Haitianos comemoraram o tetra em 94

Esta não será a primeira vez que a seleção brasileira dará alegria ao povo do Haiti. Dez anos atrás, quando o País ganhou o mundial pela quarta vez, disputando a final com a Itália, em Los Angeles, os haitianos festejaram nas ruas de Porto Príncipe com o entusiasmo de quem considerava sua a vitória. Ainda que efêmera, a festa do tetra marcou momento de triunfo para os haitianos. A torcida pelo Brasil e a comemoração da conquista permitiram-lhes um raro momento de manifestação pública, em desafio às autoridades, e alegria genuína a um povo que vivia então sob efeito duplamente asfixiante de uma ditadura militar e de um severo bloqueio econômico imposto pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas para punir o regime dos generais golpistas.Para os brasileiros que passaram pelo Haiti entre julho e agosto de 1994, ficou a tocante lembrança das bandeiras de seu País, muitas feitas à mão, algumas com as cores fora de lugar, que tremulavam sobre os casebres da miserável Cité Soleil, uma favela que faz a Rocinha ou o Capão Redondo parecerem lugares habitáveis. Nas paredes, inscrições davam vivas ao ?Brésil? e homenageavam os dois heróis da seleção, cujos nomes soavam como ?Bebetô? e ?Romarriô? no sotaque da língua crioula local. Ao saber que falavam com um brasileiro, os haitianos abriam enorme sorriso e ofereciam um abraço. ?Hoje, me sinto brasileiro?, diziam. Alguns faziam questão de esclarecer que o visitante brasileiro não era um ?blanc?, ou seja, estrangeiro. ?Aqui você não é ?blanc?, você é brésilien.? Eles não sabiam que, três anos antes, Caetano Veloso e Gilberto Gil, haviam feito o caminho inverso e cantado o lado haitiano do Brasil, na incômoda canção que diz: ?Pense no Haiti, Reze pelo Haiti, O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.?

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