Felipe Rau
Felipe Rau

Índios ainda têm esperança de jogar a Copa São Paulo

Integrantes das tribos Ticuma e Cocama, trazidos pelo Grêmio Osasco para São Paulo, entregaram documentos incompletos

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

17 de dezembro de 2014 | 07h00

Inspirado por um projeto social que desenvolve em São Paulo e no Amazonas, o Grêmio Osasco decidiu montar uma equipe indígena para disputar a Copa São Paulo de Juniores. Esbarrou, no entanto, nas diferenças entre a vida na cidade e nas reservas indígenas.

Antes da inscrição, os diretores descobriram que a maioria dos índios das tribos Ticuna e Cocama não possui documentos como RG, certidão de nascimento e histórico escolar. Esses papéis não fazem parte da realidade dos povos que habitam o lado mais alto do mapa do Amazonas, lá perto da fronteira com a Colômbia e o Peru, para onde o Grêmio Osasco enviou profissionais para oferecer oportunidades de trabalho relacionadas ao futebol. Os dirigentes correram contra a burocracia, pediram autorização para a Fundação Nacional do Índio (Funai), mas não conseguiram cumprir o prazo final de inscrição, dia 25 de novembro.

Uma vez, quando precisavam mandar um e-mail, o gerador da aldeia, que funciona uma vez por dia, pifou. E só voltou três dias. Com isso, entregaram os documentos incompletos. Argumentaram junto à Federação Paulista de Futebol, organizadora do torneio, sobre o ineditismo do projeto, o sonho dos índios de calçarem uma chuteira, mas o órgão foi irredutível. A menos que haja uma reviravolta sem precedentes na história de 46 anos do torneio, o sonho do time indígena atuar na cidade mais importante do País ficou para o ano que vem. 

 

Mesmo com chances mínimas de participar da Copa São Paulo, um grupo de 28 indígenas, entre eles, um intérprete para ajudar cinco índios que não falam português, veio para São Paulo. Eles estão alojados no próprio CT do clube que disputa a Série A-3 do Campeonato Paulista. Treinam, fazem três refeições diárias e dormem lá. Estão se adaptando e a história da chuteira não é exagero: alguns estão com bolhas nos pés por causa do calçado inusitado para eles. 

Participam de vários jogos-treino: venceram a equipe sub-20 do Nacional, campeão da quarta divisão do futebol paulista, por 2 a 0, e empataram por 1 a 1 com o sub-23 do Tênis Clube de Alphaville. Estão tentando enfrentar o sub-20 da Ponte Preta, São Paulo, Corinthians, Palmeiras, as mesmas da Copa São Paulo. Um compromisso grandioso está confirmado: farão uma das preliminares do Jogo das Estrelas, 27 de dezembro, no Maracanã. 

Paralelamente, são turistas. Ficaram encantados com a decoração de Natal da Avenida Paulista, viram o mar pela primeira vez no Guarujá e ontem assistiram ao jogo de vôlei entre Molico e Sesi, em Osasco. Na semana que vem, vão até o Museu do Futebol e ao cinema, para assistir a um filme 3D. Eles têm uma agenda cheia até o dia 16 de janeiro, quando voltam para Belém do Solimões e Tabatinga. “Gostei da praia. Nunca tinha visto. É uma coisa que dá emoção”, disse o meia Natanael Soares, o Boca, de 17 anos. 

 

Mas os índios vieram aqui para jogar e, nesse aspecto, a viagem também tem sido proveitosa. “Três ou quatro atletas estão sendo observados com mais cuidados”, diz o coordenador de futebol do clube Luiz Eduardo Cortilazzi. Isso significa que uma pequena parte do grupo pode continuar em São Paulo e participar da pré-temporada com o Grêmio Osasco. “Se precisar ficar longe para ajudar minha família, eu fico”, diz Natanael. Nei Teixeira, diretor de Relações Institucionais, afirma que o projeto tem cumprido seus objetivos. “Além do alcance social, o projeto também está descobrindo alguns talentos que podem ser aproveitados no futebol.” 

O Grêmio Osasco foi lá longe porque o fundador e um dos principais investidores do clube, Mário Teixeira, decidiu começar a procurar talentos nas regiões mais pobres do País. Lá, o banco do qual é conselheiro leva serviços para comunidades distantes – foi aí que Tabatinga e Belém dos Solimões entraram no radar. “Lá é tudo diferente. Não tem nada igual. Não tem estrada, tem rio. Acho que a única coisa igual é o futebol. Ele é o mesmo em todo o canto”, diz Natanael.

 

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