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Jogo e espetáculo

Para fazer televisão ao vivo é preciso vencer o medo de errar

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

04 Novembro 2018 | 04h00

A melhor maneira de ver um jogo é no estádio. Todo mundo sabe disso e todo mundo concorda com isso. Acontece que ir ao estádio é para poucos. Primeiro os estádios se tornaram muito menores do que eram, além disso muito mais caros. Pouca gente pode se dar ao luxo de ir ao local mais apropriado para ver um jogo. Alarga-se assim a enorme quantidade de torcedores que só assistem aos jogos pela tevê.

É um local talvez menos apropriado para acompanhar uma partida, mas muito adequado pare ver um espetáculo audiovisual. Vamos ver se me explico. O fato de você não ver mais um jogo só com seus próprios olhos, escolher o que você quer ver, mas sim o que é transmitido por câmeras, isto é, o que o diretor de tevê quer que você veja, nesse momento você não está mais vendo um jogo, mas um show.

Quando você vê a partida pela televisão o que lhe mostram são imagens do jogo captadas e editadas umas após outras, segundo uma ordem estabelecida e comum a qualquer espetáculo de televisão. O jogo fica igual a uma novela ou um show musical. Deixa, a rigor, de ser futebol para ser arte dramática.

De fato, a televisão tem recursos para transformar uma partida de futebol num espetáculo como você vê nas telas, com os mesmos ingredientes de aventura e emoção, por exemplo. Seria preciso para isso que técnicos e diretores de tevê se convencessem de que o que estão transmitindo oferece elementos para ser muito mais do que um jogo de futebol. Seria preciso esquecer um pouco, primeiro o que só se dá no campo e, segundo, evitar ao máximo o óbvio, o repetitivo, imagens que já foram mostradas tantas vezes, que perderam seu poder dramático e seu impacto.

Por exemplo: um gol, momento dramático por excelência, é mostrado sempre do mesmo jeito. Um corte para a torcida comemorando e, numa imagem igual a outras, milhares de vezes mostrando jogadores pulando e erguendo os dedos, e, finalmente, repetição do chute para o gol, de vários ângulos.

Essas imagens são corretas, todas essas coisas acontecem mesmo, mas seriam as únicas? Entre tantas pessoas envolvidas na partida todas agem da mesma forma? Não haveria alguém diferente fazendo, dizendo, ou gesticulando coisas diferentes? É só uma pergunta não uma afirmação.

Não tenho certeza, mas alguma coisa me diz que sim, é possível captar imagens inesperadas, belíssimas na sua, às vezes, poesia triste ou alegre. Isso demandaria um olhar mais atento ao que se passa e não se contentar com imagens gastas. Há muito tempo as câmeras já são leves, portáteis, fáceis de transportar. Podem estar em qualquer lugar no campo e, no entanto, praticamente só vejo câmeras fixas, em lugares fixos. Até a abertura, com o hino nacional, é mostrada invariavelmente do mesmo ângulo, nos mesmos enquadramentos. Desse enquadramento não se moveram mais.

Isso vale para praticamente todos os lances das partidas, sempre mostrados do mesmo jeito. Isso tudo, talvez, em nome de uma estética rígida, que elimina conscientemente o improvisado e a imagem roubada, como eu chamaria. Uma estética que tem horror do inesperado e privilegia o que chama de imagem limpa, que é outra definição para imagem ascética e sem vida.

Sei que é difícil. Sei que há limitações num jogo que desafia os bravos técnicos responsáveis pelas partidas. Só lembraria a eles que são talvez os últimos representantes de um jeito de fazer televisão desaparecido, mas infinitamente criativo no passado, que é a televisão ao vivo. Para fazer televisão ao vivo é preciso vencer o medo de errar. É o medo que conduz a pobreza das imagens e câmeras imóveis. Um dia as transmissões de futebol vão se dar conta da quantidade de imagens que estão lá circundando e que nunca vemos. 

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