Monique Jaques/The New York Times
Monique Jaques/The New York Times

Jogadoras de futebol desafiam a proibição do uso do hijab na França

Coletivo de atletas muçulmanas está lutando contra o que considera ser uma regra discriminatória da federação francesa que vai contra posição da Fifa

Monique Jaques, The New York Times

19 de abril de 2022 | 15h00

Toda vez que Mama Diakité vai a um jogo de futebol, seu estômago dá um nó. E aconteceu mais uma vez em uma tarde de sábado semanas atrás em Sarcelles, subúrbio ao norte de Paris. Seu time amador foi enfrentar o clube local, e a meio-campista muçulmana de 23 anos temia que não pudesse jogar com seu hijab.

Desta vez, o árbitro a deixou entrar em campo. "Deu certo", disse ela ao final do jogo, encostada na cerca que cercava o campo, o rosto sorridente envolto em um lenço preto da Nike. Mas Diakité só tinha caído em uma brecha. Hijab são aqueles véus que escondem o cabelo e parte do rosto das mulheres islâmicas.

Anos atrás, a Federação Francesa de Futebol proibiu as jogadoras que participam de competições de usar símbolos religiosos aparentes, como hijabs, uma regra que alega estar de acordo com os rígidos valores seculares da organização. Embora a proibição seja pouco aplicada no nível amador, ela paira sobre as jogadoras muçulmanas há anos, destruindo suas esperanças de carreira profissional e afastando algumas do esporte.

Em uma França cada vez mais multicultural, onde o futebol feminino está crescendo, a proibição também vem provocando uma reação crescente. Na linha de frente da luta estão as Hijabeuses, um grupo de jovens jogadoras de diferentes times que usam hijab e uniram forças para fazer campanha contra aquilo que elas descrevem como uma regra discriminatória que exclui mulheres muçulmanas do esporte.

Seu ativismo tocou um nervo na França, revivendo debates acalorados sobre a integração dos muçulmanos em um país que tem uma relação complicada com o islã e destacando a luta das autoridades esportivas francesas para conciliar sua defesa de valores seculares estritos com pedidos crescentes por maior representação dentro de campo.

“O que queremos é ser aceitas como somos, para implementar esses grandes slogans de diversidade e inclusão”, disse Founé Diawara, presidente das Hijabeuses, que tem 80 integrantes. “Nosso único desejo é jogar futebol”.

O coletivo Hijabeuses foi criado em 2020 com a ajuda de pesquisadoras e organizadoras comunitárias na tentativa de resolver um paradoxo: embora as leis francesas e a Fifa, órgão que rege o futebol mundial, permitam que esportistas usem hijabs, a federação francesa de futebol proíbe, argumentando que romperia com o princípio da neutralidade religiosa em campo.

Diakité começou a jogar futebol aos 12 anos, de início escondendo dos pais, que viam o futebol como um esporte de meninos. “Meu sonho era ser jogadora de futebol profissional”, disse ela.

Jean-Claude Njehoya, seu atual treinador, disse que, “quando ela era mais jovem, tinha muitas habilidades” que poderiam tê-la impulsionado ao mais alto nível. Mas “a partir do momento” que ela entendeu que a proibição do hijab a afetaria, ele disse, “ela parou de se esforçar”. Diakité disse que decidiu por conta própria usar o hijab em 2018 - e desistir de seu sonho. Agora ela joga em um clube da terceira divisão e planeja abrir uma escola de condução. “Nada de arrependimento”, disse ela. “Ou sou aceita como sou, ou não sou. É isso”.

Karthoum Dembele, meio-campista de 19 anos que usa piercing no nariz, disse que também teve de confrontar sua mãe para jogar. Ela logo se juntou a um programa intensivo de esportes no ensino médio e participou de testes em clubes. Mas foi só quando soube da proibição, há quatro anos, que ela percebeu que não poderia mais competir. “Consegui fazer minha mãe aceitar, aí me disseram que a federação não me deixa jogar”, disse Dembele. “Falei comigo mesma: só pode ser piada!”.

Outras integrantes do grupo relembraram episódios em que os árbitros as proibiram de entrar em campo, levando algumas, sentindo-se humilhadas, a abandonar o futebol e a praticar esportes onde hijabs são permitidos ou tolerados, como handebol ou futsal. Ao longo do ano passado, as Hijabeuses pressionaram a federação francesa de futebol para derrubar a proibição. Elas enviaram cartas, se reuniram com autoridades e até fizeram um protesto na sede da federação - sem sucesso. A federação se recusou a fazer comentários para esta reportagem.

