antigo Ministério do Trabalho), consolidados pelo site salario.com.br, especializado em pesquisas de remuneração, mostram que as mulheres ganham menos do que os homens também nas outras modalidades esportivas, além do futebol. A diferença, porém, não é gigantesca.

    Considerando-se uma base de dez mil salários do Brasil, a média de remuneração é R$ 3.022,68 para os homens e de R$ 2.374,32 para as mulheres. 

    Apesar da diferença no contracheque, esportistas ouvidos pelo Estado afirmam que o desempenho e a meritocracia são considerados no final das contas. Isso explica o fato de Hortência e Paula, por exemplo, terem tido premiações e salários muito maiores do que a maioria dos atletas de sua geração. O mesmo ocorre no atletismo. Fabiana Murer, bicampeã mundial, tinha o maior salário da BMF, maior clube de atletismo do País extinto no ano passado. 

    Quem começa no atletismo ganha cerca de R$ 300 a R$ 900 dos clubes. Conquistar um título nacional significa elevar sua remuneração para R$ 2 mil. Já os atletas de nível internacional, entre os 30 melhores do mundo, têm remuneração de R$ 3 mil a 10 mil. Já aqueles entre os cinco melhores do mundo costumam receber de R$ 12 mil a R$ 25 mil. Esse ganho pode variar de acordo com premiações de patrocínios individuais. 

     A ginasta Natália Gaudio afirma que sua modalidade, a ginástica rítmica, sofre outro tipo de discriminação. “Pelo fato de ser um esporte unicamente feminino, a gente encontra dificuldade para ser valorizada e conseguir patrocínio e apoio. Por ser só de mulheres, fica um pouco para trás. Se fosse praticado por homens, como a ginástica artística, acredito que teria uma visibilidade melhor.” 

    Atletas de outras modalidades afirmam que não existe diferença de salário. “No judô, as regras são iguais. Todo mundo tem a mesma pontuação, a mesma premiação e a mesma medalha. Não tem essa diferença. Na nossa modalidade, a gente não vê a discriminação que a gente vê no futebol e outros esportes”, diz a campeã olímpica Rafaela Silva. “É importante essa reviravolta das mulheres. Foi assim a vida inteira, mas acho que agora está todo mundo brigando para ajudar o futuro e as próximas gerações”, diz.

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.