Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF
Imagem Mauro Cezar Pereira
Colunista
Mauro Cezar Pereira
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Honestos e incapazes

Foi absolutamente surreal a defesa da arbitragem nacional feita pelo presidente da CBF, Rogério Caboclo

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2021 | 05h00

Foi absolutamente surreal a defesa da arbitragem nacional feita pelo presidente da CBF. Aconteceu na sexta-feira, em meio à cerimônia dar premiação do Campeonato Brasileiro de 2020, no Rio de Janeiro.

Rogério Caboclo discursou como se não convivêssemos com tantas trapalhadas. E elas vêm de todos os lados, partem dos que manuseiam apito, bandeirinha e VAR...

Soou mais esquisito ainda o momento. Foi feito esse elogio público e rasgado dias depois da divulgação dos áudios da arbitragem de vídeo de Vasco x Internacional, partida que teve um gol colorado não checado pelo VAR porque o mesmo não funcionou.

O diálogo é inverossímil. Em determinado momento a voz, aparentemente, de quem operava o equipamento alerta:

- Tecnicamente a linha não está boa...

Em seguida outra voz envia a mensagem ao árbitro de campo:

- Ô Flávio, gol legal!

O recado era para Flávio Rodrigues de Souza, árbitro de campo naquela oportunidade. A questão é: se um integrante da equipe de vídeo disse que a linha não estava boa, porque outro deu ao apitador a “informação” de que o gol fora legal? Como poderia ter tal certeza?

Na súmula da peleja, o árbitro escreveu que nada de anormal acontecera? Será que um gol não ser revisado pelo VAR pode ser considerado normal? Dentro do que são as arbitragens no país, faz até certo sentido.

Em seu generoso discurso, Caboclo referiu-se aos integrantes da equipe de arbitragem como “classe isenta”. Ok, mas o presidente da CBF, mais uma vez, tocava em um ponto que apenas desvia do tema central.

Não é a honestidade dos que formam o time de arbitragem brasileiro que está em debate. O que se discute é sua capacidade, ou incapacidade. Não são poucos os momentos nos quais parecemos estar diante de honestos incompetentes.

Mas não foi só. Mais pérolas estavam guardadas para a fala do dirigente. Ele disse que os clubes são os responsáveis pelo exagerado número de jogos que disputam durante a pitoresca temporada brazuca.

Não é bem assim. A CBF faz o calendário, ela determina quando começarão e terminarão os certames a cada temporada. Subservientes, as agremiações, razão pela qual o futebol é o que é, apenas acatam. Mas a postura dos clubes não isenta de responsabilidade a Confederação.

A própria realização dos campeonatos estaduais de 2021, que começaram antes do encerramento da temporada 2020, evidencia que a política manda. Afinal, a CBF não tem o menor interesse em medidas que desagradem as federações.

As 27 entidades dos Estados têm votos com peso três, clubes da Série A peso dois e os da Série B peso 1. Em suma, as federações somam 81 votos e os integrantes das duas principais divisões do futebol nacional 60.

Assim, mais de 57% pertencem a essas entidades na hora se eleger o presidente da CBF. Rogério Caboclo foi eleito com 135 votos dos 141 possíveis, ou seja, os clubes também votaram em peso nele.

A subserviência é nítida. Como o fato de a política determinar os rumos do futebol. Por isso o dirigente discursa como lhe convém, defende seus subalternos da arbitragem e deixa claro que melhorar o futebol não é a prioridade.

Foi vendida a ideia de que essa gestão da CBF seria diferente. Até é, pela juventude do presidente em relação aos seus antecessores, pelo discurso supostamente mais moderno, e por algumas ações adotadas.

Mas na prática, no que mais importa, é uma administração como as anteriores. Fosse diferente, Caboclo discursaria por um calendário melhor e lamentaria as trapalhadas da arbitragem, mesmo utilizando os recursos de vídeo. Pelo bem do futebol.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.