Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

ISE define valor dos ingressos e até quem fala na seleção

Empresa que organiza os amistosos do Brasil manda em quase tudo

Jamil Chade, correspondente do Estadão em Genebra, O Estado de S. Paulo

19 de maio de 2015 | 07h00

O preço dos ingressos dos jogos da seleção brasileira, mesmo no Brasil, não é determinado pela CBF. Isso é o que diz o contrato fechado entre a entidade e a ISE, a empresa de fachada nas Ilhas Cayman que obteve o direito de organizar os amistosos da seleção até o fim 2022.

A empresa, em troca de ficar com toda a renda de bilheteria, paga um valor fixo para a CBF, de cerca de US$ 1,05 milhão (R$ 3,1 milhões), além de outros US$ 2,1 milhões (R$ 6,3 milhões)pagos pela Pitch, a empresa que gerencia o jogo. Mas todas as decisões sobre valores e toda a renda da partida ficam para os parceiros comerciais.

No fim de semana, o Estado revelou os contratos confidenciais da CBF com a ISE. Pelo acordo, entre outros vários direitos, a ISE exige que qualquer substituição entre os jogadores do time tenha o “mesmo valor de marketing” do titular.

Mas o controle vai além. "A ISE é a única parte responsável pelos ingressos das partidas e outros eventos relacionados, e terá o direito exclusivo de vender ou oferecer os ingressos dessas partidas e eventos, de receber toda a renda vinda da venda de ingressos, de designar os lugares dos espectadores, de definir os preços dos ingressos e de realizar qualquer outro ato relacionado aos mesmos", indica o contrato.

Pelo contrato, a ISE "fornecerá à CBF cem ingressos para 'Categoria A', 30 ingressos 'VIP' e 20 ingressos para 'V VIP'se disponíveis". O documento também deixa claro que a ISE tem amplos direitos e pode multar a CBF por qualquer violação aos termos do acordo.

"Se acaso a CBF cancelar sua participação na partida por qualquer razão, salvo por evento de força maior, a CBF reembolsará à ISE qualquer valor que tenha recebido da 'taxa de comparecimento', assim como também pagará à ISE uma indenização por danos no valor equivalente a duas (2) vezes a 'taxa de comparecimento' estipulada na cláusula 12 acima", diz o documento. Na prática, isso significa uma multa de US$ 2 milhões (R$ 6 milhões).

"Além disso, a CBF deverá compensar a ISE pelos reais danos oportunos, financeiros e outros danos incorridos pela ISE, se for determinado que os haja, caso esse cancelamento tenha ocorrido após a assinatura deste acordo", diz outro trecho.

Qualquer outra violação também é punida. "Se a CBF violar qualquer de suas obrigações sob este presente acordo, a CBF pagará à ISE o valor de US$1 milhão (um milhão de dólares americanos) a título de indenização", alerta o artigo 17.

A ISE tem amplos direitos de revender o contrato ou fazer qualquer negócio fora, mesmo sem a autorização da CBF.

"A ISE terá, a seu exclusivo critério, o direito de sublicenciar, ceder ou transferir qualquer e todos os direitos e obrigações adquiridas sob esse acordo, seja em relação a uma partida específica ou todas as partidas a quaisquer terceiros sem a autorização prévia por escrito da CBF."

AGENDA FECHADA

O contrato também deixa claro que a ISE tem influência para determinar a agenda dos jogadores quando eles estiverem concentrados com a seleção para amistosos. Até mesmo quem fala com a imprensa seria uma decisão da empresa. O contrato exige que a seleção esteja no local do jogo "um dia antes da partida ou do evento oficial".

Com a aprovação da CBF, o acordo prevê que os jogadores e comissão técnica precisam participar de uma série de eventos. "Conferências de imprensa, com a participação de ao menos o treinador, um membro do quadro diretivo e quatro jogadores a serem designados pela ISE, incluindo o capitão do time," aponta o contrato.

O acordo também fala em "entrevistas pré e pós-jogo com cada jogador para a emissora anfitriã de cada partida." 

BRINDE

O contrato ainda prevê a participação dos jogadores em eventuais cerimônias de abertura, "recepções de boas-vindas e outros eventos promocionais do patrocinador titular". O acordo diz que a CBF deve garantir que seus jogadores estarão "presentes a toda atividade promocional relacionada ao jogo".

"A ISE poderá organizar uma sessão de treinamento aberta com propósitos comerciais ou não para cada partida", indica o acordo, mesmo sem a anuência da comissão técnica da seleção.

Para completar, um brinde. "A CBF irá assegurar que a ISE receba 10 (dez) camisas oficiais da seleção, totalmente autografadas por toda a seleção nacional brasileira para cada jogo", diz o documento.

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