Fabio Motta/Estadão
Inter cai pela primeira vez à Série B Fabio Motta/Estadão

Internacional vai do topo do mundo ao abismo em dez anos

Relembre momentos marcantes vividos pelo clube gaúcho

Marcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2016 | 19h45

Primeiro clube a conquistar o tricampeonato brasileiro, nos anos 1970, e campeão mundial há dez anos, Internacional fracassa no Brasileirão e vai disputar a Série B pela primeira vez na história. O rebaixamento foi sacramentado após o empate neste domingo com o Fluminense, por 1 a 1, no Estádio Giulite Coutinho, em Mesquita.

Relembre momentos marcantes vividos pelo clube gaúcho na última década:

2006 - O maior ano da história do Inter

Há dez anos, o Internacional viveu seu apogeu. De volta a Libertadores após 13 temporadas sem participar do torneio continental, o clube gaúcho teve a sua temporada mais gloriosa. Em agosto, o Inter conquistou sua primeira Libertadores da América. Na final, venceu o São Paulo por 2 a 1 no Morumbi e empatou em 2 a 2 no Beira-Rio. Fernandão, morto em acidente de helicóptero em 2014, foi o artilheiro da competição, com cinco gols.

Mas a maior glória da história do clube viria quatro meses mais tarde. O título da América credenciou o Inter para disputar o Mundial de Clubes da Fifa, no Japão. Após vencer o Al-Ahly por 2 a 1 na semifinal, o time fez a grande final diante do Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, à época o melhor jogador do mundo. Adriano Gabiru marcou o gol da vitória por 1 a 0 em Yokohama. O mundo foi pintado de vermelho, e uma dupla de dirigentes entrou para a história colorada: Fernando Carvalho, que encerrava seu segundo mandato como presidente, e Vitório Piffero, vice de futebol e recém-eleito para presidir o clube no biênio seguinte.

2007 - Ressaca, tropeços e a primeira Recopa

A ressaca pós-Mundial pegou o Inter, que fez fiasco no Campeonato Gaúcho e na Libertadores. O time, último a voltar das férias e a iniciar a pré-temporada, disputou o estadual no modo automático e acabou eliminado ainda na primeira fase - ficou em quarto lugar em seu grupo, quando apenas os três primeiros se classificavam. Na competição continental, também foi eliminado na primeira fase, algo inédito para um time que defendia o título.

A redenção veio no meio do ano. Campeão da América no ano anterior, o Inter disputou a Recopa Sul-Americana diante do Pachuca, do México, que conquistara a Copa Sul-Americana de 2006. Na final, derrota brasileira por 2 a 1 no México, e goleada colorada por 4 a 0 no Beira-Rio.

2008 - "Campeão de Tudo"

Os três títulos internacionais em três competições seguidas fez o clube disputar a temporada de 2008 com uma coroa sobre o escudo na camiseta - a "tríplice coroa" era algo inédito. E a temporada que se seguiu reservou mais um título continental: o da Copa Sul-Americana, que pela primeira vez acabou conquistada por um clube brasileiro.

A campanha não foi de encher os olhos, mas os adversários deixados para trás até a decisão animaram a torcida colorada. O Inter eliminou o maior rival, o Grêmio, na primeira fase, e o Boca Juniors, algoz colorado em duas ocasiões, nas quartas. Na decisão, o clube gaúcho superou o Estudiantes, da Argentina. O título, o último que faltava na sala de troféus do Beira-Rio, fez o Inter se declarar "Campeão de Tudo".

2009 - Dois vices nacionais

Mesmo que o biênio anterior tenha registrado alguns fracassos, as conquistas da Recopa e da Sul-Americana fizeram Vitório Piffero ser reeleito para mais dois anos à frente do clube.

O ano de 2009 não foi de grandes conquistas para o Internacional, mas mais uma vez elas vieram. O time perdeu a Recopa Sul-Americana com duas derrotas para a LDU, do Equador, e sucumbiu diante do Corinthians na final da Copa do Brasil. Por outro lado, conquistou a Copa Suruga Bank, no Japão, torneio que reunia o campeão sul-americano e o campeão japonês do ano anterior, o Oita Trinita. Disputada em jogo único no Japão, a partida foi vencida pelo Inter por 2 a 1. O clube também conquistou o estadual daquele ano.

Ainda em 2009, o Internacional disputou o título brasileiro até a última rodada, mas o troféu acabou ficando com o Flamengo. O vice-campeonato, porém, deu ao time o direito de disputar novamente a Libertadores da América.

2010 - Bicampeão da América e fiasco no Mundial

A temporada de 2010 devolveu o Inter ao topo da América. O segundo título da Copa Libertadores da América veio aos trancos e barrancos. Sob o comando do uruguaio Jorge Fossati, o Internacional foi avançando na competição alternando vitórias e derrotas.

A competição teve uma parada de mais de 40 dias entre as quartas e as semifinais devido à Copa do Mundo na África do Sul. E o vice de futebol da época, Fernando Carvalho, decidiu mudar o comando técnico nesse período: ele demitiu Fossati e contratou Celso Roth.

