Henrik Montgomery/Reuters
Henrik Montgomery/Reuters

'Iremos à Copa treinando em um campo de 60 metros', diz técnico do Irã

Com a seleção classificada para o Mundial da Rússia, treinador português lamenta falta de estrutura e exalta heroísmo dos jogadores

Entrevista com

Carlos Queiroz

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

24 de junho de 2017 | 07h00

Somente dois treinadores de seleções se sentem com o dever cumprido por ter garantido vaga na Copa do Mundo de 2018. Depois de Tite conduzir o Brasil à Rússia, o português Carlos Queiroz levou o Irã, invicto nas Eliminatórias, ao segundo Mundial consecutivo. De férias no Rio, o técnico conversou com o Estado por telefone e contou o quanto o Corinthians, ex-clube de Tite, ajudou os asiáticos na campanha.

Qual o segredo do resultado?

O segredo é muita persistência e também paciência. O Irã enfrenta sempre imensas dificuldades e obstáculos como parte financeira, infraestrutura, equipamentos. É preciso falar de uma curiosidade, que chamo de ‘Corinthians Connection’. Treinamos no clube para a Copa de 2014. Tivemos muito apoio. Curiosamente, quatro anos depois, Tite e Edu Gaspar formam a comissão técnica da primeira seleção a se classificar e a segunda foi o Irã. As duas primeiras seleções a se classificarem à Rússia formam essa conexão. No entanto, o que fundamenta esse sucesso é o talento e a entrega dos jogadores, sobretudo a grande paixão que o país tem pelo futebol. 

De que forma a vivência no Corinthians ajudou o Irã?

Nós tivemos a oportunidade de estar em uma casa de campeões. Todos os que estiveram por lá tentaram tirar o melhor proveito. A conexão com o clube está no ar. É um orgulho para o Corinthians e para o futebol brasileiro que as duas comissões técnicas que tiveram a honra de se classificar mais cedo para a Copa estavam baseadas neste clube. Diria que esse espírito de campeão é simbolizada por um jogador que tive a oportunidade de conhecer, o Sócrates. Eu o recebi no Manchester United uma vez e ele me confidenciou que tinha o sonho de jogar na Inglaterra.

Já são seis anos no comando do Irã. O que é o mais difícil?

Ser do mundo altamente profissionalizado e avançado em todos os capítulos, como Portugal e Real Madrid, onde trabalhei, todos os detalhes da alta competição estão consolidados e depois começar a trabalhar em um país emergente, em que as questões de base e de princípio, que são fundamentais, ainda estão por fazer...foi um desafio. Ao longo desses anos o Irã tem se preparado em um campo que só tem 60 metros de comprimento. Nós temos de combinar funções imaginativas e criativas para preparar o time. Como treinadores, nossa chave do sucesso se chama adaptação. O que temos feito é fazer estágios e treinos fora do Irã para ter condições melhores. Quando cheguei, há seis anos, a seleção tinha só um jogador fora, na Espanha. Hoje 45% da nossa seleção joga na Europa. 

Dá para resolver isso?

O Estado é quem quase que exclusivamente financia os esportes. Portanto, sem direitos de participação do setor privado, só com investimento do setor público, o esporte fica na dependência da vontade política e financeira do governo.  Se não existir, daqui quatro anos estará no mesmo patamar. Não há futuro sem investimento. Quando estávamos no Corinthians, foi de tal maneira o impacto que andei por uns dias com um despertador para acordar os jogadores. Eles pensavam que estavam sonhando. 

Qual o objetivo do Irã na Copa da Rússia?

O objetivo da seleção é passar da fase de grupos pela primeira vez. O Irã atingiu um patamar que já não é mais o que a seleção pode fazer pelo país, mas sim o que país pode fazer pela seleção. Nós atingimos um nível, em um grau de evolução que, agora, só com melhores infraestruturas e equipamentos iremos evoluir. Não está nas nossas mãos poder voar mais alto. Nós temos um limite. Se não tivermos bons jogos de preparação, com adversários competitivos, se não tivermos condições financeiras para termos acesso a campos de treino que nos permitam trabalhar, não será possível progredir mais. Temos um perigo na nossa frente, o da estagnação. 

A classificação invicta foi uma surpresa?

Eu tinha expectativa positiva. Tenho como objetivo, pela qualidade da equipe e pela preparação, chegar aos 24 pontos ao fim. Já estamos com 20, classificamos em primeiro lugar, o que é extraordinário. O mundo tem alguma dificuldade em dar uma avaliação correta do significado dessa classificação a duas rodadas do fim, porque não conhecem as dificuldades e os obstáculos que atravessamos. Temos muitos jogadores 20 a 22 anos. Eu os lancei aos poucos na seleção. Fazer oito jogos na fase final da classificação e não sofrer gol, é uma grande marca. 

Quais são os favoritos para a Copa?

Neste momento falar em favoritismo ainda é cedo. O próximo ano também será de muito desgaste. O calendário será mais pesado por causa da Copa obrigar os campeonatos a acabarem antes. Tudo vai depender de como os jogadores chegarão ao fim da temporada. Penso que a Copa das Confederações é uma ajuda enorme ao Brasil. Ao não ter que jogar, a carga de trabalho é menos intensa, os jogadores podem descansar. O Brasil está muito bem, pelo trabalho espetacular do Tite de restabelecer a ordem, posicionar naturalmente os jogadores. A maturidade do Neymar é decisiva, pois o Brasil precisava de uma nova grande estrela do futebol mundial. Portugal tem uma seleção competitiva muito forte. Podem até discutir a beleza, mas por vezes jogamos bonito demais e perdemos demais. Eu penso que neste momento a equipe está sólida e que domina bem a arte de saber ganhar jogos. 

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