Jardel só quer jogar e ter sossego

Depois de inúmeros títulos e artilharias no Brasil e no mundo, Jardel agora torce para ser relacionado, como reserva, no time do Goiás que enfrenta domingo o Corinthians, na última rodada do Campeonato Brasileiro. Com 32 anos, diz já estar próximo dos 700 gols na carreira, recorda sua glórias, as passagens gloriosas pelo Porto e Sporting e conta, cheio de orgulho, ter sido "endeusado em todo o planeta". Fala muito do passado, ao que parece, para evitar perguntas sobre o presente. Fica chateado ao constatar que, desde 2003, sua trajetória de sucesso desandou, brigou com clubes como o Ancona e o News Old Boys, abandonou o Palmeiras, ficou nove meses parado este ano e tem dificuldade para readquirir ritmo de jogo. "Eu simplesmente ganhei tudo que podia ganhar, mas, de repente, as coisas viraram. Meu sonho é ter sossego para poder mostrar meu futebol, porque eu sei que ainda tenho qualidade", disse o jogador. Nos treino do Goiás, Jardel passa como mais um em meio ao elenco. Não tem o brilho dos atacantes Dodô e Sousa ou do lateral Paulo Baier, por exemplo. Quinta-feira, aliás, numa brincadeira entre os jogadores, errou ao concluir um cabeceio a gol, daqueles lances que jamais desperdiçaria em seus bons tempos. "Sempre fui um jogador que me dava bem até quando estava fora de forma, com alguns quilos a mais. Só que agora o problema é outro, eu estou sem ritmo de jogo, preciso jogar, jogar e jogar para estar 100%", defendeu-se. O atacante tem dificuldade em explicar o que ocorreu em sua vida nos últimos dois anos. Anunciado com estardalhaço pelo Palmeiras para o início da temporada de 2004, permaneceu no clube por apenas 40 dias e não atuou em uma única partida. "Eu tinha contrato firmado com o Ancona (ITA) e com o Bolton (ING) e por isso não consegui liberação da documentação. O problema foi esse", afirmou. Mas por que você assinou com três times ao mesmo tempo? "Ué, não estava satifeito na Europa e queria voltar ao Brasil, por isso vim para o Palmeiras", tentou justificar. Na época de sua chegada, declarou que estava retornando ao País para ficar mais próximo da esposa e dos dois filhos. Problemas familiares voltaram a ser usados pelo atleta para desculpar novos mal-entendidos. Em junho de 2004, desapareceu do Palestra Itália para surpresa do técnico na ocasião, Estevam Soares. "Me disseram que ele foi para Fortaleza por causa da morte da avó", disse o treinador à imprensa. Jardel não ligou mais para o clube, nem disse quando retornaria e acabou sendo dispensado. Desentendimentos - Do Palmeiras partiu para o News Old Boys, da Argentina. Foi campeão argentino, desentendeu-se com a diretoria e, como já havia feito com o italiano Ancona, entrou na Fifa contra o clube. "Eles não me pagaram os salários, saí mesmo". Cobra 600 mil dólares dos argentinos; 600 mil euros do Ancona. Tornou-se um perito em desentendimentos. Deixou o News Old Boys e fechou com o Alavés, da Segunda Divisão da Espanha, onde ficou apenas um mês. Os espanhóis exigiam que resolvesse sua situação com o clube argentino, enquanto Mário Jardel, como era chamado no País, se irritava ao ter seus pedidos de adiantamentos de salário recusados. A família mora em Fortaleza, capital do Ceará na qual nasceu no dia 18 de setembro de 1973 e onde ficou "descansando e tomando sol na praia" por nove meses antes de ser contratado pelo Goiás. "Estou aqui há dois meses, super feliz", disse, traindo-se em seguida. "Só que eu vim para jogar, não quero ficar no banco o tempo todo, porque aí não interessa para mim." O técnico Geninho o aproveitou no fim de quatro jogos do Goiás. ?Mas se somar tudo não dá dez minutos?, reclamou o artilheiro. ?Mesmo assim fiz um gol, contra o São Paulo. Tá ou não tá boa a média, um gol a cada dez minutos??, brincou. Usando como exemplo o atacante Romário, do Vasco, Jardel espera jogar até os 37 anos. "Ainda vou fazer muitos gols, minha carreira terá muita alegria pela frente", garante. Exímio finalizador, conquistou o Mundial de Juniores pelo Brasil em 1993, brilhou no Vasco, no Grêmio, chegou à seleção principal, é ídolo até hoje dos portugueses e foi campeão da Uefa e da Eurocopa pelo Galatasaray, em 2000. Um jogador quase perfeito nos cabeceios, mas que parece não saber planejar sua carreira. Logo após dizer que ficou nove meses este ano descansando, apesar de ter boas propostas de times do exterior, consertou: "Na verdade, queria ficar com minha mãe. Meu pai morreu e ela estava super deprimida." Pouco antes havia dito que já tinha trabalhado demais na vida e se sentia no direito de curtir o dinheiro que ganhou no futebol.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.