'Jogar bonito não é fazer firula', diz Paulo Roberto Falcão

Ex-jogador da seleção e hoje treinador completa 60 anos nesta quarta-feira

Marcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2013 | 13h51

SÃO PAULO - Um dos destaques da inesquecível seleção brasileira de 1982, ídolo histórico do Internacional e 'Rei de Roma', o ex-meio-campista Paulo Roberto Falcão completa 60 anos nesta quarta-feira. Falcão pendurou as chuteiras em 1986 e foi técnico durante cinco anos na década de 1990, quando treinou a seleção brasileira e o Inter de Porto Alegre. Sem conseguir resultados expressivos, acabou deixando a função e passou a atuar como cronista e comentarista esportivo. Em 2011, retomou a carreira de técnico no mesmo clube em que foi lançado para o futebol, alcançando o título do Campeonato Gaúcho. No ano seguinte, ajudou o Bahia a reconquistar o Baiano onze anos após sua última conquista.

Hoje sem clube, Falcão espera a oportunidade de voltar a treinar um time brasileiro. Estudioso do futebol e defensor de contratos de longo prazo, ele lamenta ainda não ter conseguido assumir o cargo de treinador desde um início de temporada, mesmo que traga na bagagem a experiência de seis Copas do Mundo - duas como jogador, quatro como comentarista. Nesta entrevista ao Estado, Falcão fala sobre a carreira como jogador de futebol, seus planos como técnico, o movimento de jogadores por mudanças no calendário do futebol brasileiro e sobre o momento da seleção brasileira.

A seleção de 1982 é, na sua própria definição, "o time que perdeu a Copa e ganhou mundo". Três décadas depois, como você vê aquela equipe?

FALCÃO - Da mesma maneira. É um time que é falado até hoje, que entrou para a história. Mas só entrou para a história porque jogou bem. No futebol você pode ter quatro situações: jogar bonito e ganhar, jogar bonito e perder, jogar feio e ganhar, e jogar feio e perder. Evidente que todo mundo prefere jogar bonito e ganhar, mas eu acho que, além disso, tem uma quinta possibilidade: aquela de jogar e entrar na história, que é o que a seleção da Copa do Mundo de 1982 fez. É um time que permanece na história porque jogou bem; não ganhou, mas marcou justamente porque jogou bem. Mas as pessoas às vezes confundem. Jogar bonito não é fazer firula, não é jogar de calcanhar; jogar bonito é um time que joga organizado, em velocidade, que dá dois toques na bola, que consegue ter uma boa compactação. Isso é jogar bonito.

Vê algum time jogando dessa forma?

FALCÃO - A seleção da Espanha jogou um futebol bonito na Copa, o Barcelona jogou assim e ganhou. São times que se inspiraram, como disse o Guardiola, naquela seleção de 1982.

Você fez parte de uma das gerações mais vitoriosas da história do Internacional. Quais suas lembranças daquele tempo?

FALCÃO - São muitas, eu fiquei 16 anos no Internacional, desde as categorias de baixo até em cima. Os três títulos brasileiros foram importantes, em 1975, 1976 e 1979, e num momento em que era muito difícil fazer futebol, num momento em que você procurava um dirigente, uma pessoa que tivesse força e credibilidade de ter condições de conseguir empréstimos, essas coisas. Hoje é mais fácil, hoje os times ganham muito dinheiro da televisão e outras situações. Na época era diferente, por isso que a gente tem que valorizar os dirigentes da época. Em 1979 foi o time que ninguém conseguiu igualar, que foi campeão invicto, mas 1975 foi o início da marcação do futebol gaúcho no Brasil, porque só se falava em Rio e São Paulo. O Internacional vinha beliscando o título, em 1973 e 1974. Em 1975 ganhou, em 1976 veio o bi e foi a consagração, em 1979 veio o título invicto, coisa que não se conseguiu mais.

Desses três times, há quem diga que o de 1976 era o melhor...

FALCÃO - Eu não gosto muito de comparações. Em 1979 o time foi campeão invicto com um time completamente novo, à exceção era o Valdomiro e eu, os remanescentes de 1975. Era um time forte, chegou o Marinho Perez... Mas se você lembrar que a final de 1975 foi com o Cruzeiro (a semifinal com o Fluminense foi no Rio, a decisão aconteceu em Porto Alegre) e o Cruzeiro tinha um timaço, com o Raul no gol, o Piazza, o Nelinho.

Sua saída do clube em 1980 até hoje gera polêmica. Olhando para trás, considera que algo devia ter sido feito diferente?

FALCÃO - Não, minha saída era inevitável. Eu tinha quase 27 anos, eu queria uma experiência na Europa e o Internacional também precisava de dinheiro. Hoje você vende um guri com 19, 20 anos, e por isso que é difícil montar um time, você não consegue juntar os guris.

