Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Jadson faz alerta: 'Futebol é um mundo do faz de conta'

Meia mostra pensar no futuro e diz que Brasil vive crise sem precisar

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2018 | 07h00

Jadson é uma das referências do Corinthians em campo e também um exemplo de profissional que sabe viver a vida, mas entende que tudo isso não é eterno. Em entrevista ao Estado, o meia de 34 anos falou que voltou mais focado em 2018 e sabe que terá uma vida tranquila financeiramente quando se aposentar, pois pensou no futuro. Ainda falou sobre as dificuldades da vida de um atleta e a nova diversão no Corinthians.

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Esperava iniciar o ano tão bem, fazendo gols, dando passe...?

Fico feliz por isso. No ano passado, eu não fiz pré-temporada. Esse ano tivemos uma curta, mas já foi importante para as coisas começarem dando certo. A mentalidade da equipe e o modo de jogar são os mesmos do ano passado. A única coisa que mudou é que conversei com o Carille e ele achou legal começar a jogar mais centralizado. Coloquei algumas metas esse ano na minha carreira. Em 2017, apesar de ter ganho o Paulista e Brasileiro foi um ano um pouco abaixo para mim. Nesta temporada eu voltei mais focado.

É melhor começar o ano como a "quarta força" ou favorito?

Essa história de quarta força motivou a gente e conseguimos conquistar dois títulos que ninguém esperava. A nossa equipe sabe que a cobrança será maior, pelo que fizemos ano passado, mas estamos preparados para as críticas.

O que mudou do Jadson que saiu do Corinthians em 2015 para o Jadson de hoje?

Sou um cara mais simples, só quero fazer o meu trabalho e espero jogar até mais do que joguei em 2015. Por isso estou me preparando da melhor forma possível.

Está mais família?

Sim. Eu gosto de pegar meus filhos e minha mulher e sair para passear. Vou ao cinema, parque, gosto bastante de restaurante. Balada já é algo mais complicado. Sou casado e minha mulher não gosta de ir (risos).

O relacionamento entre vocês aqui no Corinthians parece bom. Isso ajuda?

A gente tem muito respeito, mas também gostamos de brincar. Faz parte, né? A gente vive mais tempo junto do que com a nossa família. Trabalhar em um ambiente legal é melhor.

Sei que jogadores criam muito apelido. Qual deram para você?

Não tem isso, não. Eu que coloco apelido nos outros. Os caras tentam falar de mim, mas eu já mudo o foco. Se ficar bravo, aí que o apelido pega, por isso não pode deixar o negócio espalhar. Os caras devem ter medo de mim e não querem colocar apelido, porque sabem que vai ter volta.

Tem alguma mania?

Eu gosto muito de jogar videogame e bola com meus filhos.

Jogo de videogame é futebol? 

Gosto de jogar Fifa, mas agora estamos com uma nova atração no CT, que é um jogo de guerra chamado Call of Duty: WIII. Na concentração, ficam Fagner, Gabriel, Rodriguinho, vários, cada um no seu quarto, jogando pela internet. Até o Jô, do Japão, quando casa os horários, participa.

Quem dá mais trabalho no jogo?

O Gabriel está em um momento difícil, só afundando o time. Rodriguinho está melhorando. O Fagner, Caíque e Maycon vão bem. Eu sou meio termo. O Juninho acabou de se cadastrar, vamos ver como se saí.

Por falar em Maycon, você conversou com ele sobre a proposta do Shakhtar?

Ele veio me perguntar como é lá. Falei que quando eu estava lá, as coisas estavam bem, mas teve guerra na região e agora não sei. Enquanto estive lá, eles honraram com os contratos e nunca tive qualquer problema. Acho que, se der certo a negociação, vai ser bom para os dois lados. O Shakhtar é uma vitrine de onde saíram muitos jogadores bons. Ele vai, fica uns dois ou três anos e acerta com um clube grande.

Se pudesse voltar no tempo, teria esperado um pouco mais para sair do Brasil e ir para um clube maior?

Não. No Atlético-PR, embora eu tenha feito um bom ano, terminamos em segundo colocado no Brasileiro, mas eu não tinha uma condição financeira legal, ganhava pouco. Não pensei duas vezes. Quando o cavalo passa, tem que montar, né? Depois não adianta se arrepender. Foram sete anos e meio lá e sou muito grato por Deus. Não me arrependo.