Paradoxalmente, foram os oponentes mais ferrenhos das Hijabeuses que acabaram por colocá-las no centro das atenções. Em janeiro, um grupo de senadores conservadores tentou consagrar em lei a proibição do hijab da federação de futebol, argumentando que os hijabs ameaçavam espalhar o islamismo radical nos clubes esportivos. A medida reflete um mal-estar persistente na França em relação ao véu muçulmano, que gera controvérsias periódicas. Em 2019, uma loja francesa desistiu do plano de vender hijabs projetados para corredoras após uma enxurrada de críticas.

Energizadas pelos esforços dos senadores, as Hijabeuses travaram uma intensa campanha de lobby contra a emenda. Aproveitando sua forte presença nas mídias sociais - o grupo tem quase 30 mil seguidores no Instagram - elas lançaram uma petição que reuniu mais de 70 mil assinaturas; atraíram dezenas de celebridades do esporte para sua causa; e organizaram jogos diante do prédio do Senado e com atletas profissionais.

Vikash Dhorasoo, ex-meio-campista da França que participou de um jogo, disse que a proibição o deixou perplexo. “Eu simplesmente não entendo”, disse ele. “Os muçulmanos é que são alvos aqui”.

Stéphane Piednoir, o senador por trás da emenda, negou a acusação de que a legislação visava especificamente as muçulmanas, dizendo que seu foco eram todos os sinais religiosos aparentes. Mas ele reconheceu que a emenda foi motivada pelo uso do véu muçulmano, que ele chamou de “veículo de propaganda” para o islã político e uma forma de “proselitismo visual”. (Piednoir também criticou a exibição das tatuagens católicas de Neymar, astro do PSG, caracterizando-as como “infelizes”, e se perguntou se a proibição religiosa deveria se estender a elas).

A emenda acabou sendo rejeitada pela maioria do governo no parlamento, embora não sem atritos. A polícia de Paris proibiu um protesto organizado pelas Hijabeuses, e o ministro do Esporte francês, que disse que a lei permite a participação de mulheres que usam hijab, entrou em conflito com colegas do governo que se opõem ao lenço.

A luta das Hijabeuses talvez não seja popular na França, onde seis em cada dez pessoas apoiam a proibição dos hijabs nas ruas, de acordo com uma pesquisa recente da empresa de pesquisas CSA. Marine Le Pen, a candidata presidencial de extrema-direita que enfrentará o presidente Emmanuel Macron em segundo turno no dia 24 de abril - com chance de vitória - disse que, se eleita, proibirá o véu muçulmano nos espaços públicos.

Mas, no campo de futebol, todos parecem concordar que os hijabs devem ser permitidos. “Ninguém se importa se elas jogam com hijab ou não”, disse Rana Kenar, 17 anos, jogadora de Sarcelles que veio assistir a seu time enfrentar o clube de Diakité em uma noite muito fria de fevereiro.

Kenar estava nas arquibancadas com cerca de 20 jogadoras. Todas disseram que viam a proibição como uma forma de discriminação, observando que, no nível amador, a proibição era aplicada de maneira imprecisa. Até mesmo o árbitro do jogo em Sarcelles, que deixara Diakité jogar, parecia estar em desacordo com a proibição. “Eu fingi que não vi”, disse ele, recusando-se a dar seu nome por medo de repercussões.

Pierre Samsonoff, ex-vice-chefe do ramo amador da federação de futebol, disse que a questão inevitavelmente ressurgirá nos próximos anos, com o desenvolvimento do futebol feminino e a realização das Olimpíadas de 2024 em Paris, que contará com atletas de países muçulmanos.

Samsonoff, que de início defendia a proibição do hijab, disse que desde então suavizou sua posição, reconhecendo que a política pode acabar afastando as jogadoras muçulmanas. “A questão é: será que não estamos criando consequências piores ao decidir proibir o hijab nos campos?”, disse ele. Piednoir, o senador, disse que as jogadoras estavam condenando a si mesmas ao ostracismo. Mas reconheceu nunca ter falado com nenhuma atleta que usa hijab para ouvir suas motivações, comparando a situação a pedir que “bombeiros ouçam os piromaníacos”.

Dembele, que administra as contas de mídia social das Hijabeuses, disse que sempre fica impressionada com a violência dos comentários online e a feroz oposição política. “Nós estamos aguentando firme” disse ela. “Não é só por nós, é também pelas jovens que amanhã vão sonhar em jogar pela França, pelo PSG”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.