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Jogar, a homenagem

A melhor maneira de atletas reverenciarem a memória dos colegas mortos é irem a campo

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2016 | 06h00

A semana foi triste e repleta de manifestações de solidariedade por causa do acidente que arrasou a Chapecoense. A gente de Santa Catarina portou-se com dignidade, respeito e seriedade; os colombianos nos fizeram chorar com provas de carinho, de humanidade que jamais devem ser esquecidas. Mostraram-se generosos, simples, calorosos. Irmãos de verdade.

Por aqui a comoção continua intensa, e foi de tocar o coração a chegada dos corpos, o reencontro com torcedores e familiares. A perplexidade atingiu em cheio os atletas profissionais, chocados com a perda de tantos companheiros. A CBF agiu bem ao suspender competições no mínimo por uma semana, em sinal de luto. Nestes dias, seriam indigno a bola rolar.

Dentre as reações de apoio, surgiu esboço de movimento para que os clubes da Primeira Divisão não entrassem em campo, no próximo domingo, para disputar a última rodada do Brasileiro de 2016. O gesto mais radical partiu do Atlético-MG, ao avisar que não disputará o jogo com a Chapecoense; aceita a derrota por WO e fim de conversa. Elenco do Inter de Porto Alegre – além de um jogador cá, outro acolá –, veio a público dizer que não se sentia em condições psicológicas para atuar.

A iniciativa do Galo é adequada. Como nada estará em disputa, tanto faz ganhar, empatar ou não aparecer para o compromisso em Chapecó. Não faz o menor sentido pisar na Arena Condá, nestes dias transformada em velório e santuário para peregrinação. Mesmo que também a Chapecoense perca os pontos, será compreensível. Violência e ofensa se alguém a obrigar a cumprir um ritual por ora descabido.

Já a lamentação de boleiros soa fora de propósito. Não se nega o sentimento deles – todos sabemos o quanto é duro perdermos amigos, conhecidos, parentes. Mas, com peito apertado, tocamos a vida. Jornalistas também choram a morte de companheiros queridos. No entanto, desde o primeiro momento estão na Colômbia, em Chapecó, nas redações a elaborar o noticiário sobre a tragédia. Equipes de Fox, Globo e outras emissoras enviaram repórteres para falar das próprias baixas.

Não pararam também pilotos, comissários de bordo, fisioterapeutas, médicos, massagistas, advogados – enfim, categorias também atingidas pelo desaparecimento de seus confrades. Por que deveria ser diferente com jogadores? Pelo amor de Deus, que não se despreze a afeição de ninguém; não é o que se discute. O melhor que têm a fazer, a maneira mais simpática e cavalheiresca de homenagearem os rapazes que se foram está justamente em exercerem a atividade deles. 

Com fairplay, discrição, comedimento. Em três jogos, aqueles que envolvem Inter, Vitória e Sport – ameaçados de rebaixamento –, haverá tensão natural. Nos demais, pode prevalecer só o espírito de união, com a participação pacífica do público. E, como apoio adicional, a doação das rendas. Isso é gentileza, correção e sobriedade.

Agora, mais do que nunca, se deve jogar a última rodada. Porque, na avalanche de declarações, houve gafes por parte do Inter. Primeiro, um dirigente afirmou que o clube tem “tragédia particular, na luta contra o rebaixamento”. Pegou mal e se retratou. Depois, os atletas revelaram a falta de condições emocionais – e a repercussão foi negativa. O presidente, para agravar, avisou que, se o campeonato não acabasse, o Inter iria procurar os seus diretos. Os moços na sexta voltaram a falar e se dispuseram até a “ir para a Segunda Divisão”, se não tiver a rodada. 

Não se condena o medo colorado com eventual queda. Ir para a Série B é chato mesmo. Mas não se trata do fundo do mundo. Outros grandes passaram por situação idêntica e voltaram, até mais fortes. Experiência dessa não é nada, comparada com a morte. Essa é irreparável.

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