Paulo Liebert/Estadão
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Jogo novo

Futebol vive momento de transição e tem se aproximado do basquete em termos de consciência tática e versatilidade

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2018 | 04h00

Escrevo como torcedor, e não como especialista, que não sou. Por isso, talvez o que escreva não seja novidade. Mas me arrisco e lá vai. O futebol já mudou drasticamente nos últimos tempos, mas de maneira sutil se aproxima do basquete. É difícil se dar conta disso quando não se conhecem as duas modalidades, mas só uma. Quem conhece as duas sabe do que falo. Quando um garoto entra numa quadra de basquete, a primeira coisa que aprende é que deve atacar e defender. Atacar bem e defender bem, não vale ser uma coisa só, ou ser melhor numa especialidade do que na outra. Basquete é cinco que atacam e os mesmos cinco que defendem.

É claro que as melhores qualidades de um jogador estarão sempre em alguma das duas características. Ser um craque nas duas é para os astros, os fora de série. Mas não dá para ser mais ou menos em alguma delas. O basquete é um jogo que muda muito. Tempos atrás, por exemplo, quando havia visíveis nuances e diferenças entre várias posições, o armador não era um especialista em arremesso, sua função específica era outra. Nem o pivô era mais do que alguém fixo perto da cesta e próximo dos rebotes. Hoje esse tipos de jogadores estão quase desaparecidos. O armador virou arremessador de três pontos, o pivô igualmente, e todos têm que ser excelentes marcadores. A próxima temporada da NBA vem aí e será boa chance para ver essas mudanças.

Ainda há atletas à antiga, cada vez mais raros. Carreiras brilhantes não foram tão brilhantes porque o jogador não fazia bem tudo o que se exige hoje. Exemplo: Rajon Rondo, fantástico armador, mas menos eficiente nos arremessos e um marcador apenas razoável. Uma carreira que em outros tempos seria de astro virou uma carreira quase normal que entrou em declínio, apesar de jogar em alto nível.

O que isso tem a ver com o futebol? Tem a ver que hoje todos os times de futebol jogam com dez que defendem contra dez que podem atacar. Longe de ser algo de “time pequeno” como alegam alguns cronistas, é algo de time grande, e que veio para ficar. Não há mais equipes, e isso está claro nessa Copa do Brasil, por exemplo, que abram mão desse novo jogo como método consciente. Praticamente todos os times quando atacados jogam com duas linhas de defensores quase na altura da grande área, compactos, difícil de ultrapassar e que saem velozmente para o contra-ataque quando roubam a bola.

Isso não é a essência do basquete? O problema é que estamos num momento de transição. O velho jogo e o novo jogo ainda convivem. Mas vai chegar um tempo em que garotos já virão da base sabendo o que um jogador de basquete aprende. Ninguém mais pode errar passes, atacante ou zagueiro. Todos defendem e todos atacam em qualquer situação da partida. O atleta tem de ser duplo, mais que isso, completo.

Não estamos preparados para isso. Ainda há especialistas zagueiros, meio-campistas e atacantes. Os atacantes, aliás, estão sendo os primeiros a fazer várias funções, mas ainda não pela convicção que o jogo antigo acabou. Me parece que o time que mais está assimilando a nova mentalidade é o Cruzeiro. Um time que se defende, mas ao mesmo tempo ataca com muita velocidade.

Pouco a pouco vamos chegar ao jogador de basquete que, com naturalidade, sem imposição, será um jogador para quem é indiferente atacar ou defender. Terá um dia a mesma habilidade nas duas funções? Não sei, mas arrisco: se não tiver, não joga. Em tempo, eu mesmo, que choro o fim do futebol antigo, sinto que não dá para lutar contra fatos. Não vai se voltar atrás e lembranças de craques como Ademir, Ronaldo, Sócrates e Falcão serão não apenas lembranças, mas constatação de que hoje teriam de jogar de outro jeito. Talvez não conseguissem.

 

 

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