Nilton Fukuda/Estadão
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Incoerência na decisão da Prefeitura e governo de segurar os treinamentos na capital paulista

Não faz sentido a cidade de São Paulo retomar parte das atividades comerciais, como reabertura de shoppings centers, por exemplo, e deixar outras fora de sua lista

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 05h00

Não entendi o pé no freio da prefeitura de São Paulo, e também do governo estadual, ao não liberar a volta das atividades esportivas nos centros de treinamentos dos times paulistas. Era para a retomada começar hoje, mas até ontem não se sabia ao certo se começaria, o que, de certa forma, provoca mais confusão e desinformação. O jogador, maior interessado nisso, precisa de tempo para se programar, tomar os cuidados necessários nesses novos tempos com a pandemia da covid-19. Não faz sentido o prefeito e o governador abrirem o comércio público na cidade e os shoppings centers e não permitir que os clubes retomem parte de suas rotinas. A não ser, e isso não foi dito, que órgãos competentes de saúde do Estado tenham reprovado a cartilha de conduta do futebol apresentada pela Federação Paulista. Até onde todos foram informados, não havia reparos no documento, com suas orientações de segurança e higienização após encontro de um time de médicos especialistas.

A CBF deixou a decisão para cada um das suas federações, que repassaram a incumbência para as secretarias de saúde, de modo a verificar que a volta do futebol obedeceria condições de seus Estados no combate à pandemia. No Rio Grande do Sul, por exemplo, onde a doença é mais bem controlada e há números baixos de mortes e contaminados, as atividades esportivas foram liberadas sem sobressaltos. Até anteontem, eram 344 mortes no Estado. Inter e Grêmio treinam há semanas.

Talvez haja uma preocupação em São Paulo que também não foi dita sobre a volta do futebol: o temor das aglomerações dos torcedores. Vai ser muito difícil controlar as reuniões de torcida e encontros nos bares ou nas ruas.

As imediações do Estádio do Palmeiras é ponto de aglomeração dos torcedores do time. Os bares fervem e muita resenha é feita entre amigos por lá. Em dia de jogo, as ruas próximas fecham e o local é liberado para quem quiser. Não há hora para acabar a confraternização. Ontem, aquele tradicional “varal” com camisas e bandeiras do time voltou a ser estendido no lugar de sempre, o trânsito estava mais carregado e algumas loja tinham suas portas levantadas para a venda de produtos. Ou seja: o comércio no futebol dá passos de abertura mesmo com a recusa da prefeitura de liberar os treinamentos.

Não tenho dúvidas de que a tendências nos próximos dias é mais aglomeração com a nova vida sendo retomada. O mesmo deve acontecer em locais tradicionais de encontro de torcedores de outras equipes de São Paulo.

Voltar com as partidas ainda parece decisão longe da realidade brasileira. E assim tem de ser. Nesta semana, vimos que a bola voltou a rolar em países como Espanha e Itália de modo frio e sem empolgação, mesmo dentro de campo. A alegria do futebol será recuperada a passos lentos. As disputadas estão mais voltadas para a recuperação financeiras dos clubes e dos trabalhadores indiretos da área do que propriamente paras as conquistas de títulos. Será importante vencer, mas já não é a primeira opção para muitos nesse momento de sofrimento. O futebol deve ser visto como uma forma de amenizar tanta dor em lugares que ainda precisarão de tempo para se reerguer. O Brasil é um desses lugares, embora estejamos longe da desaceleração do coronavírus. Muitas lágrimas foram derramadas.

O futebol aquece o mercado, dá emprego e faz o dinheiro girar. Os atletas podem ser importantes para “educar” torcedores sobre a necessidade do isolamento social e proteção nos locais públicos e ambientes de trabalho. Não faz sentido a cidade retomar parte de suas atividades e deixar outras, de menores riscos, fora da lista. A coerência deve primar, principalmente quando decisões precisam ser tomadas em meio a um País totalmente desigual.

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