Acervo/Estadão
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Impacto das concussões a longo prazo só foi descoberto recentemente

Encefalopatia de Bellini, capitão do Brasil na Copa de 1958, foi descoberta apenas depois da morte do ex-jogador

Felipe Laurence, especial para o Estado

22 de outubro de 2019 | 11h00

O estudo sobre as consequências das concussões só começou a tomar forma no começo dos anos 2000, quando estudos feitos em cérebros de ex-jogadores da NFL nos Estados Unidos mostraram uma deterioração comparável a de doenças como Alzheimer e Parkinson. "Até então a gente pensava que as concussões eram somente transitórias ou tinham consequências somente em esportes como o boxe, na chamada erroneamente de demência pugilística", diz Jorge Pagura, da CBF.

Luana de Oliveira, neurologista do Hospital Sírio-Libanês, explica o que é concussão. "É uma alteração da função mental. Não necessariamente envolve a perda de consciência, mas em muitos casos leva a tal, causada por um traumatismo cerebral, uma pancada, lesão externa."

Os estudos feitos por médicos como Bennet Omalu, retratado no filme Um Homem Entre Gigantes, mostrou que repetidas pancadas na cabeça acabam causando uma séria doença degenerativa chamada encefalopatia traumática crônica (CTE, na sigla em inglês). "São micro lesões cerebrais, não necessariamente por traumas grandes, mas por várias concussões repetidas, lesões que não são diagnosticadas por exames de imagem e levam à alteração da função cerebral em si", explica a neurologista. A longo prazo, essas lesões levam a prejuízos comportamentais e na memória. "A pessoa fica aquém da capacidade mental e cognitiva compatível à idade dela."

Hoje não há exames que façam o diagnóstico da encefalopatia antes de o paciente apresentar clara deterioração cognitiva, o que aumenta a importância da prevenção destes casos com regras que limitem o impacto na cabeça. "Tem havido uma educação médica continuada sobre isso, o assunto tem se tornado mais relevante, atingido um maior número de médicos nos últimos anos", comenta a médica do Sírio-Libanês.

MORTES

Os avanços nos estudos sobre concussões e suas consequências mostraram que no futebol jogadores já morreram por causa de encefalopatia. Bellini, capitão do primeiro título mundial do Brasil na Copa do Mundo de 1958, faleceu em 2014 após lutar contra o Alzheimer. Depois de sua família doar o cérebro para a Universidade de São Paulo (USP) foi descoberto que Bellini na realidade sofria da doença degenerativa cerebral e morreu por conta das suas consequências.

Na Inglaterra a discussão sobre a encefalopatia apareceu após a morte precoce de Jeff Astle, lenda do West Bromwich, em 2002, aos 59 anos, também apresentando quadro de demência. Em 2014, após uma campanha feita pela sua família, se descobriu estudando restos do seu cérebro que ele morreu de encefalopatia. Rod Taylor, ex-meia do Portsmouth que faleceu em 2018, aos 74 anos, com os mesmos sintomas, foi outro jogador que teve a doença degenerativa diagnosticada após sua morte.

As famílias de Astle e Taylor se juntaram em um processo contra a Associação Inglesa de Futebol, a FA. Elas pedem indenizações por conta das mortes dos jogadores e que a confederação coloque mais investimentos na pesquisa das consequências dos choques de cabeças no futebol, além de informar os jogadores atuais dos possíveis danos cerebrais que eles estão sujeitos no esporte.

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