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Institutos europeus concluem: Brasil 'perdeu' com Copa 2014

Pesquisa publicada nesta sexta indica que 'brasileiro pagou preço alto' pelo Mundial, enquanto a Fifa teve lucro recorde com evento

Jamil Chade - Correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2014 | 07h19

Três meses depois do final da Copa do Mundo, um estudo encomendado por entidades europeias alerta que o Brasil "perdeu o Mundial" também fora de campo. Um levantamento realizado pela instituição suíça Solidar, em parceria com a entidade alemã Institut Heinrich Böll concluiu que cidades-sedes aumentaram suas dívidas e o Estado foi obrigado a arcar com parte importante dos custos do Mundial, enquanto a Fifa deixou o País com lucro recorde e sem pagar impostos.

Em novembro, a Fifa voltará ao Brasil para uma reunião para avaliar o impacto da Copa. Se não existe dúvida de que, em campo, o Mundial foi um sucesso, a avaliação sobre o impacto para o País divide opiniões entre especialistas e governo, que destaca o fluxo de torcedores e o resultado positivo para a imagem do País. Para membros da Fifa, o impacto real da Copa no Brasil apenas será conhecido em um prazo de cinco anos.

Mas essa não é a avaliação das entidades sociais europeias. "O apito final foi dado há três meses. Mas foi o Brasil quem perdeu", alertou a Solidar, entidade com 70 anos e que trabalha no campo do desenvolvimento social. "Os brasileiros pagaram um preço alto pela Copa", informou a entidade. "Foi o Mundial mais caro de todos os tempos - US$ 13,3 bilhões - aproximadamente R$ 33 bilhões - e afetado por violações de direitos humanos", indicou.

Segundo a instituição, as promessas eram ambiciosas: criar novos empregos e investimentos em infraestrutura. "Mas a realidade é outra. Apenas empregos temporários foram criados no setor da construção e turismo", afirmou. De acordo com o levantamento, os investimentos do setor privado não conseguiram atender aos projetos inicialmente propostos, principalmente no setor de transporte. O resultado foi "uma redução dramática" no número de iniciativas. "Vários projetos de construção foram anulados - especialmente um terço dos projetos de transporte público previstos - ou ficaram para depois da Copa."

O documento também mostra que o endividamento das cidades-sede chegou a aumentar em 51%. Mesmo cidades que não receberam jogos tiveram um aumento da dívida de 20%. No que se refere aos estádios, a constatação do levantamento é de que o preço médio das arenas ficou duas vezes superior aos estádios da Alemanha em 2006 e África do Sul em 2010. Por assento, a Copa custou em média R$ 15,41 mil no Brasil. Na Alemanha, ela saiu por R$ 8,95 mil e R$ 8,2 mil na África do Sul.

O estudo também acusa os organizadores de terem erguido quatro "Elefantes brancos". "São estádios super-dimensionados e praticamente inutilizados". O impacto sobre os vendedores ambulantes teria sido importante. Dos 350 mil vendedores nas 12 cidades que acolheram jogos, apenas 4 mil deles puderam trabalhar nas redondezas das arenas. "Os mais pobres no Brasil perderam sua fonte de renda", alertou. O estudo também estima que 250 mil pessoas em todo o País foram desalojadas durante sete anos de obras, "frequentemente sem compensação".

Outro aspecto foi a "repressão contra manifestantes". "A militarização fez parte das tristes consequências deste Mundial", disse.

FIFA

Diante de um "resultado desastroso", as entidades querem que a Fifa modifique a forma de organizar os torneios no futuro. "A Fifa obteve um lucro recorde e solicitamos à entidade de assumir no futuro de forma séria suas responsabilidades na qualidade de instituição organizadora", declarou.

Segundo o levantamento, a Fifa teria uma renda recorde que poderá variar entre R$ 10 bilhões e R$ 12,5 bilhões por causa do Mundial. Os lucros seriam de cerca de R$ 7,5 bilhões. "É escandaloso que a Fifa consiga fazer com que os custos sejam assumidos pelo estado brasileiro, mas que mantenha os lucros", declarou Joachim Merz, representante da Solidar Suisse. Para ele, em futuros Mundiais, a Fifa precisa exigir que os países se "comprometam e respeitar os direitos humanos, as normas internacionais de trabalho, acabar com privilégios fiscais e considerar os trabalhadores do setor informal".

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