Jogar bem com os pés vira obrigação para goleiros no Brasil

Jogar bem com os pés vira obrigação para goleiros no Brasil

Times escalam arqueiros na linha e fazem treinos específicos para aperfeiçoar habilidade com a bola no chão

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 14h00

Mostrar habilidade com os pés deixou de ser um diferencial para os goleiros e passou a ser uma obrigação. No Corinthians, os treinamentos do técnico interino Dyego Coelho exigem o aperfeiçoamento da saída de bola do goleiro Cássio, que faz trabalhos específicos no fundamento. No Santos, Vanderlei perdeu a vaga de titular para Everson por causa da saída de bola com os pés. 

Segundo o Footstats, o goleiro apresentou um aumento de 60% de toques com pé na saída de bola. Por conta da exigência maior, Cássio reconheceu que ainda precisa evoluir. "É uma coisa que eu já fazia, mas que precisa ser exercitada. Na Copa do Mundo, quando voltei, eram Osmar Loss e Coelho, e eles trabalhavam muito isso. Quando voltei da Copa América também tentamos fazer, mas é uma situação que preciso treinar para fazer. Todo dia a gente tem treinado, acredito que vá ter evolução. Tentei, mas tem que ter sabedoria, não vou virar um Neuer ou Ederson do dia para noite", analisou o goleiro corintiano.

Cássio revelou ter conversado com o Ederson, goleiro brasileiro do Manchester City, sobre a utilização dos pés. "Ederson me falou: 'Os caras me dão opção para jogar'. Às vezes não dá para arriscar e fazer de qualquer jeito. Coelho me deixa à vontade. Muitas vezes no chute direcionado a gente conseguiu criar oportunidades ganhando a segunda bola com Clayson e Avelar, então tem que ver o momento", completou.

Zetti aponta que o goleiro alemão citado por Cássio foi o grande responsável pela visibilidade da atuação dos goleiros com os pés. A partir de 1993, o goleiro perdeu o direito de pegar recuos dos seus companheiros de equipe com a mão, mas apenas na Copa do Mundo a evolução dos arqueiros ficou evidente. 

"Eu e o Rogério Ceni já fazíamos isso quando atuamos. Ronaldo Giovanelli, do Corinthians, também tinha qualidade boa. A partir da mudança da regra, os goleiros começaram a se adaptar. O Neuer fez isso na Copa do Mundo de 2014. Ninguém tinha feito numa Copa. Isso chamou a atenção para o goleiro trabalhar com a bola nos pés. Hoje, o goleiro tem de ter essa qualidade. O esquema tático exige que o goleiro trabalhe um pouco mais", diz o ex-goleiro campeão mundial com o São Paulo em 1992 e 1993. 

Cada clube vem adotando uma estratégia diferente para aperfeiçoar a habilidade dos goleiros. O Bragantino, campeão da Série B e com vaga garantida na elite no ano que vem, promove treinos em que os arqueiros atuam como jogadores de linha. 

"Tentamos priorizar a técnica de execução e a escolha das melhores opções de passe. Para isso, utilizamos como metodologia os treinos específicos e os trabalhos com o grupo", explica Rodrigo Bruns, preparador de goleiros do time de Bragança. "Frequentemente o Zago (Antonio Carlos, técnico da equipe) utiliza os goleiros como jogadores de linha em seus exercícios. Isso aumenta muito a complexidade dos estímulos, o que é muito benéfico para o desenvolvimento dos goleiros. O uso de vídeos dos nossos jogos e exemplos que ocorrem com outros goleiros também são ferramentas muito utilizadas.

"Com certeza, o trabalho com os pés é uma das prioridades atacadas nos treinamentos, mas não podemos deixar de considerar que o goleiro é uma posição prioritariamente defensiva, e os treinamentos devem ser direcionados principalmente para essas ações", completa Rodrigo. 

No Fortaleza, clube comandado por Rogério Ceni, autor de 61 gols de falta quando atuou como jogador, a exigência é ainda maior. "A gente faz muito o trabalho de passe todos os dias. Também é importante o trabalho de percepção e o controle emocional. É um conjunto de situações. Além disso, o Rogério exige muito ao trabalhar as situações de jogo", diz Guto Albuquerque, preparador de goleiros do time cearense. "Não temos muitas dificuldades porque o Felipe Alves era jogador de linha e começou a carreira no futsal", completa. 

No Santos, o técnico Jorge Sampaoli simplesmente trocou de goleiro para ter maior qualidade na saída de bola. Titular até a chegada do argentino, Vanderlei perdeu espaço para o recém-contratado Éverson

Éverson chegou ao Santos em janeiro, a pedido de Sampaoli, que buscava um goleiro com mais qualidade para jogar com os pés. Ele não foi titular de início, mas passou a ser mais utilizado aos poucos e tomou conta da posição de Vanderlei. Titular desde a sétima rodada do Campeonato Brasileiro, Éverson igualou o número de jogos do companheiro no mês de setembro. Hoje, é titular absoluto. 

Sem ser utilizado pelo comandante argentino desde a sexta rodada do Brasileiro, Vanderlei estacionou nos 24 jogos em 2019, sendo a maioria pelo Campeonato Paulista (14) - além de seis pelo Nacional, dois pela Copa Sul-Americana, um pela Copa do Brasil e o amistoso contra o Corinthians. Foram 24 gols sofridos, o que resulta em uma média de um por jogo. Em entrevista exclusiva ao Estado, no mês de fevereiro, quando ainda era titular, Vanderlei disse que o "goleiro tem de ser bom com as mãos"

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