Jogadores brasileiros dominam mercados por todo o planeta

Apesar da má fase da seleção e da falta de grandes talentos, atletas nacionais atuam em mais de cem de países

Jamil Chade, correspondente na Suíça, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2015 | 17h00

Das Ilhas Faroe ao Vietnã, de Belize à Síria, de Brunei ao Laos. Os jogadores brasileiros deixam de focar apenas no tradicional mercado europeu e se transformam na única mão de obra “verdadeiramente global’’ do futebol. A desvalorização do real, a dívida dos clubes brasileiros e a abertura de novos mercados foram os principais motivos para essa explosão de exportação para novas regiões do planeta. Movimento que deve crescer.

Para especialistas, esse fluxo deve aumentar nos próximos anos diante da proibição, pela Fifa, do envolvimento de fundos de investimentos e empresas em passes de jogadores.

Um mapeamento dos estrangeiros no futebol foi obtido com exclusividade pelo Estado e publicado pelo Observatório do Futebol, do Centro Internacional para os Estudos do Esporte, entidade apoiada pela Fifa e Uefa e que passou a ser uma referência no mundo do futebol.

Segundo o estudo, nunca as fronteiras estiveram tão abertas ao fluxo de craques, enquanto países relaxam regras que estabeleciam limites em campo. O resultado é a existência de mais de 16 mil jogadores profissionais atuando fora de seus países. Dados oficiais da Fifa confirmam essa explosão. No total, mais de 6 mil clubes pagaram aos jogadores salários que no total ultrapassam US$ 16 bilhões em 2014. Apenas seus agentes receberam US$ 700 milhões.

Em apenas um ano, esses clubes gastaram US$ 2,3 bilhões para reforçar seus times, um recorde. Se 80% dos gastos se concentram na Europa, a Fifa estima que um valor cada vez maior tem sido registrado na Ásia e Oriente Médio.

Nesses novos mercados, o Brasil é o líder absoluto. No total, o levantamento aponta que existem 1.784 brasileiros atuando no exterior em 106 países diferentes, contra menos de mil argentinos. Seria suficiente para montar quase 80 equipes, com titulares e reservas.

O Brasil também já é o maior fornecedor de jogadores para a Ásia, Oriente Médio e EUA, apesar de especialistas admitirem a falta de grandes estrelas internacionais do País.

“Apesar do fraco desempenho da seleção nacional, o Brasil continua sendo o País exportador de jogadores por excelência”, disse o informe da CIES. “Encontra-se um brasileiro presente em quase todos os países examinados, fazendo do Brasil o único real fornecedor global de jogadores”, apontou.

No total, os brasileiros representam mais de 20% dos estrangeiros atuando na Ásia, com 437 atletas. O segundo lugar é da Nigéria, mas apenas com 127.

NOVOS MERCADOS

Os brasileiros estão nos mais diversos locais: em países fechados, como o Brunei (1), e mesmo em guerra, como na Síria (2). No Iraque, são 12. Na Ásia, o maior contingente ainda está no Japão, que hoje conta com 75 atletas nacionais. Na Coreia do Sul são outros 37. A China é um dos novos mercados em expansão, com 32 atletas. São outros 30 na Tailândia, 24 no Bahrein, 10 na Indonésia e outros 12 no Irã.

A Índia é uma dessas novas fronteiras. Hoje técnico, Zico contou ao Estado que treina um time, o Goa FC, com seis brasileiros, entre eles o zagueiro Lúcio. “E não é nem uma liga oficial ainda”, disse.

Na Europa, o principal destino é Portugal, com 410 atletas brasileiros. Também existem 82 na Itália, 32 na Alemanha, 47 na Espanha e 24 na Inglaterra, o mais rico de todos.

Faz muito tempo que os brasileiros deixaram de focar apenas nos grandes torneios europeus. Existem sete nos modestos times de Luxemburgo, 37 em Malta, 23 na congelada Finlândia, 17 na Albânia, 31 no Chipre e dois na distante Ilhas Faroe, cuja população não conseguiria nem mesmo lotar o Maracanã.

Na liga americana, os brasileiros também dominam a legião de estrangeiros, liderados por Kaká. São 74 no total, contra 70 de todo o Reino Unido, num mercado em ampla expansão.

Os brasileiros estão até mesmo na África, com dois jogadores no Sudão, Angola, Tunísia, nas Ilhas Maldivas ou na diminuta São Tomé e Príncipe.

A única região do mundo onde os brasileiros são superados pelos argentinos é a América Latina. São 511 jogadores da Argentina, contra 124 brasileiros.

Entre as demais nacionalidades, os franceses aparecem na terceira colocação como os atletas mais exportados: 758. Mas muitos deles são africanos com dupla nacionalidade. Juntos, brasileiros, argentinos e franceses representam 20% de cerca de 16 mil atletas estrangeiros atuando fora de seus países.

 

Para Pedro Fida, especialista em direito desportivo internacional, o fluxo de brasileiros no exterior deve aumentar ainda mais no curto prazo, por causa da proibição da posse de jogadores por terceiros e pelos fundos. “Esses jogadores passarão a ser adquiridos por um preço menor daquele comumente praticado no período pré-banimento’’, disse.

No longo prazo, porém, ele aposta em um “fortalecimento gradativo dos clubes no Brasil e um enfraquecimento do poder de negociação dos jogadores e seus empresários em contratações e transferências internacionais’’. Um efeito possível poderá ser o aumento do poder de barganha dos atletas para obterem salários maiores e o retorno às raízes da atividade de intermediação – profissionais sendo remunerados por porcentuais sobre os rendimentos dos atletas e pela intermediação de fato entre clubes e atletas.

Amir Somoggi, especialista na economia do futebol, aponta que os clubes tiram pouco proveito dessas exportações. “Faturamos muito pouco pela quantidade de jogadores que exportamos.’’ Segundo seus cálculos, em 2014, a exportação rendeu R$ 404 milhões aos clubes, pouco mais de 5% do valor envolvido no mercado global. Em dez anos, a renda foi de R$ 5 bilhões.

Para ele, os clubes usam a venda de jogadores para não falir. “Existe uma ‘jogadordependência’ dos nossos clubes que, para tentar equilibrar as contas, vendem qualquer jogador, dos mais renomeados até meros desconhecidos’’, explicou.

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