Havelange: apenas uma frustração

Durante 24 anos o brasileiro João Havelange foi o homem mais importante e responsável por comandar uma paixão mundial: o futebol. Aos 87 anos, ele fez um balanço de sua administração à frente da Fifa, a considerou boa, mas disseter ficado impotente ante a uma única frustração. O dirigentequeria através do futebol amenizar, ou quem sabe, resolver oconflito entre Israel e a Palestina.Havelange ainda repugnou as sucessivas tentativas de ogoverno brasileiro interferir na administração dos clubes.Considerou um erro a intenção de se criar as Ligas de futebolno País e classificou de antiquada a idéia de transformar ostimes em empresas.Ao assumir a presidência da Fifa, em 1974, Havelange iniciouuma administração de modernização do futebol e, ao deixar ocargo, em 1998, conseguiu levar o esporte aos cincocontinentes. Outra proeza deste brasileiro foi a de ter maispaíses filiados à entidade máxima do futebol do que a ONU(Organização das Nações Unidas).Cansado de trabalhar, disse que agora pretende se dedicar àfamília e refutou qualquer possibilidade de vir a assumiu umnovo cargo administrativo. "Tenho poucos anos de vida e peçoque me dêem a liberdade de estar com a minha família parausufruir de meus amigos para poder fazer aquilo que ainda nãofiz, por causa de tantas obrigações", afirmou. Agência Estado ? À frente da Fifa, o senhor consolidou ofutebol no mundo e o fez prosperar. A prova disto é que aentidade possui mais países filiados do que a Organização dasNações Unidas. Mas, hoje, é possível verificar no futeboleuropeu um certo abalo nesta prosperidade, como foi afalência da Fiorentina, equipe italiana. Qual a análise que osenhor faz deste novo panorama?João Havelange ? Das suas palavras eu retiro uma: oabalo. O abalo que nós sofremos no dia 11 de setembrorepercutiu no mundo inteiro, com a queda das duas torres doWorld Trade Center, em Nova York. E isso prejudicou não só ofutebol mas muitos outros setores. Mas o futebol é umapaixão. Ele trabalha no sentido de trazer alegria,tranqüilidade e é assim que devemos vê-lo. Um erro ou outronão é o que deva ser apontado como o culpado. E não é porqueuma pessoa possa ter cometido um erro que o culpado é ofutebol. O futebol continua o mesmo com a mesma intensidade.Portanto, o futebol não está morto, ele vive e cada vez sairádas cinzas, se aí estiver. E, se não estiver, ele tambémdemonstrará o quanto se organiza rapidamente. AE ? A qualidade do futebol brasileiro éindiscutível e a capacidade do Brasil gerar craques étambém...Havelange ? ( interrompendo) Para tudo isso épreciso o clube. Sem o clube não é possível apresentar ocraque ao mundo. Então, vamos respeitar, aplaudir um clube.Desejar que seus dirigentes tenham a possibilidade e afacilidade de administrar cada um. AE ? O senhor falou em deixar os dirigentestrabalharem. Neste caso, não estaria de acordo com o modelo queo governo está propondo para os clubes, como o clube-empresaou a contratação de uma empresa para o gerenciamento dosnegócios das entidades?Havelange ? Acho que como toda empresa o futeboltambém é particular. O governo tem por obrigação gerir osassuntos do governo e deixar os outros para cada um trabalhare gerir a sua maneira. O governo não pode ter uma pessoa emcada empresa que existe no Brasil, nem pode desejar gerí-la,nem querer comandá-la. Cada empresa tem uma assembléia e quemdecide é a assembléia. AE ? Qual seria o modelo ideal para o futebol brasileiro? O europeu?Havelange ? Nós não podemos comparar, porexemplo, o Brasil com a Espanha ou qualquer outro paíseuropeu. Vamos comparar São Paulo com a Espanha. Quandotivermos que comparar o Brasil, vamos compará-lo com a Uefa.A Uefa como confederação da Europa é responsável por 51países. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), por issoa chamaram confederação, dirige 27 países que são os 26estados e o Distrito Federal. Temos, por isso, que analisardiferentemente, não atacar quem tem a responsabilidade eprocurar de uma forma mais objetiva e permanente ver como oproblema do Brasil deve ser resolvido. E o problemabrasileiro sempre caminhou bem. Temos agora um CampeonatoNacional que está sendo falado noite-dia, porquetem o acesso e descenso. AE ? Realmente, neste ponto, o Campeonato Brasileiro é um sucesso, já que até o último minuto, não se sabia os times classificados ou que cairiam...Havelange ? (interrompendo) Veja que isto é o futebol. Éa sua força, a incerteza, e não se pode deixar matar isso. AE - Neste caso, importar uma fórmula de pontoscorridos, como estão querendo experimentar no futebolbrasileiro em 2003, não tiraria o brilho da competição?Havelange ? Me perdoe, mas se isso ocorresse, ointeresse, a paixão que existe desaparece. Nós temos queviver o que estamos vivendo. Não é porque um jornalista, umapessoa, não gosta de um dirigente ou vice-versa que o futeboltem que ser tratado diferentemente, tem que ser vistodiferente. Por exemplo, veja em São Paulo: se os quatro,cinco, seis grandes times estão grandes é uma tranqüilidade.Leva-se 20, 50, 100 mil pessoas ao estádio e, se cada um temuma família de cinco, são 500 mil pessoas dentro da cidadeque estão tranqüilas. Isto não é bom para a cidade? Não amovimenta? Por que destruir o que pode lhe dar tranqüilidade,movimentar e dar recursos? Vamos aplaudir, trabalhar e levaristo para adiante. AE ? Mas, o senhor acha que esta fórmula de pontos corridos seria ideal para o Brasil?Havelange - Não sei. Ainda não analisei para poder verem que base está. Acho que este Campeonato Nacional foi umsucesso e deve ser aplaudido e, se possível, repetido. AE ? Ao falar em deixar o futebol crescer o senhordiria que o governo deveria interferir menos no futebol ecuidar, por exemplo, da promoção do esporte para as crianças?Havelange ? Eu lhe pergunto: o que é que o Ministériodos Esportes leva às entidades particulares? Nada, nada.Então, falar sobre onde não leva nada só porque não gosta dea, b ou c não é justo. Por outro lado, se fala em transformarsociedade anônima e isto já me parece um pouco antiquado. Hádez anos ou quinze, ainda estava na Fifa, o governo espanholpermitiu que todos os clubes se transformassem em sociedadeanônima. Mas, permitiu e pagou as dívidas. Veja bem, nãocriticou, pagou. Dois não quiseram, foi o Barcelona e o RealMadrid. Hoje, todos querem voltar ao sistema antigo. Veja quea sociedade anônima não é o ideal. Não está se tratando deuma empresa. Na empresa não há paixão. No futebol há paixão.Uma pessoa pode ser bem casada e ter 500 filhos. Se ela seapaixona, não adianta que ninguém lhe segura. AE ? Agora, em nome dessa paixão é justo deixar umdirigente que tenha cometido algum erro sem punição?Havelange ? Existem milhares de clubes no Brasil. Seesses dirigentes não existissem, essa juventude não teriapara onde ir, porque o governo não faz nada. Não vejo nadafeito pelos estados, a não ser São Paulo que é um estadomuito rico. Mas, no resto, não se vê nada. Então, vamosesquecer essa meia dúzia de dirigentes. E vamos tranqüilizaro futebol, deixar ele e a parte que é dele, além de respeitaraqueles que estão trabalhando.AE ? O senhor defendeu o poder da CBF. As Ligasestão brigando com a entidade para organizarem o CampeonatoBrasileiro. As Ligas seriam uma idéia importada e tambémequivocada?Havelange ? Isso é um erro muito grave. Fala-se em Ligaporque na Espanha tem a Real Federação de Futebol e a Liga.Temos que imaginar que, na CBF, a Liga é a Federação Estadualde Futebol Paulista, a Federação Estadual de Futebol do Riode Janeiro e assim sucessivamente. A Liga não pode existir,quem faz o papel dela são as federações estaduais de Futebol.No meu entender, a CBF é a grande entidade e as Federações, aLiga. Mas, ninguém quer analisar. Todo mundo quer é criticar,o que naturalmente é muito mais fácil. AE - Então o senhor defende a manutenção do modelo atual de administração do futebol brasileiro?Havelange ? Exato.AE ? A CBF elaborou um