Sátiro Sodré SSPress/Botafogo
Sátiro Sodré SSPress/Botafogo

Irmãos Moreira Salles querem modernizar gestão do Botafogo

Donos de uma das maiores fortunas do Brasil e apaixonados pelo Botafogo, João e Walther já bancam CT

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2018 | 04h30

Depois de emprestar R$ 25 milhões para o Botafogo erguer um Centro de Treinamento em Vargem Pequena, na zona oeste do Rio, os irmãos João e Walther Moreira Salles querem modernizar a gestão do clube para investir mais e atrair novos parceiros comerciais. Sócios do Itaú Unibanco e herdeiros de uma das maiores fortunas do País, eles vão contratar a consultoria Ernst & Young para realizar um diagnóstico do clube, cujo patrimônio maior está em sua história centenária no futebol, com craques como Garrincha.

O resultado deste trabalho, que será finalizado em março do ano que vem, vai definir como os Moreira Salles podem continuar contribuindo e atrair mais investidores. O Botafogo já aprovou o pedido de estudo. 

Apaixonados pelo Botafogo, os irmãos dizem enfaticamente que não têm a intenção de “comprar” o clube, como acontece com frequência no cenário europeu. Também não querem participar da gestão do futebol, de forma direta ou indireta. Eles acreditam que o modelo de controle e administração dos clubes, de maneira geral, precisa de uma nova forma de estruturação. Rejeitam a posição de eventuais “donos” do Botafogo, pois acreditam que o esporte é algo mais coletivo. 

Um das famílias mais poderosas do País, os Moreira Salles fizeram fortuna no setor bancário, mas expandiram o negócio para outras áreas. O patrimônio da família supera US$ 20 bilhões (R$ 77 bilhões), segundo a revista Forbes. Cada um dos irmãos – Pedro, Fernando, João e Walther – aparece com cerca de US$ 5 bilhões (R$ 19 bilhões), cifra que os coloca entre os dez mais ricos do Brasil. 

A fortuna tem origem no Unibanco, que se tornou um dos maiores do setor sob o comando do pai do quarteto, o banqueiro Walther Moreira Salles, morto em 2001. Os herdeiros acertaram, em 2008, a fusão do Unibanco com o Itaú, criando uma potência no segmento. Seguiram como sócios: Pedro é copresidente do conselho de administração do Itaú Unibanco e João, membro do colegiado.

Outra parte considerável da riqueza da família vem da exploração de nióbio, negócio no qual Walther Moreira Salles decidiu investir ainda na década de 1960. Hoje, a CBMM, empresa de mineração da família, é responsável pelo fornecimento da maior parte do nióbio do mundo, metal que é usado na produção de aço.

João e Walther têm atuação destacada no cenário cultural, mais exatamente no cinema brasileiro. Em 1987, eles fundaram a produtora Videofilmes, que se tornou importante na chamada retomada do cinema brasileiro. Walther dirigiu Central do Brasil, título que concorreu ao Oscar em duas categorias – não ganhou. João recebeu uma nomeação ao Grande Prêmio Cinema Brasil de melhor diretor por Entreatos, em 2004. Também é produtor e documentarista. 

O Instituto Moreira Salles, instituição cultural sem fins lucrativos, possui importantes patrimônios nas áreas de fotografia, música, literatura, iconografia e cinema. A revista Piauí, de grandes reportagens, também está nas mãos da família. 

No futebol, João e Walther são botafoguenses de coração. No ano passado, os irmãos já ofereceram uma ajuda efetiva. Emprestaram R$ 25 milhões para a construção do CT. O valor será ressarcido no prazo de 30 anos, em pagamentos mensais. 

O estudo atual, encomendado com a anuência do clube, deve definir novas maneiras de organização legal do Botafogo. Uma das opções é a criação de um clube-empresa, associação que busca lucro a partir dos esportes. Outra saída é a criação de uma fundação amparada por um fundo patrimonial. Dependerá do resultado do estudo.

Independentemente das opções apontadas pela consultoria, o Botafogo mudará sua forma de gestão. O negócio ainda precisará ser discutido pelo Conselho Deliberativo. Possivelmente, o estatuto também precisará ser alterado. O Botafogo poderá ter alterações na importância e na efetiva função de alguns cargos, por exemplo.

Se efetivada, a proposta não deverá ter dificuldade de aprovação em General Severiano. Diretores ouvidos pelo Estado veem com bons olhos a aproximação com os Moreira Salles. A parceria é vista como solução para os problemas financeiros do clube, que tem dívida em torno de R$ 700 milhões. 

