Delmiro Silva
Jóbson atua no futebol amador em Conceição do Araguaia (PA), sua cidade natal Delmiro Silva

Jobson mantém a forma na várzea do Pará e aguarda Fifa

Atacante aguarda julgamento em janeiro para voltar a jogar

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2015 | 17h00

Conceição do Araguaia, cidade distante 979 quilômetros de Belém do Pará, costuma receber alguns poucos turistas interessados em conhecer a região onde militantes do Partido Comunista enfrentaram a ditadura militar na “Guerrilha do Araguaia” no início dos anos 70. No futebol, a cidade pequena, 50 mil habitantes, que vive do plantio de abacaxi, milho e arroz, quer entrar para a história com a recuperação física e emocional do atacante Jobson, seu filho mais famoso.

É lá que o ex-jogador do Botafogo tenta retomar a carreira depois de uma das trajetórias mais polêmicas e conturbadas do futebol recente. Só para ficar nos fatos mais importantes, Jobson foi suspenso por dois anos pelo uso de cocaína em 2009, foi parar na delegacia acusado de agredir a mulher em 2013, foi preso por dirigir embriagado neste ano e está suspenso até 2019 por se negar a fazer exame antidoping quando jogava na Arábia Saudita.

Agora, ele decidiu começar do começo. Bem do começo mesmo. Atualmente, o atacante disputa um campeonato de futebol amador organizado pela Liga Esportiva de Conceição do Araguaia (Leca). Ele mesmo batizou seu time como Botafogo de Emerêncio, homenagem ao clube que defendeu até junho. Emerêncio é o bairro onde ele nasceu. 

Os parças de Jobson são amigos de infância, vizinhos, parentes – a maioria do time –, além de jogadores que sonham com uma chance no profissional e até ex-atletas. Um deles é o volante Elson, que atuou no Palmeiras, Cruzeiro e Sttutgart. “O pessoal marca pesado. A gente pensa que o futebol amador tem muita diferença do profissional, mas a pegada é a mesma”, diz o jogador aos 27 anos. 

Everaldo Lisboa, presidente da Leca, afirma que o atacante ainda está em forma. “Ele é um jogador diferenciado. Em qualquer campo. Precisa ver ele batendo falta”, conta o dirigente, que também foi o primeiro treinador de Jobson. 

Jobson quer se manter em forma, porque ele tem uma chance real de voltar aos gramados no ano que vem. Seus advogados entraram com um recurso no CAS (Corte Arbitral do Esporte), na Suíça, pedindo uma anulação da extensão da punição de quatro anos. O julgamento será no mês de janeiro e o veredicto deve ser conhecido em 60 dias.

“Estamos otimistas. É um caso difícil, mas temos chances”, afirma Bichara Neto, advogado do jogador. Trocando em miúdos, a defesa do jogador argumenta que a punição por se negar ao fazer o antidoping deve ser válida apenas no território da Arábia Saudita e não no mundo todo. Com isso, ele poderá atuar no Brasil. 

O principal argumento é que a suspensão do Al-Ittihad foi na verdade um retaliação pela cobrança que o jogador fez na Fifa em relação a salários atrasados. O clube saudita tem força nos bastidores da entidade. “O caso tem algumas peculiaridades. Pode ter sido uma forma de pressioná-lo”, diz o defensor. 

O jogador está otimista. Decidiu participar do torneio para manter a forma quando tiver o aval da Fifa para voltar. Ele também faz exercícios físicos em uma academia da cidade e planeja voltar a morar no Rio de Janeiro no ano que vem para recuperar a forma no próprio Botafogo. Paralelamente, trabalha para melhorar sua imagem e tem participado de jogos beneficentes com frequência. No contato com o Estado pediu para não comentar o caso na Fifa. “Estou até frequentando a igreja”, conta, sem entrar em detalhes. 

O Botafogo ainda está com o freio de mão puxado até o último dente nessa questão. Embora não exista um contrato entre as duas partes – ele terminou em junho e não poderia ser renovado por causa da suspensão imposta pela Fifa –, existe um ligação afetiva entre o clube e o atleta. O clube cedeu os uniformes de treino para o time de Emerêncio, mas não quer queimar seu filme com a Fifa.

“O Jobson não tem relação com o Botafogo. O contrato acabou em junho e, enquanto houver a punição da Fifa, ele não pode nem frequentar as dependências do clube. Nem no Botafogo nem em qualquer agremiação”, diz o presidente Carlos Eduardo Pereira. “Quando acabar a punição, aí é outra história”, desconversa. 

Por enquanto, o campeonato de Jobson é a Copa Primavera. O Estádio Carecão, que tem capacidade para cinco mil pessoas, fica quase cheio para os jogos. Combatente, Cruzeiro, Canudinho, Carajás e Leãozinho são alguns dos times que lutam, todos contra todos, em turno único, para chegarem à final, no dia 12 de dezembro. 

Os jogos são pegados mesmo, correria e alguns lances de efeito. O atacante ainda é rápido e habilidoso como em 2009, seu auge. Ele se sente em casa e acredita que voltar a Conceição do Araguaia, que já foi a terra da guerrilha, foi o melhor remédio para colocar a cabeça em paz. 

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Carreira de Jobson é marcada por muitos gols e polêmicas

Jobson evita falar sobre o passado como uma tentativa de superar uma carreira feita de grandes momentos, cercada por atos de indisciplina. Em 2009, viveu o grande momento de sua carreira. Foi o responsável direto pela campanha de recuperação do Botafogo na Série A.</p>

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2015 | 17h00

As grandes atuações chamaram a atenção do Cruzeiro, mas veio o grande erro de sua carreira. Ele foi flagrado no exame antidoping em duas partidas de 2009 por uso de cocaína – admitiu que havia fumado crack. Foi suspenso pelo STJD por dois anos, mas a pena foi diminuída para sete meses. 

Na metade de 2010, teve um período de calmaria, mas voltou a cometer pequenos atos de indisciplina, como atrasos nos treinos. Os dirigentes perderam a paciência e o emprestaram ao Atlético Mineiro. Novamente não vingou. Alegou falta de adaptação, e o contrato foi rescindido.

Sua carreira ficou em risco por causa de uma revisão da Agência Mundial Antidoping, que previa o banimento de um atleta reprovado em dois exames. Os advogados conseguiram caracterizá-lo como dependente químico, mas a pena acabou acrescida de seis meses. 

A partir de 2011, perambulou por Grêmio Barueri, Avaí e São Caetano. No clube paulista, foi acusado de agredir a esposa em São Caetano do Sul. Um mês depois, na mesma cidade, foi detido por desacato após ser parado numa blitz. Antes disso, havia sumido por 15 dias sem explicações. 

Em 2013, Jobson foi emprestado ao Al-Ittihad. No ano seguinte, ele se negou a fazer o exame antidoping, não compareceu às audiências sobre o caso, rescindiu o contrato unilateralmente e voltou ao Brasil. Ele se defende dizendo que foi retaliação por ter cobrado salários atrasados. 

O retorno representou um novo impulso em sua carreira. Foi importante na Taça Guanabara, com gols decisivos, mas veio a suspensão definitiva e ele ficou fora da final do Campeonato Carioca. Os advogados recorreram e o julgamento definitivo do recurso será em janeiro. 

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