Bogdan Cristel/EFE
Bogdan Cristel/EFE

Jogadores de futebol entram no debate sobre direitos humanos de estrangeiros nas obras da Copa

Atletas de Noruega, Alemanha, Holanda e Dinamarca protestam contra práticas trabalhistas adotadas nas construções dos estádios do Mundial do Catar 2022

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 15h00

Noruega, Alemanha, Holanda e Dinamarca. Estas e outras seleções europeias chamaram a atenção nesta semana com ações simbólicas a supostas irregularidades no campo dos direitos humanos no Catar, que vai organizar a Copa do Mundo de 2022. Partidas das Eliminatórias foram usadas para criticar o tratamento dado aos trabalhadores imigrantes, principalmente nas obras de construção dos estádios do Mundial. Perto de 6.500 operários morreram nas obras da Copa, de acordo com o The Guardian.

A Noruega foi a primeira a acender o estopim antes da partida em Gibraltar, na quarta-feira. Os jogadores vestiram uma camiseta com a mensagem: "Direitos humanos dentro e fora do campo". Uma ação repetida no dia seguinte pela Alemanha com uma foto bastante difundida nas redes sociais, mostrando os onze jogadores enfileirados, cada um nas costas com uma das onze letras de "HUMAN RIGHTS", direitos humanos em inglês. "Devemos deixar o público saber que não estamos ignorando essa questão", explicou o meio-campista do Bayern de Munique, Leon Goretzka. "Temos um grande eco, que podemos usar de uma maneira linda."

HIPÓTESE DE BOICOTE

A Holanda protestou no sábado no jogo contra a Letônia, e a Dinamarca fez o mesmo no domingo no duelo diante da Moldávia. Em ambos os casos, vestiam camisas com a mensagem "O Futebol apoia a MUDANÇA". A Fifa está ciente das denúncias e promete agir, se for o caso. A Copa do Mundo está em construção há mais de cinco anos. A Alemanha voltou a protestar no domingo, antes da vitória sobre a Romênia, com as camisas dos jogadores invertidas, com o número e o nome no peito. Foi uma alusão menos explícita do que a de quinta-feira, mas os atletas queriam fazer alusão aos 30 artigos da Carta dos Direitos do Homem das Nações Unidas.

A hipótese de boicote à Copa do Mundo foi levantada pela federação norueguesa, embora esteja longe de ser seriamente estudada pelas grandes nações do futebol. "Para um boicote, estávamos dez anos atrasados. Naquela época (quando a Copa do Mundo foi atribuída ao Catar) teria sido necessário refletir", lançou o alemão Joshua Kimmich.

O técnico da Bélgica, Roberto Martínez, declarou no jornal La Dernière Heure que "boicotar a Copa do Mundo não é a solução. Seria virar as costas ao problema. Devemos, pelo contrário, enfrentá-lo". Na França, a decisão foi tomada. "O Catar foi designado há muito tempo por pessoas responsáveis, não vamos questionar um ano da organização. A França estará presente no Catar se conseguir se qualificar", disse o presidente de sua federação, Noel Le Graët, à agência France Presse em março.

O capitão francês, o goleiro Hugo Lloris, em todo o caso, apoiou o movimento: "É bom que os jogadores tenham o direito de se manifestar. Acho que nenhum jogador é insensível ao que se diz ou se escreve sobre tudo isso", declarou. Já o lateral francês Lucas Hernández ficou incomodado com esta pergunta: "Não sei em que condições (os trabalhadores) trabalham no Catar, não sou eu que devo dizer se está tudo bem ou não", disse evasivamente. Jogador do Bayern de Munique, ele vive uma situação delicada, já que seu clube é patrocinado pela empresa aérea Qatar Airways.

O craque brasileiro Neymar também tem negócios com o Catar. Em 2018, ele assinou contrato para ser embaixador do banco nacional do país, o Qatar National Bank, com atuação em 28 países. O pai do jogador assinou o acordo. "Muito feliz com a parceria e por ter me tornado embaixador global de um grupo tão forte como o Qatar National Bank", escreveu o jogador nas redes sociais.

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Acho que nenhum jogador é insensível ao que se diz ou se escreve sobre tudo isso
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Hugo Lloris, goleiro da seleção francesa

A Fifa tem preferido ser discreta até agora sobre o assunto, afirmando "acreditar na liberdade de expressão e no poder do futebol para fazer mudanças positivas" no Catar. Ela se recusa a punir as seleções que se mobilizaram, quando em geral proíbe declarações políticas no âmbito das partes. No Catar, que afirma ter feito mais do que qualquer outro país da região para melhorar as condições de trabalho dos imigrantes, a questão ainda não ganhou grande escala.

A autoridade governamental encarregada de organizar e construir os estádios rejeita todas as denúncias. "Sempre fomos transparentes quanto à saúde e segurança dos trabalhadores", afirmou em nota, informando que só houve "três mortes relacionadas com o trabalho e 35 mortes não relacionadas com o trabalho" desde o início da construção em 2014. "Os preparativos já trouxeram benefícios significativos aos trabalhadores."/COM AFP.

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