Islam, o atacante solitário no Egito sonha conseguir uma chance no Brasil

Único brasileiro da Primeira Divisão do futebol egípcio dá aulas em um escolinha do Real Madrid

GONÇALO JUNIOR, O ESTADO DE S. PAULO

25 de agosto de 2013 | 08h30

Islam Ali é o único jogador brasileiro na Primeira Divisão do Egito, nação que pendurou as chuteiras para resolver suas questões políticas e sociais. Com os torneios interrompidos, o atacante procura um país para jogar. E faz um pedido à reportagem: “Amo o mundo árabe, mas gostaria de uma força para jogar no Brasil. Poderia ser na Segunda ou na Terceira Divisão”.

O Egito não tem futebol há dois anos, mas ainda não é hora de explicar as razões. Não existem torneios e os estádios estão fechados. Os três times mais poderosos – Al Ahly, Zamalek e Ismaily – não têm fontes de renda sem as receitas de tevê e patrocínio. A diretoria do Al Ahly, que enfrentou o Corinthians no Mundial de 2012, propôs que os jogadores reduzissem os seus salários em até 25%. “Em 2013, joguei na Segunda Divisão por amor ao futebol”, diz o paranaense de Toledo, que completou 22 anos em agosto. O nome Islam (a sílaba mais forte é o “lam”, como explica a mãe) é o diminutivo de islamismo e foi escolhido pelo pai egípcio, já falecido.

Em 2009 e 2010, os tempos eram bons. Em ascensão, o atacante atuou no Zamalek e no Ismaily. Habilidoso, chegou a figurar num comercial de tevê da Pepsi. Uma lesão no ligamento cruzado do joelho direito prejudicou seu voo. Depois de uma cirurgia no Brasil, a história egípcia entrou de sola na carreira. É a hora de explicar a morte do futebol do Egito.

Em fevereiro de 2012, 74 pessoas morreram durante o confronto entre torcedores do Al Masry e do Al Ahly. “Nossa única arma eram as chuteiras”, conta Fábio Junior, sergipano que jogava no Al Ahly.

Um ano depois, o torneio foi retomado com jogos sem torcidas, em um estádio da Força Aérea, mas o clima de insegurança persistiu. Em julho, parou de novo. “O povo egípcio é apaixonado por futebol. Os jogos fazem uma falta tremenda para o país”, diz o brasileiro Heron Ferreira, técnico do Ismaily em 2008/2009.

Sem futebol, Islam conseguiu um plano B satisfatório. Ele é o líder dos treinadores da Academia Real Madrid, sofisticada escolinha de futebol do Cairo que garimpa talentos para o clube de Cristiano Ronaldo e Kaká. Ele trabalha pela manhã e à tarde treina no El Maadi, da Segunda Divisão. “Se eu não tivesse recebido essa proposta, teria procurado outro país.”

Até o plano B ficou comprometido em agosto por causa de uma grave crise política. O presidente Mohamed Morsi, eleito democraticamente, foi derrubado em um golpe militar após protestos que reuniram milhões de pessoas nas ruas. O exército tomou a frente e nomeou um governo de transição, prometendo novas eleições dentro de seis meses.

As manifestações de partidários e opositores de Morsi se transformaram em episódios sangrentos. No dia 14 de agosto, por exemplo, dois acampamentos de militantes favoráveis ao presidente deposto foram atacados pelo Exército, um massacre marcado por bombas, tiros, paus, pedras e muito sangue. Mais de 600 pessoas morreram e duas mil ficaram feridas. Foi o dia mais violento desde a queda do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011. Nesse período, Islam ficou cinco dias sem trabalhar por causa dos confrontos. Só saía de casa para ir ao mercado, e olhe lá. O país parou.

“Se eu não conhecesse o Egito, ficaria em pânico. Mas já estive lá e acho que esse clima de insegurança é passageiro”, conta Maria da Graça Allievi, mãe de Islam, brasileira, empresária e que viveu um ano por lá. “O bairro onde moro (Maadi) é tranquilo. Na maioria das vezes, as notícias não retratam bem a realidade”, conta Islam.

Nesse instante, o jogador interrompe o papo porque ainda está no centro e se aproxima a hora do toque de recolher. Isso não significa que as pessoas têm de sair desesperadas para casa ao sinal de uma sirene. O anúncio é feito pela tevê por oficiais do exército. Todo mundo obedece e fecha as portas entre 19h e 6h. O metrô encerra as atividades às 18h e as ruas ficam desertas. Por causa do toque de recolher, os egípcios têm dias mais curtos. A embaixada do Brasil no Egito recomenda aos 150 brasileiros que vivem no país e também aos turistas que evitem as áreas nas quais há risco de protestos. “Não tenho medo”, conta o jogador.

Heron Ferreira também não. O técnico de 55 anos, que já passou por vários clubes brasileiros, fez fama no norte da África. Nos últimos oito anos, foi quatro vezes campeão no Sudão e levou o Ismaily ao vice-campeonato egípcio em 2009.

Em julho, ele estava de malas prontas para ser o técnico do Zamalek, mas a política atropelou o futebol. Não descarta voltar – quando a situação melhorar, obviamente – para retomar sua majestade. “O futebol egípcio é parecido com o brasileiro. Tem muita habilidade.”

Heron e Islam trabalharam juntos no Egito em 2009, mas agora devem trilhar caminhos opostos. Um quer sair, outro quer voltar. Chegadas e partidas em um país em que o jogo acabou. Ou está no intervalo.

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