novo calendário para ofutebol brasileiro em 2003. O senhor acredita que esta novaprogramação representou algum tipo de avanço?Havelange ? Teve um avanço, está muito bom, e a CBF temtrabalhado para isso. Mas só procuram criticar. E porque nãobatem palmas quando foi pentacampeã do mundo e ninguémacreditava. Não se pode querer matar um clube ou umafederação. AE ? A quê o senhor credita o fato de o presidente da CBF, Ricardo Texeira, ter feito concessões como conversar com as Ligas e, como dizem, ter dado a palavra de que oficializaria sua existência? E quanto ao calendário quadrienal do futebol brasileiro, que previa competições para quatro anos e, praticamente, foi jogado no lixo?Havelange ? Jogado no lixo não, porque fez-se em cima daperna. Depois de analisado, viu que não dava em nada. AE ? O senhor identificou algum tipo de oportunismo na interferência do governo para a elaboração do calendário quadrienal?Havelange ? Não sei se oportunista, mas acabou a eleiçãoe ninguém fala mais nisso. E não vejo o porquê se metersempre no futebol. Por que é que não se fala na natação, nobasquete e no voleibol? É só o futebol porque enche osestádios. No basquete, mil pessoas vão aos estádios. É sóisso. Então, veja o que é o futebol. Sendo assim, vamosorganizar o País, vamos organizar o esporte e nãoespecificamente o futebol, que não faz mal a ninguém e só dáalegrias. AE ? O senhor administrou a Fifa por 24 anos. E, agora, como estão suas relações com a entidade? Como vai sua convivência com o presidente Josefh Blatter, que o senhor indicou como seu sucessor e o apoiou na reeleição?Havelange ? A minha relação com ele é a melhor possível.Tanto que nos falamos dia sim, dia não. Sou presidente deHonra da Fifa, que é um título honorífico. E, quando receboum convite, tenho a delicadeza de fazer uma carta aopresidente Blatter, envio fotocópia do que recebi e perguntose posso ou devo ir. Se ele disser que sim, vou, docontrário, não vou. AE ? Evidentemente o presidente Blatter ainda lhe pede conselhos em algumas decisões...Havelange ? Não e nem precisa. E nem dou, porque para isso ele tem um comitê executivo. E perceba que ele teve a delicadeza de, não me retirar definitivamente, querer que eu assistisse às reuniões do comitê executivo, órgão responsável pelas decisões. Eu até teria direito a palavra, mas não ao voto. Minha resposta a ele foi a de que não gostaria de ir a uma reunião, porque mesmo para dar a minha palavra, eu tenho que estudar todos os processos e todos os itens da ordem do dia. Quando vou lá, faço uma visita e venho embora.AE ? E não quer mais por quê?Havelange ? Vou lhe ensinar uma coisa porque o senhorainda é moço. O mais difícil na vida não é chegar, mas é odia em que vai decidir ir embora para casa. O senhor verá quevai pensar por alguns anos, semanas ou meses. Então, vejacomo é delicado. E eu não tenho mais nada a fazer. Porexemplo, vou a Madri, lá tem o banquete oficial da RealFederação Espanhola. Vão ter as reuniões do comitê executivo,não tenho nada a ver com ele. Vai ter o baile de gala da Fifae o jogo dos 100 anos do Real Madrid, fui convidado. Eu vou,assisto a tudo, estou sentadinho, como uma garfada quando fora hora do banquete e não me meto em nada, mas apenas umahomenagem que prestam ao presidente de Honra. AE ? O senhor foi o maior defensor da Copa doMundo da Coréia e Japão. Qual análise que faz da competição?Ficou satisfeito?Havelange ? Trabalhei por 24 anos na Fifa e esperei atéa Copa do Mundo Coréia a Japão. A decisão de fazer a copa emdois países foi porque havia uma luta interna e não sechegaria a lugar nenhum. Lembro que no dia da votação, adiscussão da sede era o ponto 11. Na madrugada, fiz umdocumento e, quando chegou ao ponto 11, antes de colocar emvotação, pedi para fazer uma exposição. Ao terminar, todos meaplaudiram e votaram a favor. Aí esperei por quatro anos paraver o sucesso e foi. A organização, os acessos aos estádios,a segurança, a disciplina, o estacionamento, a