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Antero Greco
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Hipócritas

O futebol brasileiro afoga-se em hipocrisia. Atitudes oportunistas, moralismo de ocasião e insinuações levianas ultimamente transbordam por microfones, câmeras de televisão, páginas oficiais e redes sociais. Cartolas, técnicos, jogadores sugerem armações contra os respectivos times com a mesma sem cerimônia com que se calam quando decisões equivocadas de árbitros os beneficiam. 

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2015 | 03h00

A análise de erros e acertos das equipes ficou em segundo plano. A discussão técnica foi para o banco de reservas, e no lugar dela entraram as lambanças dos apitadores e, sobretudo, um hipotético plano para dar o título ao Corinthians e prejudicar os demais, em especial o Atlético-MG. Ao invés de destrincharem méritos e falhas dos concorrentes da Série A, o mundo da bola e seus personagens se escudam numa suposta tramoia para beneficiar um só, e com motivos ignorados.

Os juízes têm errado – e muito. Decisões deles influenciam resultados e a classificação do campeonato nacional de 2015 – como em todos os anos e desde que cada um de nós se conhece por gente, independentemente da idade que tenhamos. Há muita incompetência e presunção de suas senhorias. Fatos evidentes. E nenhuma comprovação de má fé, declarada ou obscura. 

Apenas referências soltas aqui e ali, e estas são tão ou mais maléficas do que as escorregadas dos árbitros. Pois corroem, estimulam rivalidade, atiçam ódio. E ódio é sentimento de que o Brasil de hoje parece saturado, e não se sabe em que pode desaguar.

O Corinthians ganhou pontos por causa de interpretações atrapalhadas, com um detalhe: mais do que outras equipes, mas não foi o único. Todas contam com algum (ou vários) episódios em que tiraram proveito de um pênalti ignorado, de um gol adversário mal anulado, de uma expulsão. Episódios que ocorrem desde sempre. 

A diferença de agora está na velocidade com que as teorias de conspiração se expandem e na intensidade das reações de torcedores, por causa da proliferação imediata dos tuíters e feices da vida. E disso se aproveitam dirigentes para fazer média, para jogar para a torcida e, eventualmente, até para rasgos de sinceridade com desabafos simples.

A hipocrisia está no fato de que um presidente chame árbitros de vagabundos, safados ou mande entregar a taça para o Corinthians – e pare por aí. Ora, se realmente o sujeito sabe de falcatruas, de arranjos de gabinetes que denuncie sem meios-termos. Se conhece campanhas para ajudar um clube que venha a público e desmascare os corruptos, os mal-intencionados. Será um serviço e tanto para o futebol.

Não vale a desculpa de que não há como provar. Quem trabalha com os bastidores entende dos atalhos, foi instruído a respeito de como as coisas funcionam. Raros os ingênuos, neófitos e desavisados. A questão é: quem romperá o círculo vicioso? Qual o herói que desencadeará o efeito dominó? Ou, mais claramente, quem não tem telhado de vidros nesse mundinho?

Por que executivos de clubes chiam com voracidade, babam fel em erros contra seus times e não dão um pio se ganham troféu com gol impedido, se evitam quedas em tribunais, se mudam regulamentos em cima da hora? Você já viu um presidente vir a público e falar: “Puxa, aquele gol deles anulado era normal”? Ou o técnico mandar o atacante avisar o juiz de que o pênalti em seu favor não era, porque ele tropeçou ou fingiu ou só caiu? Não, né?

Dirigentes fariam um bem danado para a credibilidade do negócio se se unissem e fossem à CBF pedir mudanças no sistema de arbitragem e colocassem profissionais. Ou, melhor: se derrubassem a estrutura da entidade, a começar pela troca de um comando maior desgastado, que sequer aparece em público. 

Isso dá trabalho e significa mexer em vespeiro – dos quais são integrantes. Daí esbravejam, dão shows de grosseria, porém não movem uma palha para o aperfeiçoamento e a transparência das competições. E o torcedor, coitado, aceita tudo. 

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