Herói do São Paulo, Zetti fala sobre o título da Libertadores de 1992

SÃO PAULO - Zetti deixou o hall dos grandes goleiros para entrar na galeria dos imortais do São Paulo assim que voou para defender o pênalti cobrado por Gamboa e garantir o título da Libertadores ao Tricolor, o primeiro de sua história. Em entrevista ao estadão.com.br, o ídolo lembra dos momentos mais marcantes daquela campanha, conta um truque na decisão dos pênaltis e não esconde a emoção ao recordar a conquista histórica. "É a única coisa abaixo da Copa do Mundo."

Fernando Faro, estadão.com.br

16 de junho de 2012 | 16h01

Você ainda se lembra a primeira coisa que pensou quando defendeu o pênalti do Gamboa?

Não lembro exatamente o que se passou, mas aparece um monte de memórias. Lembro do gesto de comemoração quando levantei a mão, do Müller pulando em cima de mim atrás do gol, do Waldir de Morais, que era olheiro do Telê, me abraçando. Ele acompanhou os últimos jogos do Newell's, viu as decisões por pênalti contra o América de Cali e passou as informações de como eles batiam. Cada jogador estava anotado no papel e eu tinha combinado com o Alexandre (goleiro reserva, morto em acidente de carro um mês após o título) para ele me ajudar a indicar quem era quem, já que não conseguia decorar todos os números. Isso me ajudou em uns 70%, porque só um cobrador mudou a batida. Foi um trabalho e uma festa em equipe.

Vocês imaginavam que poderiam ser campeões antes da competição começar?

Não éramos azarões, mas também não éramos exatamente favoritos. O Newell's não tinha essa tradição toda na Libertadores e éramos uma força do futebol brasileiro. Quando eliminamos o Barcelona (de Guayaquil), começamos a acreditar nessa realidade de título. O time estava muito bem, jogando um futebol ofensivo e sempre buscando os resultados, mesmo quando perdíamos fora. Entramos desconfiados na competição e de repente tudo foi acontecendo, fomos ganhando corpo e chegamos com força na decisão.

Qual foi o momento mais crítico da campanha?

Foram dois jogos: contra o Bolívar, fora de casa, onde empatamos, mas aconteceu tudo de errado. A Libertadores não era rentável para os brasileiros. Tivemos problemas de logística, hotel, vestiário, tudo era favorável para os estrangeiros. Em 1992 o São Paulo abriu as portas e a competição passou a ser rentável e todo mundo começou a investir nisso. Saímos perdendo e o Raí achou um lance para empatar. Depois vencemos e passamos de fase. O outro jogo complicado foi contra o Barcelona, na semifinal. Vencemos no Morumbi por 3 a 0 e poderíamos ter feito muito mais, perdemos uma infinidade de gols. Aí chegamos lá, levamos dois gols no primeiro tempo e senti que a qualquer momento eles poderiam fazer o terceiro e complicar de vez a nossa vida. Sofremos muito naquela partida.

O São Paulo é responsável por essa obsessão dos clubes brasileiros com a Libertadores?

Acho que sim, foi o grande marco para todo mundo. O título de 92 foi decisivo para tudo, até mesmo na organização do evento. O futebol sul-americano como um todo passou a se estruturar para essa competição, ela ficou grande para as emissoras de TV, que passaram a investir mais. Os clubes brasileiros e as empresas passaram a apostar pesado porque perceberam que disputar a Libertadores era retorno garantido de público e mídia. O São Paulo, nesse quesito, mudou a forma de os demais enxergarem a competição.

De que forma a conquista influenciou na história do São Paulo e na carreira de vocês, jogadores?

O São Paulo, posso dizer isso porque joguei o Tereza Herrera e o Ramón de Carranza, não era conhecido fora do Brasil. Não sabiam quem era o time até vencermos a Libertadores. Ainda em 92 fomos jogar contra o Barcelona em Tóquio e eles achavam que só tinham ido receber o troféu. Vencemos o mundial também e passamos a ser ainda mais conhecidos internacionalmente. Antes de nós, eram só o Santos e o Botafogo que existiam para os europeus. Éramos grandes no Brasil, mas fora dele ainda não. Confesso que há 20 anos, quando defendi aquela cobrança de pênalti, não pensava que um dia contaria essa história. Só quem passou por isso pode explicar. Para os jogadores a Libertadores também abriu muitas portas, recebi muitos convites e até hoje as pessoas lembram de tudo aquilo.

Existe algum fato ou momento que te marcou?

Acho que jogar a 4,8 mil metros de altitude em Oruro, contra o San José, foi o mais marcante. O Moraci Sant'anna foi perfeito no trabalho de pesquisar sobre a altitude. Fizemos uma preparação três meses antes na esteira com redução de oxigênio e outros exercícios especiais. Foi um jogo absurdo, o Macedo demaiou, nosso médico teve problemas também, chegamos no vestiário e tinham onze cilindros de oxigênio e a gente pensando que precisaria usar aquilo. Isso porque saímos de Santa Cruz de La Sierra para chegar em cima da hora e não sofrer os efeitos da adaptação, mesmo assim foi terrível. É um choque muito grande, quando o avião chega você está praticamente batendo na montanha. Descemos em uma pista de cascalho, acho que o aviãozinho nem tinha cinto de segurança (risos). Ainda assim o Palhinha nos ajudou, marcou os três gols e garantiu uma viagem de volta mais feliz.

Depois de 20 anos, lembrar disso tudo ainda emociona?

A Libertadores me dá muita saudade, é algo que gosto de assistir quando posso. É diferente de tudo, você não dá espetáculo, joga com garra, coração, precisa suportar uma pressão inacreditável dos rivais, tem de lidar com a hostilidade de torcedores fora de casa. Isso traz outro sentimento para o jogador, uma coisa muito forte. Costumo dizer que Libertadores é a única coisa abaixo da Copa do Mundo, é uma coisa fantástica de se jogar.

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