Estela Silva/EFE
Estela Silva/EFE

'Jamais simularia contusão para não jogar pela seleção', diz Hulk

Atacante espera voltar a ser convocado por Dunga

Entrevista com

Hulk

ALMIR LEITE, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2015 | 07h00

Todos os dias, ao olhar da sacada do apartamento onde mora no sexto andar de um prédio num dos melhores bairros de São Petersburgo, o atacante Hulk vislumbra o lugar onde quer estar em junho de 2018. É a Zenit Arena, estádio em construção e que será utilizado no Mundial da Rússia. Ele, claro, espera jogar lá daqui a três anos com a camisa da seleção brasileira. “É um sonho’’, admite.

Um sonho distante, pelo menos nesse momento. Desde que não atendeu à primeira convocação feita por Dunga em sua volta ao comando, em setembro passado - para os amistosos contra Equador e Colômbia -, não foi mais chamado. Hulk estava com uma lesão na coxa, mas curou-se antes do prazo inicialmente estabelecido e jogou pelo Zenit três dias depois do amistoso contra os colombianos.

O atacante garante que a rápida recuperação foi consequência do trabalho do fisioterapeuta do Zenit, Eduardo Santos. Mas Dunga entendeu que ele não se empenhou para servir à seleção e não o convocou mais. “Jamais simularia uma contusão para não jogar pela seleção”, diz Hulk para quem tudo não passou de um mal-entendido.

Enquanto Dunga não o perdoa, Hulk segue a vida. Superou o fracasso da Copa de 2014 e, em sua terceira temporada no Zenit - chegou em 2012, contratado por  60 milhões de euros -, conquistou o primeiro título russo. É artilheiro do campeonato (15 gols, inclusive o do título)e participou de 28 das 29 partidas do time.

Venceu a resistência de alguns companheiros (pelo alto salário) e da torcida. Ainda convive com o racismo quando a equipe joga fora de São Petersburgo, mas decidiu tratar bem os intolerantes. Teve o contrato estendido até 2019 (dizem que ganhará 7 milhões de euros por ano). Está de bem com a vida. Só falta convencer Dunga a dar-lhe uma chance para que possa realizar o sonho de jogar na porta de sua casa em 2018.

Qual é a análise que você faz dessa sua temporada no Zenit?

Foi boa, produtiva, um pouco diferente das duas primeiras. Fomos campeões. Estou muito bem, 100% adaptado à cidade e o nosso ambiente está bem melhor, muito bom. Isso influiu na conquista.

O André Villas-Boas(técnico português contratado em 2014) teve participação importante nessa melhora do ambiente? 

Com certeza. O André é um cara que gosta de unir o grupo. Jogadores, comissão, todos que fazem parte do elenco. Desde que ele chegou, as coisas melhoraram.

Você mora perto do estádio que está sendo construído pelo Zenit e que será usado em 2018?

Dá minha sacada (mora no sexto andar) dá para ver. Não dá cinco minutos de carro.

Já se imaginou com a camisa da seleção nesse estádio em 2018?

É um sonho, né? Sonho sempre estar vestindo a camisa da seleção. Meu objetivo é esperar nova oportunidade com o professor Dunga. Tenho como meta disputar competições pela seleção e o Mundial também.

Você foi chamado para os dois primeiros jogos dele. Teve a contusão, foi desconvocado e não foi mais lembrado. O que de fato aconteceu?

Eu não sei o porquê (de não ter ido mais para a seleção). Não sei se o Dunga soube da verdadeira história. Eu realmente estava lesionado. A minha lesão (na coxa) normalmente leva de 20 dias a um mês para recuperar. Só que a gente tem um fisioterapeuta muito bom, o Eduardo Santos, que me recuperou e em 13 dias eu joguei. O jogo todo, sem problema. A prova disso (da eficiência de Santos) é que o David Luiz teve a mesma lesão que eu, veio tratar aqui com ele e ele recuperou o David em uma semana para jogar contra o Barcelona (o zagueiro do PSG teve lesão na coxa esquerda em 5 de abril e 10 dias depois jogou contra o Barça pela Liga dos Campeões).

Acha que foi esse o motivo de não ter sido mais chamado?

Não sei se é por causa disso ou se é por opção do Dunga. Se for por opção, a gente só tem de entender, respeitar e procurar trabalhar para poder voltar. Mas se for por isso (sua contusão não ter convencido), me deixa triste porque não é uma coisa verdadeira. Quem me conhece sabe que eu jamais inventaria uma lesão para não participar de um jogo da seleção.

Entende que ficou meio esquecido pelos torcedores brasileiros?

Não digo esquecido. Meu trabalho eu estou fazendo. Tive uma ótima temporada. Se estivesse na seleção não estaria esquecido. O que tenho de fazer é continuar trabalhando.

Você acredita que a chance vai aparecer novamente?

Tenho de continuar trabalhando, fazendo as coisas certas, porque na seleção tem muitos jogadores de qualidade. Tenho de esperar a oportunidade e quando ela aparecer fazer o melhor.

Você se considera vítima dos 7 a 1?

Acho que não. Até porque na primeira lista do Dunga eu estava e nos 7 a 1 perdeu todo mundo. O fato de alguns jogadores não estarem sendo chamados é por opção do treinador. Não por ser culpado pelos 7 a 1. Futebol é um dia após o outro. Tem de estar preparado para elogios e para tomar muita pedrada, que a gente toma. Mas tem de estar de cabeça erguida e trabalhar.

O futebol brasileiro melhorou depois da Copa do Mundo?

Eu não acompanho muito daqui por causa do fuso horário. Mas a gente vê algumas mudanças positivas e coisas que têm de melhorar. O futebol brasileiro é de qualidade. O Campeonato Brasileiro é um dos mais disputados do mundo.

O que vê de positivo?

Primeiro, os estádios, porque a gente teve uma Copa. E os investimentos dos clubes, tentando cada vez mais ficarem mais fortes. Não sei internamente, mas externamente você vê os clubes um pouco mais organizados. Se comparar com cinco anos atrás, dá para ver a diferença.

O que precisa melhorar?

Isso de os jogadores reclamarem que não recebem... Isso é triste no futebol brasileiro, porque tem muitos clubes grandes. O clube grande tem de ser bem visto. Na Europa há organização. Mesmo clubes medianos e os que lutam para não cair estão sempre bem, procuram agir certo, sem salários atrasados. O jogador tem família e quando atrasa um ou dois salários já começa a mexer com a cabeça dele. Ele passa a não render porque começa a se preocupar com outras coisas.

Você teve proposta de centros mais importantes da Europa. Por que preferiu renovar com o Zenit?

Primeiro porque o presidente (Aleksandr Dyukov)não deixava eu sair. E eu já estava muito bem no time. E o que pesou muito foi a família (mulher e dois filhos pequenos). Eles gostam muito daqui, estão bem adaptados, eu gosto muito da cidade e isso foi um fato positivo para a renovação.

Qual é sua principal meta no Zenit?

O primeiro objetivo era ser campeão russo para entrar direto na Champions. Nosso time, com a chegada do André, evoluiu bastante. Na próxima temporada estaremos mais fortes, isso vai ajudar bastante para fazer uma boa Liga e tentar chegar o mais longe possível.

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