Samuel Petrequin/AP
Samuel Petrequin/AP

Jogadores de Togo cedem à pressão e abandonam Copa

Atletas haviam decidido jogar, mas voltaram atrás após pressão do governo e ameaça de novos ataques

Tercio David, estadao.com.br

10 de janeiro de 2010 | 12h39

Governo e clubes europeus de um lado. Jogadores de outro. Este é o cenário da seleção de Togo, vítima de um covarde ataque na última sexta-feira, quando o ônibus da delegação foi metralhado  por um grupo terrorista, em Cabinda, à caminho de Angola, sede da Copa Africana de Nações. Um impasse foi criado quando dirigentes pediram que o grupo abandonasse o torneio, antes mesmo deste começar. Os atletas se recusaram a deixar a competição após uma reunião, em um primeiro momento, mas acabaram cedendo à pressão, principalmente após a declaração de Rodrigues Mingas, um dos lideres das Forças de Libertação do Estado de Cabinda (Flec), de que os ataques iriam continuar. A delegalção de Togo deixou Angola por volta dàs 17 horas, de Brasília.

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Emmanuel Adebayor, capitão da seleção de Togo, admitiu em entrevista publicada no jornal italiano "La Gazzetta dello Sport", que a melhor alternativa mesmo era abandonar a Copa Africana. A seleção estria no Grupo B, ao lado de Gana, Costa do Marfim e Burkina Faso. A estreia dos togoleses estava marcada para esta segunda-feira, contra Gana, em Cabinda.

"De fato tivemos uma reunião entre os jogadores e decidimos jogar. Seria bom para o nosso país e uma forma de homenagear aqueles que morreram no ataque", disse o capitão da seleção. "Mas infelizmente os nossos líderes tomaram uma decisão diferente e por isto deveríamos voltar para casa."

A declaração foi o chamado 'balde de água fria' na intenção dos demais jogadores, que era de disputar a Copa Africana. "A decisão foi unânime", disse o meio-campista Alaixys Romao, ao jornal francês "L'Equipe". Segundo o diário, equipe havia concordado em ficar no torneio. "Pessoas morreram pela Copa Africana das Nações, outros ficaram feridos. Não podemos decepcioná-los e abandonar como covardes", completou.

No entanto, o governo de Togo se mostrou irredutível com relação à retirada de seus atletas de Angola, tomada horas depois do ataque ao ônibus, na sexta-feira. O primeiro-ministro Gilbert Fossoun Houngbo afirmou neste domingo que qualquer um que pretenda representar o Togo nos gramados angolanos estará fazendo "uma falsa representação".

"A decisão do Governo não mudou. É pensada e firme, tomada na sexta-feira. Entendemos o ponto de vista dos jogadores, que querem honrar seus companheiros que morreram e ficaram feridos, mas seria irresponsável as autoridades permitirem que eles continuassem", continuou Houngbo, em declaração às agencias internacionais.

No sábado, o Manchester City publicou em seu site que o craque e capitão da equipe de Togo, Emmanuel Adebayor, já havia inclusive deixado Angola, embora não se soubesse o destino do atleta, se retornaria ao país de origem ou se iria para a Inglaterra, para se reapresentar no time onde atua. No entanto, o jogador permaneceu em Angola e estava no grupo que decidiu, em um primeiro momento, contrariar as autoridades togolesas.

Outros times da Inglaterra também fizeram pressão sobre seus atletas para que abandonassem a Copa Africana. O técnico do Hull City, Phil Brown, foi o primeiro a pedir a volta dos africanos que disputam o Campeonato Inglês, como é o caso de Seyi Olofinjana (Nigéria) e Daniel Cousin (Gabão), que defendem seu time.

Em declarações publicadas neste sábado pelo jornal britânico "The Sun", Brown diz que queria seus dois jogadores "novamente em casa".

O técnico do Aston Villa, Martin O'Neill, expressou seu choque perante o ocorrido e se disse aliviado que o meio-campo Moustapha Salifou, de Togo, não tenha ficado ferido no ataque.

"O clube esteve em contato com ele e nos assegurou que está bem, mas está em estado de choque e extremamente triste", comentou o treinador.

Até o momento, três mortes foram confirmadas: a do motorista, do assessor de imprensa e de um auxiliar-técnico. Os jogadores feridos no ataque foram Serge Akakpo e Hadkovic Obilalé.

Arte/estadao.com.br
Local do ataque à delegação de Togo
TIROS

O episódio do ataque à delegação de Togo expõe ao mundo o conflito que abala Cabinda desde a independência de Angola, em 1975. Apesar de não fazer fronteira com o restante do país a região é uma das 18 províncias da ex-colônia portuguesa.

Cabinda, que fica entre a República Democrática do Congo (antigo Zaire) e a República do Congo, é uma região rica em petróleo e ainda tenta se desvincular de Angola. O líder das Forças de Libertação do Estado de Cabinda (Flec) Rodrigues Mingas reivindicou neste domingo a autoria do ataque ao ônibus de Togo e avisou que novos atentados irão ocorrer. "Vale tudo. Estamos em guerra. As armas vão continuar falando", disse ele à "AFP".

A cidade, palco do ataque, será sede de sete jogos da Copa Africana. A decisão de manter as partidas em Cabinda irritou Mingas, que criticou o presidente da Confederação Africana de Futebol (CAF), Isaa Hayatou. "Os ataques vão continuar, porque o país está em guerra e porque Hayatou é teimoso."

AVISO

O "Jornal Digital", de Angola, alertou sobre a possibilidade de ataques durante a competição e devido falta de segurança para as equipes que se deslocariam à província durante o torneio. Tanto que membros da organização da Copa Africana recomendaram a todas as delegações a não viajar ônibus pela região. (Com agencias internacionais)

(Atualizada às 17h23)

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