Rafael Arbex|Estadão
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Heltton, o 'gato da Copinha', diz: 'Fiz isso para não entrar no crime'

Após ter falsificado seu documento e ter tirado o Paulista do torneio, Hellton cumpre sua pena no time da Vai-Vai

Entrevista com

Heltton, ex-Brendon e ex-zagueiro do Paulista

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2017 | 17h00

Entre tantos moleques desconhecidos no Vai-Vai, time amador de São Paulo, um jovem de 23 anos e que já teve momentos (negativo) de fama por ter cometido o maior erro da sua vida no futebol, tem nova oportunidade de reescrever sua história e realizar seu sonho de maneira digna e honesta. Após ser descoberto, admitir a trama e conseguir apoio para não desistir da carreira, o zagueiro ‘gato’ Heltton, ex-Paulista, também chamado de Brendon, só quer esquecer o passado errado em Jundiaí e resgatar o orgulho de sua família. Punido pelo STJD, o ‘gato da Copinha’ tenta a sorte no Vai-Vai.

Heltton utilizou documentos do amigo Brendon para reduzir a idade e disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior deste ano. Ele tem hoje 23 anos, feitos em março, mas disputou a Copinha como se tivesse 20.

Após ser denunciado, o ‘gato da Copinha, como ficou conhecido, foi suspenso por 360 dias. Para um garoto, isso poderia significar o fim da carreira que ainda estava no início. Mas enquanto cumpre a pena (para jogos oficiais), atua pelo time oriundo da escola de samba que leva o mesmo nome em São Paulo.

Ele tem contrato com o Audax, presidido pelo ex-jogador Vampeta, e está emprestado ao time amador até o fim da suspensão. “Me arrependo do que fiz. Só quem tem um sonho sabe do que é capaz de fazer para realizá-lo. Sei que temos de buscar sempre a forma correta, mas escolhi a errada para dar uma vida melhor aos meus pais”, diz o zagueiro, que só pode voltar a atuar oficialmente em fevereiro do ano que vem.

Heltton nasceu na periferia de São Gonçalo e viu na falsificação dos documentos a única forma de continuar no futebol e, segundo ele, fugir da criminalidade. “Fiz no desespero. De onde vim, se fosse escolher o caminho mais fácil, faria coisas mais erradas. Fiz isso para não entrar no crime, embora tenha cometido um (falsificação). Essa foi minha fuga para não ser abraçado por esse sistema bruto”, diz.

A oportunidade de disputar um torneio de base com idade adulterada surgiu quando ele teve acesso aos documentos do amigo Brendon, atualmente preso no Rio por roubo e tráfico. “Peguei os documentos dele e fiz tudo sem contar para ninguém. Não queria nem que meus pais (Vânia e Nilton) soubessem, mas deu tudo errado e descobriram da pior forma possível. O que mais me abalou foi envergonhar meus pais.”

Vânia e Nilton estranharam ver o filho na televisão ser chamado de Brendon. “Eu disse que foi um erro na inscrição, mas que isso não tinha problema”, lembrou o beque do Paulista, que antes da partida contra o Batatais, pela semifinal da Copinha, já sabia que seu esquema havia sido descoberto, Mesmo assim ele não confessou. “O Paulista recebeu a denuncia, a diretoria veio me perguntar e eu falei que era mentira. Eu já tinha jogado e se fosse para ser punido, seríamos de qualquer jeito. Preferi correr o risco”.

Após a farsa ser descoberta, o Paulista acabou eliminado da competição. Enquanto os garotos do time choravam pela eliminação nos tribunais, Heltton foi acolhido pelo ex-jogador Vampeta e conseguiu um contrato com o Audax. “Falam que o crime compensou para mim. Na verdade, o que compensou foi a verdade. Se eu não tivesse sido descoberto, tudo poderia ser diferente. Pensei em desistir, mas o Vampeta me salvou e me deu uma segunda chance.” O time de Jundiaí foi desmanchado.

O filho de Dona Vânia e Seu Nilton foi taxado de criminoso por muita gente. “Quem me conhece sabe que eu não sou nada disso. Me senti ainda mais culpado, pois meus pais não mereciam ouvir essas coisas”, chora.

A ilegalidade de Heltton não é algo raro na categoria. Ele mesmo admite que sabe de outros casos, mas prefere não entregar ninguém. “A gente sabe que eu não fui o primeiro nem serei o último. Conheço outros jogadores ‘gato’, mas não sou eu que tenho de falar sobre isso”, diz.

Heltton sabe que ficará marcado para sempre como “o gato da Copinha”, mas tentar tirar do episódio uma lição de vida e reage com humor às provocações. Durante o treino do Vai-Vai que o Estado acompanhou, sabendo da reportagem, alguns jogadores tiraram sarro dele. Heltton reagia com humor. Enre os amigos, ele leva a fama também de ser uma cara boa-praça.

Até Vampeta, seu ‘salvador’, já brincou com a situação. Assim que foi descoberto, Heltton decidiu se esconder por três dias. Vampeta o encontrou. Ele conta que bastou colocar um pires com leite no chão. Heltton voltará a jogar no Audax somente em 2018, com 24 anos.

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