Na Itália você acabaria conhecido como o 'Rei de Roma', a ponto de ter sido ovacionado no estádio Olímpico em um jogo no início da década passada, mesmo muito tempo depois de ter deixado o campo. Como foi isso?

FALCÃO - Foi uma loucura, eu nunca tinha visto nada parecido. Era Roma x Juventus, e o Roma já havia ganhado um título depois do meu time. E eu cheguei no estádio, o Roma era líder, mas mesmo assim eu fui aplaudido por 80 mil pessoas de pé. Era algo que eu nunca tinha visto na minha vida. Não foi por eu ter feito um gol; foi um momento de grandiosidade de uma torcida comigo. Eu fiquei muito tocado, porque eu sabia que eles gostavam de mim, mas eu não sabia quanto.

Ano passado você passou um período na Fiorentina. Como você vê o futebol lá e aqui?

FALCÃO - Eu gosto muito da maneira de organização dos times italianos, eles valorizam muito a parte tática. Eu estive lá dois anos seguidos. Eu conversei com o Arrigo Sacchi - treinador da seleção italiana em 1994 e multicampeão com o Milan -, ele gosta muito do Brasil, vem seguidamente, então eu fiz um intercâmbio de ideias; e com o Cesare Prandelli, que já era treinador da seleção italiana, e conversamos muito sobre futebol. Ano passado eu estive na Fiorentina conversando com o Vicenzo Montella, acompanhando o trabalho deles, mostrando o que a gente faz aqui. A gente precisa estar sempre se informando, procurando melhorar profissionalmente e também mostrando algumas coisas.

Voltando um pouco, você encerrou sua carreira no São Paulo. Como você vê sua passagem pelo clube?

FALCÃO - Foi muito rápida, conflituosa num momento, depois terminou tudo bem. Mas deu para ganhar o Campeonato Paulista (em 1985), e o time do São Paulo cresceu muito naquele ano, se tornou um time muito forte, de muita velocidade. Para você ter uma ideia os atacantes eram o Müller e o Careca, e o time inteiro jogava para os dois. O ataque tinha muita tabela, muita velocidade, muita inteligência. A defesa também era boa.

Tem algum diagnóstico para o que está passando o São Paulo hoje?

FALCÃO - Ah, de longe é muito difícil. Precisa estar envolvido, não seria uma coisa ética e nem responsável opinar sobre algo que estou muito longe. Acompanho como todo mundo acompanha, mas não posso dizer que seja por isso ou aquilo. Até acho que nunca é apenas um problema, deve ter vários. Se fosse um era muito fácil resolver.

Você foi treinador no início da década de 1990, depois passou um longo período como comentarista, para enfim retomar a carreira em 2011. O que mudou nesse período?

FALCÃO - Eu fiz (como comentarista) as Copas do Mundo de 1998, 2002, 2006 e 2010; fiz muitas Libertadores, acompanhei muito treino de seleções, conversei com muitos treinadores, e isso me deu uma bagagem enorme. Eu só não consegui até agora começar uma temporada num time, que é o que eu queria. Eu queria pegar um time em novembro, para se apresentar em janeiro e começar uma preparação para jogar num esquema que eu acho que tem que jogar. Mas eu ainda não tive essa felicidade, eu entrei sempre no meio do campeonato. Em 1991, em 2011 no Internacional - o Grêmio já tinha ganhado o primeiro turno, tinha que ganhar o segundo turno em cima do próprio Grêmio, para levar para a superfinal, para ganhar de novo do Grêmio - e no Bahia também, eu peguei sem ter feito a pré-temporada, peguei em fevereiro (de 2012). Mesmo assim conseguimos o título com o Inter e com o Bahia, que não ganhava há 11 anos. Outra coisa muito importante, mesmo com o elenco com um monte de gente machucada nós conseguimos chegar com o Bahia entre os oito melhores da Copa do Brasil.

Você sempre defendeu contratos de longo prazo para treinadores, mas o Brasil tem a cultura do resultado imediato. Como trabalhar isso?

