'Já morri uma vez. Não tenho mais medo', diz ex-goleiro Doni

Um ano depois de sofrer uma parada cardíaca, jogador larga o futebol de vez e se reinventa como empresário

GONÇALO JUNIOR, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2013 | 08h00

RIBEIRÃO PRETO - Antes de morrer,

Cardiologistas ouvidos pelo Estado avaliam que as paradas cardíacas estão diretamente associadas à arritmia. No caso de Doni, no entanto, pode ter havido erro médico. A hipótese foi levantada também na Itália, onde o ex-goleiro refez exames em novembro do ano passado e não teve nova parada cardíaca. Mesmo depois de fazer testes em que seu coração foi submetido a altas doses de adrenalina, o bichinho não parou. Aos 33 anos, e com o retorno ao Brasil em mente na época, Doni não quis levar a polêmica questão adiante com os médicos ingleses. Deixou para lá. “Não tinha a intenção de jogar até os 40. O futebol é muito desgastante.”

MESMA ROTINA

A arritmia não é uma coisa do outro mundo para um esportista. Estudos conduzidos por Ghorayeb com 12 mil atletas no Hospital Dante Pazzanese e no Incor mostram a incidência de arritmia em 15,5% dos casos. Na população em geral, o porcentual é de 10%. As medidas restritivas, naturalmente, variam de caso para caso e vão desde a inatividade, em que a pessoa não pode nem subir escada, até o uso de medicamentos, passando por restrições alimentares. Doni parou de jogar futebol, mas mudou pouco sua rotina. O prato de salada não é a regra, mas a exceção. Ele não dispensa uma costela no bafo com o amigo e empresário Bordon, ex-zagueiro do São Paulo, e brinca dizendo que adora carboidrato. Da cerveja. Com moderação, tudo bem.

Stela Sampaio, diretora do Departamento de Estimulação Cardíaca Artificial da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, explica que o problema são os alimentos que aceleram a frequência cardíaca, como café e energéticos – esses são os pecados de Doni. Academia, ok. Isso pode. “Eu não me sinto como um cardíaco porque não tomo remédio. Já morri uma vez. Não tenho mais medo”, brinca o campeão da Copa América em 2007.

Doni fala bem, olha nos olhos e diz frases com começo, meio e fim. Está feliz da vida porque finalmente participou de um aniversário dos filhos. Thalita, a mais velha, fez nove anos na sexta. Seu projeto é a família.

A cabeça também não mudou. Continua brincalhão. Vai à missa, mas com moderação. Ele só contou para a mãe a história da parada cardíaca dez dias depois, mas não perdeu o bom humor mesmo diante do fervor católico de dona Rose. “Mãe, suas orações foram em vão. Eu fui lá e vi que não existe céu, nem inferno”, provocou. A mãe não respondeu na hora, mas retornou a ligação no dia seguinte. “Filho, 25 segundos é pouco tempo. Não deu tempo de você chegar ao céu.”

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