Peter Powell/Reuters
Peter Powell/Reuters

'Inteligentes' ou 'fortes': estudo revela preconceito nas transmissões de futebol

Protestos deixaram claro que, para os jogadores, o futebol não é imune ao tipo de desigualdade sistêmica que levou milhões de pessoas às ruas

Rory Smith, The New York Times

02 de julho de 2020 | 05h00

Faz duas semanas que os jogadores da Premier League têm se ajoelhado antes das partidas, demonstrando a milhões de espectadores em todo o mundo seu apoio ao movimento Black Lives Matter. Seus colegas da Bundesliga (liga alemã) fizeram o mesmo. Na Espanha, na Itália e nos Estados Unidos, os jogadores vêm seguindo esse exemplo. Os protestos deixaram claro que, para os jogadores, o futebol não é imune ao tipo de desigualdade sistêmica que levou milhões de pessoas às ruas. Na segunda feira, um estudo questionou outro aspecto do futebol que, aparentemente, revela uma desigualdade no tratamento.

De acordo com pesquisas realizadas pela RunRepeat e publicadas pela Associação de Jogadores Profissionais de Futebol (PFA), sindicato que representa os atletas na Inglaterra e no País de Gales, a diferença no vocabulário usado pelos narradores europeus para descrever jogadores brancos e negros é grande.

Documentando um problema do qual os jogadores há muito tempo se queixam, os pesquisadores descobriram que os narradores e comentaristas das partidas transmitidas apresentam probabilidade muito maior de elogiar jogadores brancos por sua inteligência, capacidade de liderança e versatilidade, e também probabilidade substancialmente maior de criticar jogadores negros pela suposta falta desses atributos.

Em vez disso, o estudo revelou que os jogadores negros tendem a ser elogiados por suas qualidades físicas: aquilo que Romelu Lukaku, atacante da Inter de Milão, apontou como “elemento de ritmo e potência". É quatro vezes maior a probabilidade de os jogadores negros serem alvo de comentários dizendo respeito à sua força, e sete vezes maior a de serem elogiados por sua velocidade. 

Essas não são as únicas diferenças. De acordo com o estudo, é maior a probabilidade de jogadores brancos serem elogiados por sua admirável ética de trabalho. Por mais estelar que seja, o desempenho dos jogadores negros costuma ser atribuído à boa forma do atleta.

“Os narradores ajudam a moldar nossa percepção de cada jogador, aprofundando preconceitos raciais que o espectador já tem", disse Jason Lee, diretor de ensino de igualdade da PFA. “É importante pensar no quanto essas percepções podem chegar longe e no seu impacto para os atletas, mesmo depois de encerrada a carreira no campo. Se um jogador sonha em se tornar técnico ou gerente de futebol um dia, não seria injusto descrever regularmente um grupo deles como inteligente e trabalhador, quando essa opinião parece produto do preconceito racial?”

O estudo da PFA examinou mais de dois mil comentários de narradores, envolvendo 643 jogadores e 80 partidas diferentes — na temporada atual da primeira divisão dos campeonatos italiano, espanhol, inglês e francês. Esse não é o primeiro estudo do tipo. Os acadêmicos James Rada e Tim Wulfemeyer analisaram o vocabulário descritivo de acordo com a raça em um estudo de 2005 investigando as transmissões de esportes universitários na TV americana.

"Retratar os americanos negros como naturalmente atléticos ou dotados de um atletismo fruto da providência divina é algo que exacerba o estereótipo", escreveram eles, “criando a impressão de um atleta preguiçoso, que não precisa trabalhar para se aperfeiçoar". O estudo da PFA descobriu que, ao analisar os acontecimentos de uma partida — a precisão de um chute ou passe, por exemplo — os narradores distribuem críticas e elogios igualmente entre os jogadores brancos e os demais: a conclusão é que o preconceito não se manifesta na análise factual.

Mas o preconceito já pode ser sentido quando os comentários falam dos jogadores em termos mais gerais. Como descobriram Rada e Wulfmeyer, o estereótipo do “cérebro versus vigor” se manteve, mesmo no debate do futebol de elite em 2020. Jogadores brancos são mais elogiados e jogadores negros são mais criticados quando o assunto é sua qualidade e capacidade de adaptação a diferentes posições, e os jogadores negros são destacados por seus atributos físicos, e não pelos atributos mentais.

Os jogadores percebem essas tendências. Entre outros, o atacante Raheem Sterling, do Manchester City, falou a respeito da necessidade de garantir mais representatividade para jogadores negros em cargos administrativos e executivos. Mas eles também sabem como são retratados nas transmissões. “Quando me comparam a outros atacantes, nunca falam na minha habilidade", disse Lukaku em entrevista ao New York Times no ano passado. “Meu drible individual é bom. Sei fintar. Sei deixar o marcador para trás. Lembro do comentário de um jornalista para quem o United não deveria contratar Lukaku por não se tratar de um jogador ‘inteligente’.”

Os esforços para chamar atenção para as desigualdades de tratamento se intensificaram nas semanas transcorridas desde o retorno do futebol aos estádios europeus após a suspensão por causa do coronavírus. Atletas na Alemanha, nos EUA e em outros países prestaram homenagem a George Floyd, negro morto sob custódia policial em Minnesota no mês passado, e um grupo de capitães da Premier League esteve à frente de uma iniciativa que levou todos os jogadores a se ajoelharem antes das partidas, usando camisetas com “Black Lives Matter” no lugar em que estariam seus nomes.

Na segunda feira, a PFA, a Premier League e a English Football League (organiza as segunda, terceira e quarta divisões da Inglaterra)l anunciaram um novo programa para aumentar o número de jogadores negros, asiáticos e de minorias étnicas que evoluem para a carreira de técnicos. De acordo com levantamento recente realizado pela BBC, apenas seis dos 92 técnicos dos times das quatro primeiras divisões inglesas não são brancos.

“A PFA tem orgulho de apoiar a diversidade de participação no gramado", disse o diretor executivo da organização, Gordon Taylor, “e estamos determinados a garantir que isso se aplique também a uma representatividade substancial dos não brancos em todas as demais áreas do esporte”. / Tradução de Augusto Calil

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