Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

'Já passou', diz coronel Nunes sobre mudança de voto na escolha da Copa de 2026

Conmebol vai exigir explicações por parte da CBF, enquanto Rogério Caboclo assumiu extraoficialmente as funções de presidente

Jamil Chade, correspondente / Moscou, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2018 | 14h41

O coronel Antonio Nunes, presidente da CBF, abriu a maior crise diplomática em anos no futebol sul-americano ao não respeitar um acordo sobre o voto para a sede da Copa de 2026, com repercussões que ainda começam a ser avaliadas para o Brasil. Mas, para ele, o assunto já está encerrado. "Já passou", disse o cartola, ao Estado, ao entrar no estádio Luzhniki.

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Agora, a Conmebol vai exigir explicações por parte da CBF diante da decisão do presidente de romper um acordo regional e votar pelo Marrocos para sediar a Copa de 2026. As suspeitas de cartolas dos EUA apontam para uma manobra de Marco Polo Del Nero, presidente afastado, para "retaliar" os americanos diante do inquérito contra ele nas cortes de Nova Iorque. 

Ao Estado, Nunes tentou minimizar a crise. "Já passou", insistia, ao entrar no estádio da abertura da Copa para assistir a partida entre Rússia e Arábia Saudita. Questionado pela reportagem se ele se arrependia de sua decisão, ele apenas soltou uma gargalhada, enquanto uma pessoa que o acompanhava garantiu: "ele até já se esquecei disso".

Mas quem não esqueceu foram os demais dirigentes do futebol mundial. O Estado revelou que o presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu que o coronel seja afastado do comando da entidade, enquanto o tema foi alvo de conversas até mesmo numa reunião do Comitê de Ética da Fifa, nesta quinta-feira.

Nesta quinta-feira, o presidente da Associação de Futebol da Argentina, Claudia Tapia, lançou um duro ataque contra os brasileiros. "Parece estar mais perto de traição que simpatia", disse, durante um evento patrocinado pela Conmebol para promover a campanha de Argentina, Uruguai e Paraguai para sediar a Copa de 2030.  

Existia um acordo do bloco para que todos os dez votos fossem para a candidatura dos EUA, México e Canadá. Mas, para a surpresa de todos, Nunes não informou a ninguém e não respeitou o acordo. A situação abriu uma crise dentro da entidade e abalou os planos da CBF de se apresentar à família Fifa como uma nova entidade.

Rogério Caboclo, presidente eleito da CBF, viajou até Moscou justamente para costurar uma nova relação com dirigentes, depois de anos de polêmicas e escândalos de corrupção. Mas o presidente da AFA deixou claro que o clima com a CBF é ruim.

"Não me parece bem quando os homens se compromete a algo, tem de cumprir. Pelo menos eu sou assim", disse. "Eu sempre que me comprometi, eu fiz. E não aconteceu isso. Temos de falar e pelo menos entender o que ocorreu e porque deu o voto dessa forma", disse. "Ele poderia ter dado voto para um ou outro. Mas quando há um acordo, tem de ser respeitado", insistiu.

O argentino disse que não falou com Nunes depois da votação. "Um sempre atua com o sangue forte e não termina bem. Não compartilho sua posição", disse. "Não vejo como uma boa decisão", completou.

Novo presidente

Ao Estado, Nunes havia garantido que iria à festa promovida pela Conmebol nesta quinta-feira para inaugurar uma espécie de casa da entidade em Moscou. Mas, por recomendação dos demais dirigentes da CBF, o coronel não apareceu e foi o único presidente sul-americano a não estar presente.

O lugar destinado ao coronel, porém, foi ocupado por Caboclo, se colocando já ao lado dos demais presidentes. Questionado horas depois o motivo pelo qual não foi à reunião da Conmebol, ele desconversou: "o que é que teve la?".

Diante da crise, a CBF tentou dar sinais de que o voto de Nunes não era uma posição da entidade. O vice-presidente da CBF, Fernando Sarney, usou um discurso para assegurar que a CBF "sempre irá cooperar com a Conmebol" e pediu que decisões "individuais" não sejam consideradas. Sarney não citou textualmente a crise aberta pelo coronel Nunes, mas sua mensagem foi interpretada como um distanciamento entre a instituição e o próprio Nunes.

"A CBF está sempre alinhada com a Conmebol. Qualquer outra decisão diferente sempre será pessoal, e não uma posição da CBF", disse Sarney.

O vice-presidente ainda aproveitou o evento para ir buscar Caboclo para insistir com os dirigentes americanos sobre o futuro da relação entre a US Soccer e a CBF. "Conte conosco", disse Rogério Caboclo, ao presidente da US Soccer, Carlos Cordeiro.

O americano, porém, admitiu depois da conversa que ainda não estava convencido se a decisão havia sido de fato individual por parte de Nunes ou se era uma posição da CBF como instituição por conta dos problemas na Justiça enfrentado pelos três últimos presidentes da entidade.

Em setembro, Brasil e EUA jogam em Nova Iorque um amistoso, o primeiro depois da Copa. O jogo, porém, não será longe da prisão onde José Maria Marin está detido. 

 

 

 

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