Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Investigador pede demissão da Fifa após encerramento de caso

Michael Garcia acusa Blatter de não querer mudar 'cultura' da entidade após rejeição de denúncias de corrupção da Copa de 2022

JAMIL CHADE - Correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

17 de dezembro de 2014 | 15h29

A crise na Fifa não tem fim. Michael Garcia, o investigador que compilou 200 mil páginas de provas contra a Copa do Catar em 2022, pediu demissão de seu cargo na Fifa, nesta quarta-feira, ao ver que seus argumentos foram ignorados e que a entidade se recusa até mesmo a aceitar um recurso seu para reavaliar o caso.

Sua decisão é um terremoto para a entidade que, nos últimos meses, tentou passar uma imagem de que estava se reformando e julgando corruptos. Garcia deixou claro que a cúpula da Fifa não o permitia fazer esse trabalho.

Em um comunicado emitido nesta quarta, o norte-americano joga a Fifa em uma nova crise e abre mão até de um recurso na Corte Arbitral do Esporte (CAS, na sigla em inglês). Ele indica que perdeu esperanças de que seus argumentos sejam pelo menos considerados e que a Fifa de fato queira mudar sua cultura da corrupção. "Nenhum comitê independente, investigador ou painel de árbitros pode mudar a cultura de uma organização", acusou Garcia.

Há um mês, o juiz supostamente independente da Fifa, Hans Joaquim Eckert, declarou que não existiam provas suficientes para dizer que o Catar havia comprado a Copa, depois que Garcia realizou dois anos de investigações e produziu um informe detalhado sobre os incidentes de corrupção.

Revoltado com a decisão, Garcia decidiu entrar com um recurso depois de chamar as conclusões de "erradas e incompletas". Mas, na última terça-feira, o caso foi encerrado. O Comitê de Apelação da Fifa "concluiu que o recurso é inadmissível" e usou brechas legais para abafar o caso. Na prática, a Fifa blindou a Copa do Catar.

Garcia lamentou a decisão e preferiu abandonar a entidade. "Por dois anos desde 2012, senti que o Comitê de Ética da Fifa estava fazendo progressos. Mas, nos últimos meses, isso mudou", disse. Segundo ele, seu informe sobre o Catar "identificou sérios problemas com o processo de seleção das sedes", insinuando que, sim, houve corrupção.

Criticando Eckert por "omitir" partes de suas conclusões, Garcia também atacou o presidente da Fifa, Joseph Blatter, por ter dado declarações de que o processo de investigação estava concluído. "Parece que a decisão de Eckert será a palavra final sobre o processo de escolha da Copa de 2018", disse Garcia.

Segundo ele, a decisão do juiz da Fifa fez ele "perder a confiança" na independência do julgamento. Mas a maior crítica é dirigida contra Blatter. "É a falta de liderança sobre esses assuntos dentro da Fifa que me levam a concluir que meu papel nesse processo chegou ao fim", ressaltou.

TESTEMUNHAS

A Fifa também recusou aceitar um processo aberto por duas testemunhas que haviam prestado depoimento na investigação e acusam o processo de não terem considerado suas versões. As testemunhas acusam a Fifa de ter delatado seus nomes, ainda que elas tivessem dado as informações sob sigilo.

Phaedra Al Majid e Bonita Mersiades, que trabalharam para as candidaturas do Catar e da Austrália, foram aos tribunais, alertando que estão sendo alvo de perseguição. Em uma carta obtida pela reportagem do Estado com exclusividade, Phaedra atacava a Fifa por "premiar o silêncio" e admitia que havia presenciado corrupção no processo. 

Mas a Fifa afirmou na última terça-feira que não "existe base" para um procedimento. "Nenhum nome foi mencionado e nenhuma informação foi passada", explicou. A entidade também alega que foram as testemunhas quem foram aos jornais dar declarações, antes mesmo de o relatório ser produzido.

Sem credibilidade e escondendo cerca de 200 mil páginas do processo, a Fifa esperava que a decisão do mês passado encerrasse de uma vez por todas a crise na entidade. Mas Garcia e uma reação internacional fez o caso ganhar nova dimensão.

No informe, Eckert apenas cita a necessidade de punir alguns cartolas e fortalecer o processo de seleção a partir da Copa de 2026. Mas não haverá um novo voto para escolher uma nova sede e nem os organizadores do Catar ou Rússia serão punidos.

A Fifa confirma que empresários e cartolas do Catar de fato pagaram cerca de R$ 12 milhões para conseguir apoio. Mas o juiz não recomenda que haja um novo processo de seleção e a entidade não acredita que os incidentes são graves o suficiente para justificar tirar a Copa do país do Golfo Pérsico. "Assumir que envelopes cheios de dinheiro são dados em troca de votos é ingenuidade", escreveu o juiz. Segundo ele, as quebras nas regras do processo de seleção foram "muito limitadas em sua abrangência".

"A avaliação do processo de escolha das sedes está encerrada para o Comitê de Ética da Fifa", declarou. Segundo ele, as violações que ocorreram não foram suficientes para justificar um retorno ao voto "e muito menos reabrir os processos". Para Eckert, o processo foi "robusto e profissional".

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