O retorno de Celso Roth ao time, oito anos após ter sido demitido pelo próprio Carvalho por quase rebaixar o Inter em 2002, foi definido pelo cartola como "a chance de concluir um trabalho". Roth concluiu da maneira que se esperava: eliminou o São Paulo nas semifinais da Libertadores, e levou o time a duas vitórias na final diante do Chivas, do México.

O bicampeonato da América credenciou o time para mais um Mundial de Clubes da Fifa, dessa vez em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. A expectativa de conquistar o mundo pela segunda vez era grande, já que o adversário da provável final seria a instável Internazionale, de Milão.

O Inter de Roth deixou o Brasileirão de lado - disputou o restante da competição alternando a equipe, para "preservar" os titulares. O problema é que a estratégia tirou ritmo de jogo do time e desmotivou o elenco.

Na semifinal do Mundial, o Inter enfrentou o Mazembe, da República Democrática do Congo. Apático, perdeu por 2 a 0 e ficou de fora da decisão. Foi a primeira vez na história que o Mundial de Clubes não foi decidido por um time sul-americano.

2011 - 2016 - O último título internacional e o hexa gaúcho

Giovanni Luigi assumiu como presidente do clube em janeiro de 2011 - acabaria reeleito e ficaria na presidência até o fim de 2014, quando Vitório Piffero voltaria a comandar o Internacional.

O time seguiu conquistando pelo menos um título por ano, mas a importância dos troféus foi diminuindo. Em 2011, o clube conquistou sua segunda Recopa Sul-Americana ao derrotar o Independiente por 3 a 1 no Beira-Rio - no jogo de ida, derrota por 2 a 1 na Argentina.

Naquele mesmo ano, o Inter venceu o campeonato gaúcho e começou uma série de seis conquistas seguidas. O hexa veio este ano, com duas vitórias na decisão sobre o Juventude.

Em nível nacional e internacional, porém, o clube gaúcho conseguiu pouco destaque. No Brasileirão de 2013, chegou à última rodada com um pequeno risco de queda. À época, a diretoria creditou o desempenho ruim ao fato de ter mandado todos os seus jogos fora do Beira-Rio, que estava sendo reformado em virtude da Copa do Mundo de 2014.

No período, o time ainda disputou três vezes a Libertadores da América. Em 2011 e 2012, parou nas oitavas de final, e no ano passado foi até à semi, quando acabou eliminado pelo Tigres, do México.

Sem conseguir vaga na competição continental deste ano, o clube praticamente não reforçou o time em relação à temporada passada. De quebra, emprestou o principal jogador do time, o argentino Andrés D'Alessandro, ao River Plate. Entrou na disputa do Brasileirão sob desconfiança da torcida e da imprensa especializada, algo que há muito não acontecia. A desconfiança se confirmou.

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Cinco erros que levaram o Internacional ao rebaixamento

Time teve quatro técnicos do Brasileirão, com estilos de jogo diferentes

Marcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2016 | 19h53

O dia 11 de dezembro de 2016 ficará marcado como o mais triste da história do Internacional. O empate com o Fluminense por 1 a 1, no Estádio Giulite Coutinho, em Mesquita, pela última rodada do Campeonato Brasileiro, decretou o rebaixamento do time gaúcho para a Série B. A queda foi resultado de uma série de falhas ao longo da temporada. 

Confira os cinco erros decisivos para a derrocada em 2016:

EMPRÉSTIMO DE D'ALESSANDRO

Maior expoente técnico do time desde 2008 e principal liderança do time, o argentino Andrés D'Alessandro foi emprestado ao River Plate no início do ano. A relação do jogador com a diretoria colorada estava desgastada, e eram comuns declarações públicas divergentes.

Sem D'Alessandro, o Inter perdeu seu capitão e a torcida ficou órfã de um ídolo em campo. Do goleiro ao atacante, não se via um único jogador diferenciado ou capaz de chamar a responsabilidade em momentos cruciais. O Inter disputou o Brasileirão pela primeira vez em mais de uma década com um time comum.

ELENCO COMUM

Desde 2006, praticamente todos os anos o Internacional foi apontado como um dos favoritos ao título do Brasileirão - algo que nunca se confirmou. Este ano, ninguém acreditava nessa possibilidade. Bastava ver o elenco. À exceção da contrata do goleiro Danilo Fernandes - que acabou se confirmando como acertada -, e de nomes como os jovens William, Rodrigo Dourado, Valdívia e Vitinho, o time do Inter era formado por jogadores medianos ou decadentes. Anderson, que teve passagem pelo Manchester United e até pela seleção brasileira, nunca conseguiu demonstrar bom futebol no clube. A dupla de zaga titular, Paulão e Ernando, não passava a menor confiança. No meio campo, não havia um armador. No ataque, só havia um finalizador nato (Vitinho). Provavelmente nenhum torcedor do Inter, em nenhum momento da competição, soube escalar o time de cabeça.