Contribuição efetiva

Os irmãos João e Walther Salles já contribuem financeiramente com o Botafogo. No fim do ano passado, eles financiaram a compra do Centro de Treinamento em Vargem Pequena, na zona oeste do Rio. O negócio terá um custo total de R$ 25 milhões pagos pelos irmãos alvinegros. Os valores serão ressarcidos em um prazo de 30 anos em 360 parcelas corrigidas pelo IPC (Índice de Preços ao Consumidor). Do montante, R$ 20,3 milhões serão usados para adquirir o terreno e suas instalações. Os outros R$ 4,7 milhões são dirigidos para melhorias no local. São condições bastante vantajosas em relação àquelas praticadas pelo mercado financeiro – o clube não teria condições de fazer isso sozinho, sem a parceria. 

Em caso de inadimplência do Botafogo, os irmãos poderão romper o contrato, tomando de volta tudo o que foi pago ao clube com desconto de 10%. No acerto está previsto que 20% do valor dos jogadores da base que vierem a ser negociados será destinado aos financiadores para amortizar a dívida. Outra condição para a negociação é a construção de uma escola no local.

O complexo ainda está em obras. A expectativa é de início das atividades – treinos do time principal e das categorias de base – no ano que vem. No início de 2019, dois dos sete campos prometidos provavelmente estarão prontos – o projeto prevê três oficiais de grama natural para os profissionais, três semioficiais para a base e outro semioficial, que poderá ser sintético. 

Todo o processo foi iniciado em meados de julho de 2017, quando o conselho deliberativo aprovou a operação financeira. Desde o início, o objetivo do Botafogo era ter um CT que integrasse os meninos da base aos profissionais. O clube aposta na formação de talentos para superar a crise financeira. A venda do volante Matheus Fernandes para o Palmeiras por ¤ 3,5 milhões (R$ 15,5 milhões), por exemplo, vai garantir tranquilidade nas finanças do ano. 

A inauguração do local de treino é aguardada com expectativa por torcedores e atletas. Em 2016/2017, a preparação do time foi feita em Domingos Martins, região serrana do Espírito Santo. Neste ano, treinou no Estádio Nilton Santos. 

Clube-empresa

Em entrevista ao Estado, Darcio Genicolo Martins, professor do departamento de economia da PUC-SP e pesquisador em Economia do Futebol, analista os diferentes tipos de gestão dos clubes de futebol. 

1. Quais as características de um clube-empresa?  

Do ponto de vista jurídico, clube-empresa é um clube esportivo que, em vez de ser constituído como uma associação civil sem fins lucrativos, é uma empresa criada com o objetivo de lucro a partir da prática esportiva associada. Do ponto de vista de gestão, é uma empresa convencional, que pode definir seu estatuto e estrutura de governança. No Brasil, os clubes são associações sem fins lucrativos. A parte social e o futebol estão sob a mesma estrutura organizacional, o mesmo guarda-chuva. Com isso, há uma interferência política dos dirigentes da área social no futebol. Isso gera grande probabilidade de má gestão dos recursos. O clube-empresa separa o clube social da gestão do futebol. Com isso, o controle exercido pelos stakeholders (investidores, torcedores e controle externo) aumenta. 

2. Como se caracteriza uma fundação sem fins lucrativos com apoio de fundo patrimonial?

A inspiração dessa forma organizacional está ligado a ONGs e a universidades, principalmente nos Estados Unidos. Para funcionar, um ONG depende de doações externas, captações, entre outras coisas. Isso pode gerar instabilidade financeira e traz riscos ao funcionamento. Um fundo patrimonial serve para sustentar o funcionamento ONG. Para o investidor, existe um significado intangível. Em Harvard, por exemplo, o ex-aluno tem o sentimento de agradecimento e faz uma doação. Esse seria um modelo que poderia ser trazido para o mercado esportivo. 

3. Como funcionam os clubes-empresa no Brasil?

É um ecossistema bastante heterogêneo. Em geral, existe uma curva de aprendizagem, tentativa de erro. Mas o fato é que há algumas histórias de sucesso. Uma delas se verifica com o Ituano, no interior de São Paulo. O Atlético-PR vem se preparando para virar empresa e está na iminência de fazê-lo. O desafio desse modelo é alcançar os grandes clubes. 

3. Existem outras formas de gestão?

Nos anos 1990, nós tivemos a experiência Palmeiras/Parmalat, que era uma cogestão. Era uma empresa formada com integrantes do clube e da patrocinadora. Existe um caso de associação sem fins lucrativos que pertence à comunidade. Temos exemplos na NFL. É a ideia do sócio-torcedor levada ao extremo. Também temos os casos de terceirização da parte administrativa e do futebol. Ituano e Figueirense são alguns exemplos. Por fim, temos os casos de um grande investidor, como o Palmeiras com a Crefisa, que investe no marketing e na contratação de jogadores. Nesse modelo, é fundamental o bom relacionamento entre o clube e o investidor.

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