Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Hernanes: 'São Paulo esteve no fundo do poço e agora precisa voltar a subir'

Hernanes fala ao 'Estado' sobre alívio com garantia de permanência do clube tricolor na Série A e revela surpresa com sufoco na temporada

Entrevista com

Hernanes, capitão do São Paulo

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2017 | 07h00

Após escapar do rebaixamento no Brasileirão em um das piores campanhas de sua história, o São Paulo precisa olhar para trás, aprender com os erros e se inspirar em seus momentos de glória para voltar a ser o que era. Esta é a avaliação do ídolo e capitão Hernanes, que voltou ao Morumbi depois de sete anos para se tornar a principal referência em campo da equipe que conseguiu reagir depois de ver ameçado um dos principais lemas de sua torcida: "time grande não cai".

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Mas o futuro depende de correções, como profetiza o meia: "Erramos muito neste ano e esses erros vão ter de ser corrigidos em 2018. Esse ano o São Paulo esteve no fundo do poço e agora precisa voltar a subir."

Hernanes fala de ciclos e, sem perceber, traça um paralelo entre sua carreira e a trajetória do São Paulo nos últimos anos: assim como o time viveu um momento de glória, há cerca de dez anos e, agora, após sucessivas decepções, tenta se reerguer, o meia também renasce no futebol, em busca de sua "segunda plenitude", como ele próprio define, depois do ápice e até do esquecimento.

Nesta conversa com o Estado, Hernanes ainda revela que não imaginava passar pelo sufoco que foi a trajetória do São Paulo neste Nacional, em seu retorno ao futebol brasileiro. Da mesma forma, se diz surpreso por seu papel determinante no grupo: capitão e artilheiro do time no torneio, com nove gols e três assistências.

O que o São Paulo precisa levar de aprendizado para 2018?

A vida é feita de ciclos. O São Paulo vinha de um ciclo vitorioso há uns dez anos, mas as peças foram embora e, para montar um grupo vitorioso, não é tão simples assim. Quando a gente estuda  uma língua estrangeira, nos deparamos com falsos cognatos, que são expressões parecidas, mas que às vezes são coisas completamente diferente. Existem falsos cognatos no futebol. Um clube conquista muitos títulos e aí achamos que ele vai sempre significar conquista. Mas é preciso ter jogadores de qualidade e boa gestão administrativa, estes são alguns fatores para que o time permaneça tendo bons resultados. O que aconteceu em 2017 talvez foi o fundo do poço que o São Paulo foi caindo depois do último ciclo vitorioso. Agora é preciso começar a subir de novo.

Você imaginava que passaria por este sufoco em seu retorno ao futebol brasileiro?

Nao imaginava. Tanto é que, antes de eu vir, eu via as rodadas, via que de repente estávamos na zona de rebaixamento, mas imaginava que dali a pouco ganharíamos e pronto. E aí, quando cheguei, ganhamos o primeiro jogo contra o Botafogo (4 a 3, no Rio), achei que as coisas iriam deslanchar, e nada. Parecia areia movediça, que quanto mais a gente se esforçava, mais afundava. Foi complicado demais, eu não esperava essa situação.

Como foi pensar no São Paulo rebaixado?

Eu sempre digo que pensar é um verbo. E uma coisa que acontece dentro da nossa cabeça às vezes, não é exatamente pensar, mas é um fluxo de ideias. Sem querer pensar, algumas coisas passam pela cabeça. Não pensei, mas passou pela minha cabeça essa possibilidade. O São Paulo rebaixado, eu capitão... E cada vez que aparecia esse fluxo, eu espantava, que nem passarinho, para que aquilo não ganhasse consistência.

O clima agora, sem chance de rebaixamento, é de comemoração ou alívio?

O clima ficou mais leve, descontraído, é melhor para vir treinar e estar aqui (no CT). Apesar do peso, o grupo foi forte, o trabalho do (técnico) Dorival Junior foi forte para não deixar o grupo se abater e conseguir suportar bem a pressão. Mas não tem que comemorar muito.  Não dá para estar satisfeito. Dá para comemorar pela realidade que enfrentamos, de termos passado 14 rodadas na zona de rebaixamento. Em alguns momentos, parecia que o negócio não andava, não ia.. Então, foi comemorado o fato de que conseguimos alcançar a meta (de zerar o risco de queda), mas não significa que estamos satisfeitos. A realidade do São Paulo é comemorar por outras coisas, melhores. Esse foi um ano à parte.

