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Imprudentemente poético

Analisar só resultado não resolve problema nem garante sucesso dos clubes

Marília Ruiz, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2017 | 04h00

Está aberta a temporada de reflexões e teses sobre verdades definitivas e erros crassos dos times na temporada 2017. Com a conquista antecipada do Corinthians, ainda que tenhamos em disputa vagas na Libertadores, na Copa Sul-Americana e na própria Série A do Brasileiro do ano que vem, os clubes se internam para sessões de terapia com um quê de descarrego, quase uma desintoxicação.

Isso porque, na cultura “resultadista” em que vivemos, todos os que não ganharam estão na fase da reformulação. Não ganhou? Não serve. Não levantou taça? Fracasso. E o que vale para elencos, vale ainda mais para treinadores.

A esquizofrenia típica das análises, que só se baseiam também em resultados, indica agora que o Corinthians provou que dinheiro não traz felicidade. Pronto e fim. A indireta é na verdade uma direta para espinafrar o modelo perdulário do Palmeiras. A verdade definitiva da temporada fica ainda mais bonita na moldura, já que ambos são arquirrivais históricos e começaram a temporada em extremos opostos. Tal qual um roteiro de sessão da tarde morna, o time #quartaforça do professor novato se une contra tudo e contra todos, desafia os rivais ricos e reforçados e tem um ano formidável. The end. Desculpem-me aqueles que romanticamente se encantam por esse conto da carochinha, mas a poesia do futebol é muito mais literatura do que cinema.

Em Homens Imprudentemente Poéticos, livro fascinante do português Valter Hugo Mãe, é contada a história de dois vizinhos cuja inimizade avança e recua na mesma medida que varia o ódio e o encanto que cada um sente pelo outro. A história é ambientada no Japão, mas poderia ser no Bom Retiro, bairro paulistano da zona central que viu nascer a rivalidade encantada entre alvinegros e alviverdes.

Sem pestanejar, o técnico apontado como o melhor do Brasileiro, Fábio Carille, coloca os jogos contra o Palmeiras como os cruciais para a temporada inacreditavelmente vitoriosa de um Corinthians que começou o ano tropeçando na política interna (processo de impeachment contra seu presidente), nas trapalhadas de seus dirigentes (alguém aí se esqueceu que antes de Kazim, improvável herói do heptacampeonato, o clube se envolveu na novela Drogba?) e na total falta de recursos para se reforçar. Já as três derrotas nos três confrontos no centenário do dérbi foram marcantes para a depressão exagerada do lado dos pobres meninos verdes e ricos. Acredito, entretanto, que a poesia deste clássico ultrapassa os resultados.

Parafraseando Valter Hugo Mãe, interessa-me, também no futebol, entender as personalidades, os modos de ser. O ano vai acabar e mal sabemos quem são os 11 titulares do milionário Palmeiras. A verdade (definitiva) é que em 2017 o Corinthians se reconheceu. Doce mistério da vida o futebol.

EMPURRÕES

O soco do zagueiro Rhodolfo e o gesto obsceno do atacante Felipe Vizeu no último domingo estão sendo usados como motivação no Flamengo para o jogo desta quinta-feira no Maracanã, pela semifinal da Copa Sul-Americana, contra o Junior Barranquilla. Aparentemente demonstrou que o time “tem sangue na veia”. Infelizmente estou escrevendo isso.

ESPERTEZA

Em que pese a falta de regulamentação sobre a invasão de privacidade no futebol, aguardo sentada os técnicos se manifestarem sobre a esperteza do treinador gremista, Renato Gaúcho. E haja gente (imprensa incluída) pedindo drone para o Papai Noel agora!

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