José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

História de Julen, do Palmeiras, tem rapper e jogadores da Copa de 94

Volante conta sua trajetória e espera por chance no Alviverde

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2015 | 07h00

Durante os treinos do Palmeiras, é normal ouvir algo do típico: "Quem é aquele cara? Algum garoto da base?" O "cara" é o volante Julen Sandy, que ainda não fez uma partida sequer como profissional, mas caiu nas graças do técnico Oswaldo de Oliveira e desde o início do ano tem feito parte do grupo alviverde. A história do garoto de 20 anos é tão curiosa quanto o fato dele conseguir se manter no plantel mesmo com tantas mudanças e após chegar apenas para completar o elenco.

Para completar as curiosidades, ele é empresariado pelo músico Gabriel O Pensador, começou no time em homenagem ao Legião Urbana e tem o nome por causa de jogadores da Espanha e da Bolívia que jogaram a Copa de 94, algo que fez eles sofrer muito na infância. No início do ano, ele e o volante Lucas Morelatto foram promovidos e a ideia era liberá-los assim que os reforços chegassem. Lucas foi para o Boa Esporte, Julen ficou e passou a ser “adotado” por Zé Roberto, seu grande amigo e espelho. O volante saiu de casa com apenas 14 anos para ir atrás de seu sonho e vê no experiente jogador, um exemplo, a ponto de copiá-lo.

 

Em entrevista exclusiva ao Estado, Julen contou sua trajetória, o motivo do nome curioso e o sofrimento , sua amizade com Zé Roberto e como Gabriel O Pensador se tornou seu empresário

 

Como você chegou ao Palmeiras?

Eu comecei jogando no Legião e apareci bem no Campeonato Brasiliense (na base). Um observador do Duquecaxiense me viu e me levou para o Rio de Janeiro. Fiquei três meses no time fui para o Fluminense, onde fiquei um ano, depois fiquei mais três anos no Vasco e no fim de 2013 cheguei ao Palmeiras. 

 

Legião é o time de Brasília em homenagem ao Legião Urbana...

Sim, esse mesmo. Um amigo meu começou um projeto para ajudar muitos garotos lá e eu fui um dos ajudados. O nome do time é em homenagem ao grupo mesmo.

 

E como o Gabriel O Pensador virou seu empresário?

Ele é meu agente faz uns cinco anos. Ele era um dos responsáveis pelo Duquecaxiense e foi lá que nos conhecemos. Hoje, somos amigos e ele me ajuda bastante. 

 

Como foi sua infância?

Eu saí de casa com 14 anos e foi bem complicado deixar a família tão novo. Somos em quatro irmãos. Tem o Rômulo (24 anos), eu, Gabriel (17) e o Guilherme (12). Quando sai de casa, era uma criança chegando na cidade grande, olhava para o lado, não via meus pais (Joaquim e Amélia) e batia uma tristeza muito grande. Pensei em voltar para casa, mas aí, eu iria fazer o quê da vida? Não desisti e, graças a Deus, estou conseguindo vencer na vida. 

 

Como você consegue se motivar sabendo que não vai jogar?

É coisa de Deus. Independente de tiver jogando ou não, tenho que trabalhar porque isso vai ser bom para mim. Às vezes fico triste de ver todo mundo se preparando para um jogo e eu não, mas tenho fé que vou ter uma oportunidade em breve.

 

Chegou a conversar com o Oswaldo sobre sua situação?

Assim que cheguei, chamei ele e pedi por ajuda. Falei que sou jovem, estou subindo agora e queria que ele me olhasse com carinho, porque sei que a atenção estaria toda voltada para os jogadores que estão chegando, mas eu queria ajudar também. 

 

O que você fez de bom para convencê-lo a ficar?

Isso é engraçado, porque subi para o profissional com o Lucas Morelatto, que era mais conhecido, sempre foi capitão e tinha muito mais moral. Quando saiu a lista dos inscritos para o Paulista, nossos nomes não estavam. Ele me perguntou se eu não estava agoniado, falei que não, porque estava acostumado a viver aquilo. Ele que era a estrela e tinha que correr atrás.

 

Seu nome é Julen Sandy. Qual o motivo?

Eu nasci dia 9 de junho de 94, próximo da Copa. Minha mãe queria que eu chamasse Alexandre e meu pai estava pensando em outro nome. Um dia, ele estava lendo o jornal e viu uma matéria sobre o Julen Guerrero, meia da Espanha. Gostou do nome, mas queria mais. Então ele viu notícias sobre o Sandy, zagueiro da Bolívia. Meu pai me registrou como Julen Sandy e minha mãe ficou quase um mês sem falar com ele. 

 

Ela ficou brava por não ser Alexandre ou por ser Julen Sandy?

Acho que por ser Julen Sandy. Ela falava: ‘O que vão falar do meu filho? Vão falar que ele é homossexual’. Sofri com esse nome na escola. Quando tinha a chamada, ficavam todos em silêncio só para ouvir falar o meu nome e todo mundo caia na risada. E para piorar, a dupla Sandy & Júnior faziam muito sucesso. Para quem tirava sarro, eu falava que tinha nome de jogador de Copa do Mundo, mas era difícil aguentar.

 

Como é sua amizade com o Zé Roberto?

Pela idade, ele podia ser meu pai. Ele é um cara que acredita em Jesus, como eu, e isso nos aproxima. Eu fico reparando no jeito dele e tento fazer igual. Comecei a reparar que quando eu estava chegando para os treinos, ele já estava indo para a academia. Resolvi fazer isso também. Ele é um cara muito do bem e me espelho nele.

 

Se o Oswaldo não te aproveitar nas próximas rodadas, não quer sair para jogar?

Meu plano está nas mãos de Deus. O futebol muda bastante. Acredito que vá aparecer uma chance e vou aproveitar. Não sei o que será do meu futuro. 

 

E você só joga de volante?

Volante, meia, lateral, só não consigo ser zagueiro. Sou um volante mais técnico, mas de vez em quando a gente dá umas chegadas também, faz parte. O importante é jogar.

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