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Jogando contra

Diferença entre públicos na Europa e no Brasil é brutal

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

05 de março de 2017 | 05h00

Dia desses o Sportfreunde Lotten, da Terceira Divisão da Alemanha, recebeu o 1860Munchen, da Segunda, para jogo da fase de dezesseis avos de final da Copa nacional. Duelo de equipes comuns, como centenas que há no país campeão do mundo. A disputa por vaga para as oitavas foi no Sportpark am Lotter Kreuz, estádio para 10 mil torcedores. Pagantes daquela partida: 10 mil, ou lotação total.

Na Inglaterra, por etapa semelhante da FA Cup, o Huddersfield Town, da Segundona, hospedou o Manchester City no John Smith’s Stadium, onde 24.129 torcedores viram o empate por 0 a 0. Ficaram só 371 lugares disponíveis para atingir 100%.

Durante a semana, o Grêmio recebeu o Ceará pela Primeira Liga, na sua moderníssima arena, em Porto Alegre. Feitas as contas, anunciou-se público total de 2.944 torcedores, renda de R$ 34.700. O estádio, inaugurado em dezembro de 2012 tem capacidade para 60.540 pessoas. Esse foi o pior número em 4 anos de funcionamento do local.

O que os três exemplos têm em comum? O óbvio, jogos de futebol, esporte mais popular para alemães, ingleses e brasileiros. Onde há a diferença? Também escancarada aos olhos: ocupação dos estádios. Os europeus com casas cheias; o nosso campeão da Copa do Brasil apresentou-se num palco quase vazio, com arrecadação risível, fora prejuízo chorado e sacramentado.

Alguém pode considerar injusta a comparação, pois o poder aquisitivo dos gringos é maior do que o nosso. Concordo. Receber em euros ou em libras, atualmente, significa ter mais possibilidade de gastar com lazer do que com o real. Mas esse se torna um dos aspectos de questão mais ampla.

Há muito alemães e ingleses, sobretudo, conseguiram ter público fiel para o joguinho de bola, independentemente do torneio. (Escoceses e turcos também adoram ver futebol in loco, assim como franceses, portugueses, espanhóis, italianos, holandeses, embora em menor grau.) Não importa que seja Campeonato, ou Champions, ou amistoso, ou Copa nacional: sempre as arquibancadas e tribunas estão lotadas.

Mesmo com transmissões por televisão, com internet e outras facilidades, manteve-se o hábito de fazer com que o aficionado saia de casa e vá ao campo. Dirigentes consideram a plateia parte indissociável da estratégia do negócio. Quanto mais interesse houver por ingressos, tanto mais significa que o produto é rentável. Ou seja, vende-se para publicidade e tevê com facilidade.

Por isso, o consumidor recebe tratamento adequado, de acesso, segurança, comodidade. Não é à toa que há filas de esperas, em certos casos de anos, para quem pretenda seguir de perto os principais clubes da Inglaterra e da Alemanha. Não se trata de coincidência que até confrontos entre timecos regionais sejam disputados com carga total de bilhetes, independentemente da capacidade do estádio.

Chover no molhado afirmar que, nesta bendita terra, pouco se faz para atrair freguesia. Iniciativas como as de sócio-torcedor são interessantes, apesar da tendência para elitizar a frequência. De qualquer maneira, representam movimento, tentativa de sair do lugar-comum. O Palmeiras é o exemplo de mais sucesso, após queda de procura por parte de corintianos e colorados.

Mas se está longe de fisgar universo amplo de fãs. Cartolas acomodam-se com quotas de tevê e patrocínio, e pouco se mexem para ver estádios cheios. O torcedor é desprezado, como se viu durante a semana, nas peripécias para definir como, onde e de que jeito será disputado o Fla-Flu decisivo de hoje – tudo o que houve serviu como anticlímax. Sem contar que muitos são vistos, por organizadores e polícia, como desordeiros em potencial e não como alma do espetáculo. E dá-lhe arquibancadas entregues às moscas.

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