atenção, tudoperfeito. E isto é uma das coisas que me orgulho de todo otempo de administração. Saí de dois continentes, a Europa eAmérica e fomos para a Ásia, o que abriu um leque de opçõespara todos. AE ? E quanto ao desempenho da seleção brasileira naconquista do pentacampeonato Mundial? O que dizer?Havelange ? Primeiro precisamos palmas para a seleção, quefoi tão maltradada antes da Copa. O mais fácil é criticar emaltratar. Foi uma surpresa para todo mundo o grandedesempenho e a qualidade de seu futebol. Mas foi excepional adisciplina, os gols, o tipo de espetáculo, a qualidadetécnica de cada um. Enfim, o Brasil deu uma aula, com umadisciplina perfeita. Então, temos que aplaudir. Comreferência à qualidade de futebol, acho que foi um dosmelhores que vimos nesses últimos tempos. Por exemplo, fiqueisurpreso, não o conhecia, mas no meu entender foi para oBrasil o melhor jogador: Gilberto Silva, fechou o campo. Elenão fez uma falta, bola por cima não passou e bola por baixotambém não passou. Um fenômeno este rapaz, que estáreproduzindo o mesmo futebol na Inglaterra. Ninguém sabiaquem era Gilberto Silva e, nesse ponto, o senhor tem queaplaudir o técnico (Luiz Felipe Scolari). O Roberto Carlos éum fenômeno, você olha e não o vê. Quando ele está em campoparece que tem dois metros, chuta, corre, vai, defende,cabeceia, mata o sujeito se acertar nele uma pancadadaquelas. Se a bola bater no sujeito, desmaia. Ela vai comuma força de mais de 180 km/h. Eu, no dia do gala da Fifa,daria a Roberto Carlos o título de melhor jogador do mundo.AE ? Por todos os problemas que o Brasil enfrenta, quandoque o País vai ter condição de realizar uma Copa do Mundo?Havelange ? Veja bem, dei uma idéia e fui mal tratadoterrivelmente. Quando vamos a um local de massa, dequantitativo forte, duas coisas são muito importantes. Oacesso ao Maracanã não existe, o estacionamento não existe, asegurança não vale nada. Ou isso muda, ou então não se fazmais jogo lá. Senão, todo dia vamos ter problemas. Nósprecisamos evoluir, modificar nosso pensamentos e nosatualizarmos. A Inglaterra está destruindo Wembley, que tem100 anos, para fazer um novo estádio de 80 mil pessoas e maisperfeito. Aqui não se pode fazer isso. É uma desonra. Vou lhefazer um pergunta: quantas vezes o senhor já foi ao Maracanã?Se um dia, por uma razão qualquer, cair um pedaço daarquibancada lá de cima, cá em baixo, não entra umaambulância lá dentro. Agora, estão tentando fazer umasreformas que não levam a nada. Pintar, botar uma cadeiraamarela, uma verde, outra azul, o senhor me perdoe mas não éisso. Por exemplo, nós vamos ter a Copa do Mundo na Alemanha,em 2006. Uma das sedes escolhidas foi Munique. Eles queriamrenovar o estádio olímpico de 72, mas o Franz Beckenbauer,como vice-presidente da Federação Alemã e presidente doBayern, disse que não aceitava. Vão fazer um estádio novo sópara o futebol. E o outro pode deixar lá. Os estádios mudaramcompletamente e hoje são mais leves. Veja que no Maracanãpara ir ao quarto, quinto e sexto andar há somente trêselevadores. Outro exemplo, no século XIX para ir de Paris aMarselha se levava 27 horas de trem, hoje, é possível ir emtrês horas e meia, de TGV. Então, porque tem TGV vamos ficarcom a Maria Fumaça? Pelo amor de Deus! AE ? Após passar 24 anos como o dirigente máximodo futebol Mundial, o senhor assumiria algum outro cargo,seja esportivo ou político?Havelange ? Estou com 87 anos de idade e não quero sersenador, ministro, deputado, presidente da CBF ou mesmovoltar à Fifa. Tenho poucos anos de vida e peço que me dêem aliberdade de estar com a minha família para usufruir de meusamigos para poder fazer aquilo que ainda não fiz, por causade tantas obrigações. Não quero e não aceito absolutamentenada. Estou livre e acho que cumpri a minha missão. Noesporte , bem ou mal, o Brasil teve três copas do Mundo. Bemou mal, na Fifa, acho que houve uma evolução no mundo dofutebol. Pode procurar em todos os outros esportes que nadacaminhou