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Jogadores dispostos a correr risco

Até que ponto você arriscaria a vida pelo seu trabalho? A morte do zagueiro Serginho, do São Caetano, levou muitos atletas a fazer essa pergunta e uma reflexão sobre o valor da carreira profissional. Logo após a tragédia no gramado do Morumbi, o goleiro Sílvio Luiz comentou que seu colega sabia que tinha problemas e havia "1% de chance de alguma coisa acontecer". Com base nessas informações, alguns atletas tentaram se colocar na situação de Serginho - e boa parte deles chegou à conclusão que vale a pena correr o risco."Se me dissessem que eu teria 1% de chance de morrer jogando eu arriscaria. Faria a mesma coisa que ele", disse o zagueiro Daniel, do Palmeiras, que foi companheiro de Serginho no São Caetano por cinco anos. O jogador disse que ficou chocado com a morte de um amigo, mas explica que, em muitos casos, a decisão de parar não envolve apenas fatores pessoais. "Há muita coisa em jogo que nem sempre diz respeito só a você. O Serginho, por exemplo, veio de uma família muito humilde e muitas pessoas dependiam dele", lembra Daniel. "Além disso era o que ele gostava. O que seria dele parando de fazer a única coisa que sabia?", questiona o palmeirense, lembrando que a carreira do colega já caminhava para o final. "Ele arriscou e não deu."Entre os jogadores de times cariocas e do exterior, vários disseram entender os motivos de Serginho e até admitiram que a sua morte serviu para que também mudassem de opinião se estivessem na mesma situação. "Conversaria com a família primeiro e passaria exatamente o que os médicos diagnosticaram. É uma decisão difícil", diz o atacante Magrão, do Gamba Osaka, colega de Serginho na conquista do vice-campeonato Brasileiro, em 2001. "Mas, se fosse hoje, eu pararia porque já passei por muita coisa no futebol, conquistei títulos e não me arriscaria."O meia Roger, do Fluminense, que presenciou a morte do húngaro Mikos Feher na época em que estava no Benfica, foi categórico ao afirmar que não é possível "brincar" com a saúde. O atleta destacou que encerraria a carreira, mesma opinião do zagueiro André Bahia, do Flamengo.Duas revelações do Rio, os volantes Júnior, do Flamengo, e Coutinho, do Vasco, de 19 e 20 anos respectivamente, não hesitaram em afirmar que mudaram de opinião depois da morte de Serginho. "É difícil. A gente sempre pensa que nunca irá acontecer conosco. No caso do Serginho, acho que ele optou pelo sustento da família, que é muito numerosa", afirmou Coutinho. "Eu talvez também pensasse assim. Mas, agora, que vi todos esses casos de morte em campo e de uma pessoa próxima, com certeza, pararia."Mas há quem arrisque. "Se tivesse 1% de chance de sofrer um acidente vascular eu continuaria jogando", diz o zagueiro Marinho, de 28 anos, do Atlético-PR. O zagueiro explicou que, quando era criança teve um sopro no coração constatado pelos médicos. "Mas nunca senti nada e continuo a jogar futebol, o que eu gosto, e o sopro no coração nunca atrapalhou em nada", disse ele. "Cada caso é um caso, no meu, faço exames regularmente.""O Serginho era um cara ótimo, sério e família, uma ótima pessoa que amava a Deus e fazia o que gostava; e o que aconteceu foi uma fatalidade", diz entre lágrimas o volante Simão, do Goiás, que jogou com o zagueiro no São Caetano. O mesmo comentou o atacante Somália, também do Goiás, antes de seu embarque para Campinas, para o jogo de dcomingo contra o Guarani. No entanto, ambos, assim como Serginho, não deixariam de jogar.Indecisão - "Eu estive pensando nisso", diz Diego, goleiro do Atlético-PR. "O que a gente mais gosta é jogar futebol e, de repente, surge essa interrogação: Jogar ou parar e eu, no lugar dele (Serginho), não saberia responder." Fernandão, atacante do Internacional, também é daqueles que acreditam que o esporte tem riscos, mas ninguém imagina que vai acabar em morte: "Somente quem passa por uma situação dessas é capaz de avaliar e partir para a tomada de decisão", acredita.O goleiro do Coritiba, Fernando, disse que iria pensar seriamente na possibilidade de encerrar a carreira. "Pararia para ver como iria reagir e o que representa esse 1%", afirmou. "Às vezes o 1% é muito, porque não tem volta." Sua primeira atitude, no entanto, seria uma conversa esclarecedora com o médico para conhecer bem a doença e procuraria outras opiniões.

Agencia Estado,

30 de outubro de 2004 | 10h39

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