Fiquei sabendo que você é viciado em carro...

Eu gosto, hein? Essa é uma das minhas paixões. Minha mulher fica brava, porque eu não compro roupa, não compro nada. Só quero saber de colocar escapamento, chipar (modificar os parâmetros da injeção eletrônica do carro, para aumentar a potência do motor), colocar turbo. Era um sonho que eu tinha e tenho condição de realizar. Já tive vários carros, mas quando eu pego, eu quero dar aquele 'tapa' especial, dar a minha cara.

E tem mais jogadores com essa mania?

O Wartão (Walter) tem um golzinho turbinado, que o bicho parece que está 'endemoniado'. É algo que a gente gosta e temos condições de ter. Primeiro, temos que pensar em ter uma reserva e uma condição legal. Ninguém aqui prefere comprar carro antes da casa. Tudo tem seu tempo, mas hoje eu posso fazer isso também. Tenho o sonho de ter aquele Mustang do filme 60 segundos (modelo Shelby GT500, equipado com um motor V8. Em 2013, o modelo utilizado no filme foi leiloado por US$ 1 milhão). Esse carro eu tenho vontade de ter, mas é difícil.

Vocês conversam sobre política e o momento do Brasil?

Política e religião nunca têm vencedor na discussão. Eu já comentei algumas coisas e deu um rolo danado aqui dentro (ele declarou apoio ao pré-candidato Jair Bolsonaro). Sempre vai ter um que vai discordar do outro. Às vezes no jantar, a gente começa a trocar ideia e o assunto rende bastante. Tem uns mais radicais, que mesmo você mostrando que ele está errado, continua falando e não desce do salto de jeito nenhum.

E você, como está vendo a situação do Brasil?

Cara, isso é um assunto complicado. O que estamos vivendo não é de agora. Não vai mudar de uma hora para outra. É muito complicado ver o povo brasileiro passando necessidade e as pessoas não investindo no Brasil por medo. A gente tem que torcer para que o Brasil saia dessa crise e seja um País melhor. A gente tem tudo aqui, cara. Agricultura, pecuária, indústria. Lá fora não tem tudo isso. Estamos passando por crise sem precisar.

Você se preocupa com o seu futuro? Você já tem 34 anos e uma hora a vida de jogador vai acabar... 

Tem que ter essa preocupação. Eu tenho alguns investimentos e uma empresa de engenharia civil que está crescendo bem. É triste ver vários jogadores que vão gastando, a vida passando e ele chega lá com seus 30 e poucos anos, olha para trás e vê que não construiu nada na vida.

Conhece algum jogador passando por isso?

A gente ouve histórias e não quer acreditar. Futebol é um mundo meio abstrato, do faz de conta. Você começa do zero, ganha muito dinheiro e, se não tiver cuidado, entra na empolgação e perde tudo. Futebol é resultado. Você está dando retorno, você é o cara. Se não está bem, ninguém olha para você. E jogador se deslumbra muito fácil, por isso vemos caso de jogador se entregando para bebida e droga.

Apareceram muitos amigos interesseiros na sua vida?

Cara, isso é muito normal na nossa vida. Apareceram e foram vários. O problema é que, quando você é novo, você não consegue enxergar isso. Já tive muitas decepções na minha vida, por confiar demais nas pessoas e lá na frente você é apunhalado por quem você tentou ajudar. Ser jogador de futebol tem um peso gigantesco. Você vira o alvo da família, pois tudo que acontece de problema é só correr atrás do parente jogador de futebol que está tudo bem. Tem que ter uma cabeça boa para lidar com tudo isso.

Por falar em família, sua mulher e vocês usam redes sociais e já vi algumas pessoas provocando vocês. Como lidar com isso?

Eu falo para ela não ficar respondendo ninguém para não dar motivo. Às vezes, você não está em um bom momento, entra um cara, começa a xingar sua mãe, seu pai, é complicado. Mas eu aprendi que quando tem alguém xingando, é só apertar o botão de bloquear e não aparece mais nada. Eu gosto de Instagram e Twitter e uso bastante isso. Agora estou aprendendo a fazer vídeo no Stories (vídeo no Instagram que fica no ar por 24 horas) e esses dias fiz um vídeo com o Giovanni Augusto, que todo mundo começou a rir e falar que eu sou doido. É legal.

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