Fábio Motta|Estadão
Fábio Motta|Estadão

Havelange foi decisivo para a realização dos Jogos Olímpicos no Rio

No fim da vida, excluído da Fifa e do COI por corrupção, se afastou da vida pública

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2016 | 09h12

Havelange esteve intimidamente ligado aos Jogos no Rio. Ele havia sido convidado pelo presidente da Rio-2016, Carlos Arthur Nuzman, para estar na cerimônia de abertura no dia 5. Mas não apareceu. Em 2009, na última apresentação da delegação do Rio de Janeiro para conquistar o apoio do COI para sediar os Jogos de 2016, a palavra final foi dada por João Havelange. Ao se levantar, sua estatura impressionante e seu histórico geraram um profundo silêncio na sala de convenções em Copenhague.

"Em 1952, participei dos Jogos ao lado de nomes importantes como Jesse Owen. Vi que essa competição é capaz de mudar um país e a vida de muitas pessoas", disse em francês o então-presidente de honra da Fifa. "Convido todos vocês a virem para a minha cidade, prestigiar os Jogos, no meu centésimo aniversário. Peço que se juntem a mim para realizar esse sonho", apelou. 

Sete anos depois, seus dois sonhos se concretizaram: os Jogos ocorrem no Rio e, em maio, Havelange chegou aos 100 anos de idade.

Mas se em 2009 o mundo ainda reverenciava o brasileiro, ele vivia nos últimos anos no ostracismo. Seu cargo de presidente de honra da Fifa foi retirado por causa do escândalo de corrupção. O brasileiro foi obrigado a abandonar o COI, perdeu seu nome no estádio que está sendo usado para a Olimpíada (agora se chama Nílton Santos) e a Justiça dos EUA reabriu investigações sobre seu reinado no comando da Fifa.

SOB OS OLHARES DE HITLER

Nascido em 8 de maio de 1916 no Rio, o filho de belgas Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange se destacou na natação e no pólo aquático no Fluminense. Competiu nos Jogos de 1936, em Berlim, sob os olhares de Adolf Hitler. Também foi aos Jogos de 1952 e, em 1956, já era quem comandava a delegação brasileira. Naquele mesmo ano, ele passaria a presidir a CBD e levaria o Brasil às conquistas no futebol de 1958, 1962 e 1970. Intimamente relacionado com o regime militar brasileiro, Havelange permitiu que os generais usassem a seleção como instrumento de propaganda, dentro e fora do País.

Em 1974, era a vez da tomada de poder da Fifa. Para isso, teria de desbancar o cartola que acreditava ser de fato o dono do futebol: o britânico Stanley Rous. Com a ajuda da Adidas, que buscava contratos no futebol, o brasileiro causou uma surpresa mundial. Ao Estado, Joseph Blatter confessou em 2014 que os ingleses e o restante dos europeus jamais aceitaram a derrota. Mas Havelange assumiu uma entidade perto da falência. Com poucos funcionários e um caixa praticamente vazio, o brasileiro transformaria a Fifa usando sua influência para colocar o futebol como um dos maiores produtos comerciais do planeta. 

Para se manter no poder por 24 anos, Havelange montou uma estratégia que se mostrou imbatível. Ao perceber que a descolonização da África e da Asia significaria uma onda de novos aliados, Havelange se apressou em desembarcar nessas regiões do mundo oferecendo um lugar na Fifa para a recém-estabelecida nação, recursos e uniformes para montar uma seleção. Ampliou vagas nos Mundiais e distribuiu dinheiro. Para muitos governos, isso valia mais em termos de popularidade interna que uma bandeira no prédio da ONU.

A segunda parte da estratégia foi a de usar a nova tecnologia que surgia – as transmissões de jogos - para vender os direitos para a Copa do Mundo para as grandes emissoras do mundo. A arquitetura de poder era completada com o financiamento de multinacionais que usariam a plataforma da Copa do Mundo para mostrar suas marcas pelo planeta e usando justamente as transmissões ao vivo.

Assim, Havelange garantiu uma explosão de recursos, de membros e, praticamente todos eles, seus aliados. Ao final dos anos 90, o COI reconheceria essa trajetória e o escolheria como um dos três maiores "Dirigentes do Século", ao lado do Barão Pierre de Coubertin e do ех-Presidente do COI, Juan Antonio Samaranch.

PODER

Manter-se no poder ainda significava manter ótimas relações com algumas das piores ditaduras do mundo. Assim foi o caso da Argentina de Videla, para onde o brasileiro levou a Copa de 1978, ditadores africanos e árabes. Os relatos ainda contam como, dentro do Brasil, sua relação com o crime organizado não era alvo de qualquer tipo de questionamento pelas autoridades.