FALCÃO - Acho que a mídia é fundamental nisso. Nós vivemos hoje num mundo onde todos têm que fazer um pouquinho mais, e acho que a força da imprensa pode ajudar nisso, através de opiniões fortes. Ficar só relatando o que está acontecendo não vai fazer as coisas mudarem. É por isso que na Federação dos Treinadores, em que eu sou um dos vices, nosso objetivo é esse, é fazer os clubes entenderem - juntamente com a gente e com os executivos do futebol - que a gente precisa criar mecanismos que fique bom para todo mundo. Na hora de contratar um profissional é preciso pesar um pouco mais, pensar melhor, para buscar um profissional que possa trabalhar no clube pelo menos por um ano de contrato. Para você ter uma ideia de como funcionam as coisas, em abril, conversando com o Vagner Mancini para falar sobre a Federação de Treinadores, que acabou se confirmando em agosto, ele me disse que, nos dois primeiros meses do ano, 168 treinadores haviam sido demitidos em todas as séries do Brasil. No Rio Grande do Sul se demitiu treinador depois de três jogos. Se você olhar o Campeonato Brasileiro, o Náutico deve ter demitido uns quatro ou cinco. Não tem como.

Se algum clube lhe oferecesse contrato hoje, já na reta final do Brasileiro, até o final de 2014, você aceitaria?

FALCÃO - Seria o ideal.

Mesmo pegando algum clube em momento ruim na competição?

FALCÃO - Vou dar o exemplo do Palmeiras no ano passado. Em agosto o Palmeiras me procurou e já tinha muitas chances de cair para a segunda divisão, como caiu. Uma das exigências que fiz foi essa, de terminar aquele ano e, no momento que a gente visse que não dava mais para salvar, projetar o ano seguinte, que seria um ano importante, com Libertadores, com inauguração da Arena Palmeiras. Meu objetivo era mais longo, mas aí houve uma desavença contratual. Mas acho que o certo é isso, se você sente que as coisas estão encaminhadas seria bom pegar agora, outubro, novembro, para preparar o início da temporada.

Nesse sentido, você acha que clubes que estão insistindo com treinadores interinos estão perdendo tempo?

FALCÃO - Eu, como treinador, não posso falar isso por uma questão de ética (com os interinos). É evidente que eu tenho minha opinião, mas cada um pensa de uma maneira e cada um deve ter seus argumentos.

Como você avalia o movimento Bom Senso FC?

FALCÃO - Acho muito bom, mas acho que o bom senso deveria ser de todos, de clubes, de imprensa, de todas as pessoas que estão envolvidas em futebol. É muito difícil até para a imprensa cobrir todos os jogos. É complicado, é muito jogo, é desgaste para jogador, você não tem uma pré-temporada adequada. Bom senso para mim são 30 dias de férias, no mínimo três a quatro semanas de preparação, e aí sim começar a jogar. Na preparação você faz a base para o ano inteiro, e se você não tem essa base no início do ano, você fatalmente vai ter dificuldades. O que um time faz? Começa a poupar jogadores, priorizar competições, o que não é bom.

Como você avalia a fase atual da seleção brasileira?

FALCÃO - Muito boa. Acho que o grande resultado contra a Espanha foi o marco. Nós tivemos muitas dificuldades com o México e com a Itália, mas o jogo com a Espanha foi o marco de reconquista com o torcedor. Não vou nem falar que a Espanha estava cansada, com calor, porque mesmo se tivesse jogado muito bem, o Brasil teria ganho, porque o Brasil jogou muito bem. Isso devolveu a confiança, e quando o jogador é bom, o time é bom, e ele tem confiança para jogar, ele cresce ainda mais.

E a respeito das últimas exibições da seleção?

FALCÃO - Mas aí não tem tempo para treinar, os adversários não exigem a capacidade total... Eu analisaria o todo, e acho que o todo está bem.

Tem o sonho de um dia voltar a treinar a seleção?

FALCÃO - Aos 60 anos a gente não tem mais sonhos, o sonho é muito mais para quando se é criança, eu sonhava quando tinha meus cinco, seis, doze anos. Hoje você pode ter desejos, mas nada que me faça não dormir. Quando eu peguei a seleção, na metade de 1990, meu objetivo era chegar até 1994, mas aí aconteceram algumas coisas e não foi possível. Mas deu para fazer um trabalho bom, com jogadores que depois jogaram em 1994, como o Cafu, Márcio Santos, Mauro Silva, e uma série de outros jogadores que acabaram tendo destaque depois. E a safra da época não era boa, não. Para você ter uma ideia de como estava complicado, a final do Paulista daquele ano não tinha Palmeiras, não tinha Corinthians, não tinha Santos e não tinha São Paulo. A final era o Bragantino do Vanderlei Luxemburgo contra o Novo Horizontino do Nelsinho Baptista. Os times eram muito bons, mas não era normal esses times ficarem de fora.

Pensa em seguir carreira apenas à beira do campo, ou cogita seguir algum cargo diretivo em algum clube?

FALCÃO - Depende, diretivo remunerado, pode ser. Eu tenho algumas coisas abertas para mim, que é televisão, trabalhar como treinador... Eu tenho essas possibilidades. Vamos ver.

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