DEPARTAMENTO DE FUTEBOL SEM RUMO

Vitório Piffero começou a temporada com uma diretoria de futebol inexperiente. Escolheu para o cargo de vice de futebol o amigo Carlos Pellegrini, que antes era diretor daquele departamento. Sem estofo para o cargo e com maus resultados de campo, Pellegrini logo ficou na mira da torcida. Após a derrota para o Corinthians em casa, no primeiro turno, o vice deixou o cargo e Piffero acumulou a função que havia tido sucesso dez anos atrás. Dessa vez, falhou.

A "SWAT" COLORADA

Com a zona de rebaixamento aparecendo no retrovisor, o Inter mudou todo o departamento de futebol em agosto. Dirigente mais vitorioso da história do clube e amigo de Vitório Piffero, Fernando Carvalho aceitou os apelos do cartola e voltou ao clube. Ao assumir, apresentou o que chamou de "swat colorada": apresentou Newton Drummond, o Chumbinho, como diretor-executivo de futebol - cargo que já ocupara em momentos vitoriosos da última década -, e Ibsen Pinheiro como diretor do departamento - o ex-deputado fora dirigente vitorioso nos anos 1970. A "swat" também contava com a solução para devolver o time ao convívio das vitórias: o técnico Celso Roth.

TROCA DE TÉCNICOS

O Inter cometeu um dos erros clássicos de um time fadado a afundar: a troca constante de treinadores. O time teve quatro técnicos do Brasileirão, cada um com um estilo de jogo diferente - e dois deles mal tiveram tempo de demonstrar isso.

A equipe começou a temporada comandada por Argel Fucks, contratado em agosto do ano passado. Pragmático, disse certa vez que preferia "ganhar por 1 a 0 do que por 2 a 1, porque isso significava que meu time não sofreu gol". O resultado foi um time com vocação defensiva, que marcava forte, fazia muitas faltas e buscava a vitória em contra-ataques. Começou o Brasileirão com bons resultados, mas emendou seis jogos sem vitória e foi demitido, com aproveitamento de 47,6 % na competição.

O substituto escolhido foi um dos maiores ídolos da história do clube, Paulo Roberto Falcão. Estava sem clube desde o início da temporada e sem ainda ter conquistado um título de expressão como treinador. Na apresentação, disse que seu objetivo era "fazer o time ganhar jogando bonito". Mas, em cinco jogos, o Inter de Falcão conseguiu apenas dois empates - um aproveitamento pífio, de 13,33%.

Celso Roth veio na sequência. Em sua apresentação, Roth lembrou que havia todo o returno pela frente e que a pontuação do Inter no campeonato, apesar de difícil, era "absolutamente administrável". Ele assumiu o time na 13.ª colocação e comandou a equipe por 22 partidas. Mesmo sendo o técnico que mais ficou à frente do time no Brasileirão, não conseguiu dar padrão de jogo e nem sequer formar um time titular. De quebra, arrumou briga com a torcida por relegar jogadores considerados importantes - deixou o venezuelano Seijas, um dos jogadores mais técnicos do time, na reserva, deu pouco espaço para Valdívia e raramente escalva Nico López, que acabaria lesionado e afastado. Deixou o time a três rodadas do fim, com 36% de aproveitamento.

Por fim, o Internacional apostou em Luiz Carlos de Lorenzi, o Lisca - que ganhou a alcunha de "Doido" pelo jeito efusivo com que comemora. O técnico assumiu o time já em situação delicada. Na estreia, perdeu para o Corinthians em Itaquera, vencendo o Cruzeiro em casa na sequência. Os resultados foram insuficientes para levar o Inter à última rodada, contra o Fluminense, dependendo apenas de suas forças.

 

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Rebaixado, Internacional terá de recuperar prestígio em 2017

Clube completará 108 anos e disputará a Série B pela primeira vez

Marcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2016 | 19h56

Em 2017, o Inter viverá uma situação inédita em sua história. O clube completará 108 anos em abril e disputará a Série B pela primeira vez. A maior perda será de prestígio, já que o clube era um dos últimos do País a nunca ter sido rebaixado à Série B - agora, somente Santos, Flamengo, São Paulo e Cruzeiro detêm esse feito.

Financeiramente, o Internacional deverá ter pouco prejuízo, e será de longe o de melhor poder econômico entre os times que disputarão a competição. Apenas o contrato com a Nike prevê diminuição de valores em caso de queda. Os contratos com a TV preveem estabilidade, e o clube tem um quadro social sólido.

Assim, é possível que o elenco na Série B seja muito próximo de um de Série A. Do time que sucumbiu em 2016, quase todos os jogadores tem contrato para a próxima temporada. Apenas Vitinho precisa de renovação. O time também poderá ter o retorno de D'Alessandro. Emprestado ao River Plate até o fim deste ano, ele tem vínculo com o Internacional até o fim de 2017.

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