Em seu livro Omerta, o jornalista britânico Andrew Jennings traz uma carta que Havelange teria dado ao bicheiro Castor de Andrade como uma espécie de apresentação para quem o ousasse atacar. Escrita em 2 de outubro de 1987, a carta insistia nos benefícios que Castor de Andrade trazia à sociedade e elogiava sua "lealdade". "Castor de Andrade é respeitado e admirado por seus amigos, por sua educação e seus feitos", diz. "Eu autorizo Castor de Andrade a usar essa declaração em sua conveniência", diz a carta. "Sou o presidente da Fifa e Castor é uma personalidade reconhecida do esporte no Rio. Aqueles que o atacam talvez ignoram esse lado positivo de sua personalidade."

MALA DE OURO

O abuso de seu poder na Fifa também foi tratado por Jennings. O autor conta como o brasileiro desembarcava no Brasil durante o período em que foi presidente da Fifa com uma mala repleta de barras de ouro e usava o fato de ter um passaporte diplomático para não ser revistado. As acusações são pesadas contra Havelange. Segundo o jornalista, o brasileiro fazia a viagem com as barras de ouro em média cinco vezes por ano. Numa mala de alumínio eram colocados sempre um valor de cerca de US$ 30 mil em ouro. Jennings cita um ex-funcionário da Fifa como fonte de sua informação e aponta que, na volta, Havelange a utilizava para trazer café em pó e distribuir aos funcionários da entidade em Zurique.

Mas quando Havelange deixou o poder na Fifa em 1998 e ainda elegeu seu sucessor, Joseph Blatter, o brasileiro acreditava que seu legado estava garantido, assim como sua imunidade. Sua história não tinha terminado. Revelações feitas pela imprensa britânica apontaram em 2011 que, nos anos 90, ele recebeu milhões de dólares em propinas da empresa de marketing ISL em troca de contratos de transmissão para a Copa do Mundo. Ricardo Teixeira, seu ex-genro, também ficou com parte do dinheiro e, no total, a ISL teria distribuído mais de US$ 100 milhões em propinas.

Um acordo foi fechado na Justiça suíça em que, sem admitir culpa, Havelange e Teixeira pagaram uma multa e o caso foi encerrado. Por anos, os documentos foram mantidos em sigilo. Mas a publicação dos dados fez o COI abrir investigações. Em 2011, uma semana antes do veredito final do COI, Havelange enviaria uma carta para a entidade em Lausanne indicando que, "por motivos de saúde", renunciava de seu cargo. Fora do COI, o brasileiro conseguiria evitar ser punido e o processo foi arquivado. Ao fazer o anúncio diante da imprensa, o então presidente do COI, Jacques Rogge, não conseguia sequer esconder seu constrangimento.

FRAUDE

Havelange acreditava que havia conseguido evitar uma exposição pública ao deixar a cena olímpica antes de uma condenação. Mas sua história não havia acabado. Em 2012, depois de uma longa batalha jurídica, os documentos do processo suíço foram publicados e, neles, ficava provado que Havelange havia "fraudado" a Fifa e "colocado seus interesses pessoais acima dos interesses da entidade". Não demorou para que, em abril de 2013, Havelange tomasse a decisão de renunciar de seu cargo de presidente de honra da organização que ele transformou.

Uma vez mais, o brasileiro havia conseguido evitar uma condenação. Por não mais fazer parte da Fifa, Havelange não poderia mais ser punido. Ele acreditava que a história estava encerrada. Havia entregue os anéis, deixou todos seus cargos, não assistiu à abertura e nem à final da Copa do Mundo em sua cidade e viu seu nome removido do Engenhão. Mas havia evitado a condenação pública pelas instâncias legais.

REABERTURA

Isso tudo, claro, até que de forma inesperada o FBI decidiu mergulhar no esquema de corrupção da Fifa. Em maio de 2015, uma onda de prisões afetaria a instituição e jogaria a entidade em sua pior crise. No fundo, a Justiça americana estava desmontando a estrutura corrupta criada sob o mandato de Havelange. Em dezembro de 2015, foi a vez de o brasileiro passar a estar no radar do FBI. Numa carta rogatória aos suíços, os americanos solicitaram acesso a todo o processo das propinas da ISL, que estava arquivado na cidade de Zug.

No pedido de cooperação enviado pelos americanos à Justiça da Suíça, os EUA indicam claramente que Havelange e seu braço direito, Blatter, estavam no centro do processo. Para o FBI, não resta dúvidas de que a corrupção na Fifa não é nova e que foi justamente sob o comando do brasileiro que ela ganhou uma dimensão inédita. 

Sua festa é, em parte, um espelho dessa nova realidade que vive. Gianni Infantino, o novo presidente da Fifa, não viajou ao Rio e Blatter, para evitar ser preso, também não tomou o avião. Coube ao veterano embaixador da entidade, Walter Gagg, dar a mensagem da Fifa num evento muito diferente do que ele havia planeja. João Havelange morre nesta terça-feira, no Rio, aos 100 anos.

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