Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Em Chapecó, jogadores mantinham relação íntima com o cotidiano da cidade

Elenco da Chapecoense participava do cotidiano da cidade e mantinha contato com torcedores em todos os lugares

Daniel Batista e Gilberto Amendola, enviados especiais a Chapecó, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2016 | 06h05

Os jogadores da Chapecoense tinham uma relação íntima com o cotidiano da cidade em que viviam. Eles não eram apenas os ídolos do gramado, muito menos os heróis distantes que só podem ser admirados da arquibancada ou pela televisão. Eles eram os vizinhos, os clientes, aqueles que se sentavam na mesa ao lado, que comiam da mesma comida e dividiam os mesmos espaços. Eles eram parte da cidade e a cidade era parte deles.

Prova disso é que no dia 24 de novembro, depois de uma classificação histórica para a final da Sul-Americana, jogadores e comissão técnica foram comemorar naquele que é considerado o restaurante mais “chique” de Chapecó, o Spettus.

O grupo chegou por volta da 1h30 da manhã. O clima era de celebração, algazarra e pagode. O volante Gil foi quem fez o singelo pedido de “latinha de feijão” para conseguir acompanhar o ritmo das palmas e do pandeiro. “A gente chegava nas mesas e só ouvia eles falando da final, falando dos planos para ganhar o título e como seria bom esse final de ano”, afirma Laudélio Teles da Silva, 22 anos. 

Nesse dia, a conta da mesa da Chapecoense deu R$ 45 mil – que foram pagos sem choro e com alegria.

Da cozinha do restaurante saiu o responsável pelas carnes, o Jucimar Guerra, 30 anos. “Os jogadores me chamavam de ‘especial’. Esse era o meu apelido porque eu sempre dizia que iria preparar ‘aquela carne especial’ para eles”, lembra. Emocionado, Guerra conta que os jogadores Gil e Ananias eram muito próximos e generosos. “Minha filha nasceu em fevereiro. Na semana seguinte, eles deram 60 peças de roupa para minha filhinha. Eram pessoas muito boas. Eram nossa família”, completa.

A sensação de pertencimento era algo palpável em todo o comércio de Chapecó. Nas vitrines das lojas e restaurantes, sempre há uma bandeira do time ou uma mensagem de força e fé. O dono da pizzaria Don Sini, Adriano Donde, 37 anos, era um dos mais abalados. "Aqui é o restaurante da Chape. Eu patrocinei a equipe no começo e, até hoje, os jogadores recém-contratados ou da base são trazidos aqui para almoçar e jantar”, conta. Para ele, a imagem mais marcante é a do goleiro Adriano com uma marmita na mão – esperando calmamente na fila do buffet. “No começo da Chape, quando ainda não havia estrutura, os jogadores saiam do campo e vinham direto para o restaurante. Nem banho eles tomavam”, recorda, com saudade.

Perto dali, em uma loja de skate, um manequim com o uniforme da Chapecoense e uma vasta cabeleira chamava atenção. “Essa é uma homenagem ao Kempes. Ele e outros jogadores eram nossos clientes. Na maioria das vezes, vinham comprar bonés. Jogador de futebol adora boné”, fala o vendedor Fernando Tiepo , 28 anos.

Mas nem só de bonés vivem os jogadores. Durante festas mais formais ou premiações, eles procuravam a loja de aluguel de roupas para festas da Loreni Antonini. “Quando chegava algum evento, eles vinham desesperados atrás de terno ou camisas mais sóbrias. Eram todos simpáticos”, diz Loreni.

A relação dos jogadores com a cidade é tão forte que o meia Cléber Santana estava próximo a se tornar sócio de um bar e restaurante, o Casa da Mata. Desde que o acidente com o avião da Chapecoense se tornou público, o local permaneceu fechado. 

A tristeza da cidade pegou até o vendedor ambulante. Luiz Henrique Pedroza, 19 anos, já havia produzido cartazes com uma foto do time e a palavra campeão em letras gigantes. “Quando aconteceu esses cartazes já estavam prontos. Sei do tamanho da tragédia, mas resolvi tentar vendê-los mesmo assim”, conta.

 

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