E pessoalmente, o que significou para sua carreira ter passado por esse momento tenso?

Eu estava em alta quando estava no São Paulo, quando fui para o futebol italiano, na Juventus joguei a Liga dos Campeões, que era meu objetivo máximo na época, mas depois comecei a cair, fui esquecido... Eu vejo que, dentro desses ciclos, eu cheguei, naquele época, no que eu chamo de minha primeira plenitude, e o aí o ciclo se inverteu. Neste ano eu, portanto, eu estaria começando minha segunda plenitude. Estou em outro ponto de inversão da curva, estou em ponto de decolagem.

Você estava desmotivado antes de voltar ao Brasil?

Eu não tinha prazer em jogar futebol. Sempre tratei como um trabalho e, recentemente eu estava estudante sobre a origem da palavra 'trabalho'. Vem de tripaliu, do latim, que significa tortura. Então, percebo que o prazer vem de um equilíbrio que parte do seu sacrifício. Encontrei um equilibrio. Não deixei de fazer sacrifício, mas achei um equilíbrio do sacrifício certo que tenho que fazer, e então encontrei o prazer de jogar.

Ter encontrado o prazer em jogar te faz pensar em continuar no futebol no futuro, depois de se aposentar como jogador? Pensa em ser técnico um dia?

Não penso de fato, mas a ideia passa pela minha cabeça. No ano passado, era uma situação oposta,. Cheguei a pensar 'acabou o futebol, não quero mais saber', e hoje o que passa pela minha cabeça é bem diferente. Então, não penso, exatamente, em continuar no futebol depois de me aposentar, mas sim, passa pela cabeça.

Você se surpreendeu com o seu bom rendimento no São Paulo?

O desejo era grande de me surpreender, então tem sido muito especial. Não esperava... Eu esperava fazer grandes coisas, mas não esperava alcançar esses resultados expresivos. Tem sido surpreendente.

Pensando em 2018, Tite deve te dar uma chance na seleção brasileira?

Não sou avaliador para definir se eu mereço, mas estou fazendo meu trabalho, tentando manter uma regularidade e isso é primordial. Sem isso, a chance não vai aparecer. É o que eu posso controlar: minha performance. O critério e a de decisão são do Tite. Mas com certeza eu busco essa oportunidade. Isso me motiva. Vejo que a seleção tem chance de trazer o hexa. Tem uma boa equipe, um bom treinador, mas vai ser difícil. França, Alemanha, Argentina e Brasil estão muito equilibradas.

Você acredita em uma vaga na Libertadores no ano que vem?

Temos que lamentar um pouco. Vacilamos. Poderíamos ter chegado ao nosso objetivo (fugir do rebaixamento) há algumas rodadas, mas demoramos para chegar. Agora, particularmente, acho que as chances são pequenas (de Libertadores). Espero que a gente consiga vencer os dois próximos jogos para acabar o ano da melhor maneira possível.

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Dorival vê o São Paulo lutando por título em 2018. Concorda?

Se permancer esses jogadores, concordo. Têm qualidade, e chances de brigar por coisas boas. Nosso segundo turno foi uma das melhores campanhas. O grupo tem qualidade se permanecer e temos chance de brigar em cima. Mas tudo passa por manter essas peças, para não comprometer esta possibilidade.

Sua chance de ficar depois de julho é baixa...

Já falei que tinha 1% de chance de ficar depois que meu contrato se encerrar. Talvez tenha sido um pouco pessimista. mas quis dizer que, no meu modo de ver, acho que é uma chance pequena, muito pequena. Meu querer não conta nada. Se eu pudesse fazer alguma coisa... Sou apenas um espectatdor aguardando meu destino. 

Qual a profecia para o São Paulo em 2018?

Profeta nao é só para ler a bola de cristal. Profeta também pode apontar erro. A profecia maior para 2018 é que o São Paulo errou muito neste ano e esses erros vão ter de ser corrigidos no ano que vem".

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