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Jogo aberto

O que fazer? Ser apostador, ou apenas torcedor?

Ugo Giorgetti*, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 04h00

Essa Copa infringe a lógica desde o primeiro jogo. É uma série de resultados que ninguém esperava e que deixaram perplexos torcedores em vários continentes. E só estávamos na primeira fase. Agora, chegou o mata-mata. Preparem não seus corações, mas seus nervos e bolsos: está iniciada a temporada de jogo pra valer.

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Me refiro não aos jogos no campo, mas aos populares bolões. Sempre houve essas apostas informais, sempre circularam por aí. Na Copa atual, porém, viraram, de coisas habituais, a verdadeiros fenômenos. Certamente a velocidade das novas tecnologias tem muito a ver com isso.

Antes, organizar um bolão dava algum trabalho, além de ter um alcance bastante reduzido. Obrigatoriamente ele se restringia a pequenos grupos. Agora, estão a cargo de especialistas, gente que sabe o que faz e entende do negócio.

Continuam limitados a relativamente pequenas comunidades, mas, em compensação, esses grupelhos se espalham, multiplicados infinitamente pela tecnologia ao alcance da mão. Hoje, não dura mais do que uns 30 segundos você criar as regras, difundi-las nas redes sociais e esperar pelos resultados.

É uma infinidade de bolões que circulam por aí. Tem pra todos os gostos. Tem os que se referem apenas a um resultado. Tem os que premiam quem faz mais pontos considerando todos os jogos. Há bolões que só admitem mulheres, hoje muito em evidência e bastante conceituados, talvez pela fama da proverbial intuição feminina. Outros se referem aos demais gêneros e são específicos de cada um. Me contaram de um bolão onde só entra gente de esquerda.

 

Enfim, há uma febre de apostas, pequenas e grandes. Imagine-se agora, nas oitavas de final onde os jogos são únicos. Quem perde está fora. Teremos nessa fase, ademais, a possível disputa em pênaltis, o que equivale dizer novas regras nos bolões. Certamente, vai haver bolões contemplando apenas o resultado da partida, fora os pênaltis. Outros combinando resultado do jogo mais os pênaltis e, por último, sem dúvida os que levarão em consideração só os pênaltis.

Sei de especialistas circulando por aí com várias tabelas e normas, valendo-se uns de seus conhecimentos de estatística e matemática, outros apenas confiando na superstição e até em poderes mágicos. Há grave risco de, em certos ambientes, o bolão se tornar mais importante do que o jogo em si, cujo resultado pode ter efeitos devastadores.

O que fazer? Ser apostador, ou apenas torcedor? Isto é, reconhecer que seu time será possivelmente derrotado e então arriscar a aposta no adversário, ou se manter leal à pátria e perder o bolão? E, nesta Copa, qualquer um pode perder. Tudo se embaralhou perigosamente. Ninguém sabe o que pode acontecer sob o céu misterioso da Rússia, onde o dia, na verdade, é noite, e a noite, na verdade, dia. Não há lugar mais adequado para todos se atirarem e se perderem no jogo do que na Rússia. Afinal, não foi um dos maiores escritores russos que escreveu um romance, de fortes traços autobiográficos, que se intitula O Jogador? Façam seus jogos, senhores. 

*CINEASTA E COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’

 

 

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