como o futebol. AE ? Ficou alguma frustração?Havelange ? Uma. Que foi um pedido feito pelo então vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, quando da Copa doMundo de 1994. Em sua suíte, ele me disse: quero lhe fazer umpedido. Respondi que o estava ouvindo. Então, ele me falouque havia um problema no mundo em que a política,administração, os governos, o setor financeiro, as empresas eo setor diplomático não resolveram. E, vendo o futebol, queele não conhecia, uma competição onde todo mundo se entrelaçae é feliz, dizia ele, que achava que pelo futebol poderia sechegar a uma solução sobre a questão Palestina e Israel.Respondi a ele: eu faço esporte e não política. Pensei queele fosse desmaiar. Ficou apenas me olhando. Aí eu parei edisse, agora lhe entendi. Vou fazer o seguinte, começarei umtrabalho para ver se faço um jogo entre a seleção de Israel,que nós prepararemos na Fifa, e a seleção da Palestina, quetambém será preparada. O confronto seria em Nova Iork, nasede da ONU, com todos os grandes presidentes do mundo paraassistir a esse jogo de confraternização. Comecei um trabalhoe os dois aceitaram. Tive, em 1997, um encontro com osisraelenses, de acordo. Quando ia me encontrar com o Arafat(Yasser, líder palestino), em Gaza, houve um atentado a umônibus de alemãos, que matou 51, e a segurança internacionalme impediu de ir. O tempo passou e pedi permissão ao Rei daJordânia para me reunir lá com o Arafat e ele me disse quesim. Depois, quando devia me reunir, o Arafat foi chamadopelo governo americano a Camp David (residência de campo dopresidente dos Estados Unidos) e novamente o encontro nãoaconteceu. O tempo correu e estive com o príncipe Faissal,que era o irmão do rei Fat, da Arábia Saudita. Perguntei sepodia me reunir com Arafat em Riad, capital árabe, onde euteria mais tranqüilidade. Ele disse que ia verificar e voltara falar comigo. Pouco tempo depois, deixei a Fifa e elefaleceu, com um problema no coração, e assim essa reunião nãose fez. É a minha única tristeza. Tenho a impressão de quemuito do que está acontecendo podia ser evitado. Mas, o quepude fazer eu fiz, mas nem sempre é possível fazer tudo. AE ? E o futebol africano, que o senhor foi oprincipal responsável por seu desenvolvimento? Valeu oesforço empreendido?Havelange ? Se o futebol africano nasceu, desenvolveu ecresceu foi por causa do trabalho que fizemos. Vou citar umexemplo, a seleção do Senegal venceu a da França e todos osseus jogadores atuam por clubes franceses. Já os da Françaatuam fora do país. Isso é um fenômeno. Em qualquer lugar quevamos, seja na Inglaterra, Alemanha, Itália ou Portugal,encontramos jogadores da África. E todos da melhor qualidadee fazendo um grande espetáculo. Acho que é um continente quedemonstrou sua capacidade e o que ele pode oferecer ao mundo.E façamos votos, e é o meu desejo, porque foi uma coisa quelutei muito, que houvesse a rotatividade entre os continentespara se escolher a sede da Copa do Mundo e tudo indica que aCopa 2010 será na África.AE ? Bem, já que a Copa de 2010 será na África, quando seria a vez do Brasil?Havelange ? A Copa do Mundo de 2014.AE ? E vamos ter condições de realizá-la em tãopouco tempo e com muitas coisas e pensamentos por mudar?Havelange ? Mas, lógico. Por que isso? Não podemoscomeçar pensando negativamente. Fazer oito, dez estádios,isso não é nada. Você encontra quinhentas firmas para fazerisso.AE ? Mas e a vontade política para realizar uma competição como a Copa do Mundo?Havelange ? Quem decide onde é a competição é a Fifa. Seeles (políticos) não correrem atrás, alguém virá aqui e fará. Por exemplo, se a Copa do Mundo for na África do Sul, você acha que a Inglaterra não vai ajudar? Se for em Marrocos, a França não vai ajudar? Tem sempre alguém para ajudar. Só quero uma coisa: é que respeitem o futebol brasileiro, porque ele ainda é um grande motivo de alegria, pelas vitórias que nos concede.

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